
Na quarta-feira, o blog mostrou que a China está construindo menos e que isso pressiona o minério de ferro. Na quinta-feira, 29 de outubro, a Vale, VALE3 (ADR: VALE), divulgou o resultado do terceiro trimestre, e os números confirmaram o roteiro: o minério rendeu bem menos. O lucro líquido foi de R$ 6,4 bilhões, 56% menor que no 3T25 (R$ 14,6 bilhões).
Na teleconferência do dia seguinte, a diretoria deixou claro que não prevê dividendo extraordinário em 2026. Mas o resultado trouxe também uma boa notícia, que muita gente vai deixar passar. Os dados sugerem que a Vale está ficando menos dependente do minério: em um ano, o cobre passou de 14% para 29% do resultado operacional da empresa. Para o dividendo, porém, o minério ainda é quem manda, e o próximo pagamento vai depender de como terminar o quarto trimestre.
O que aconteceu com o minério
O preço médio que a Vale recebeu pelo minério de ferro foi de US$ 85,1 por tonelada, 10% menor que no terceiro trimestre de 2025 (US$ 94,4). Ao mesmo tempo, os custos subiram. O custo de produção por tonelada (o chamado C1) foi de US$ 23,1, 12% maior que um ano antes, puxado pelo diesel mais caro e pelo real mais forte, já que a Vale vende em dólar e paga boa parte dos custos em reais. Somando o frete marítimo, também mais caro, o custo total chegou a US$ 60,4 por tonelada, 21% acima do 3T25.
A produção também recuou: foram 88,4 milhões de toneladas, 6% menos que no 3T25, principalmente pela menor disponibilidade de minério nas minas de Serra Norte, em Carajás, compensada em parte por um recorde trimestral em Serra Sul. A Vale manteve a previsão para o ano, mas agora mira o limite inferior da faixa, de 335 a 345 milhões de toneladas.
Preço menor, custo maior e produção menor: é a combinação que o blog descreveu no artigo sobre a China.
O que aconteceu com o cobre
No cobre, o trimestre foi o oposto. O preço médio recebido foi de US$ 15.314 por tonelada, 56% maior que no 3T25. E a Vale praticamente não teve custo para produzi-lo: o custo total ficou negativo, em menos US$ 175 por tonelada, porque o ouro e outros metais que saem junto com o cobre pagam toda a operação.
A tabela mostra o resultado operacional (EBITDA, o que a empresa ganha com a operação, antes de juros, impostos e depreciação) de cada negócio, em dólares:
| Negócio | 3T26 | 3T25 | Variação |
|---|---|---|---|
| Minério de ferro | US$ 2,63 bi | US$ 3,97 bi | −34% |
| Cobre | US$ 1,02 bi | US$ 0,61 bi | +66% |
| Níquel e outros metais | US$ 0,08 bi | US$ 0,07 bi | +15% |
| Despesas gerais da empresa | −US$ 0,23 bi | −US$ 0,26 bi | — |
| Vale inteira | US$ 3,51 bi | US$ 4,40 bi | −20% |
Um ano atrás, o cobre respondia por 14% do resultado da Vale (US$ 0,61 bilhão de US$ 4,40 bilhões). Agora responde por 29%. Foi o cobre que impediu uma queda muito maior. É o que o blog defendeu em julho, no artigo “A Vale que o mercado não vê”: o cobre e o níquel podem valer mais do que o preço da ação reconhece. A empresa também reafirmou a meta de produzir cerca de 500 mil toneladas de cobre por ano em 2030, contra uma previsão de 360 a 380 mil toneladas em 2026.
O que isso indica para o dividendo
A política de remuneração da Vale define um valor mínimo de 30% do EBITDA ajustado, menos os investimentos para manter as operações, pago em duas parcelas: uma em setembro e outra em março do ano seguinte. A parcela de março completa o valor do ano, descontado o que já foi pago em setembro.
Em setembro, a Vale pagou US$ 1,7 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio, os R$ 2,03 por ação aprovados em julho. A próxima parcela sai em março de 2027 e vai depender do EBITDA do ano inteiro. E aqui há uma surpresa positiva: graças a um primeiro semestre forte, o EBITDA ajustado de janeiro a setembro de 2026 está praticamente igual ao do mesmo período de 2025 (US$ 10,83 bilhões, contra US$ 10,87 bilhões).
Ou seja, o ano ainda não está perdido para o dividendo, mas o quarto trimestre decide. Se o minério continuar perto da mínima de dois anos, a parcela de março tende a ser menor. Se o cobre continuar forte e o minério se estabilizar, ela pode ficar perto da do ano passado.
O que não deve vir é um dividendo extra. Na teleconferência de sexta-feira, 30 de outubro, o diretor financeiro da Vale, Marcelo Bacci, disse que a empresa não prevê o pagamento de dividendos extraordinários em 2026, por causa das incertezas geopolíticas esperadas para o próximo ano. “Preferimos ficar do lado conservador”, afirmou. Segundo ele, o tema pode voltar a ser discutido no futuro, mas é cedo para isso. É uma mudança de tom: em outubro de 2025, o mesmo executivo tinha dito que dividendos extraordinários eram prováveis.
Em vez de dividendo extra, a Vale sinalizou recompra de ações. A empresa tem aberto um programa para recomprar até 100 milhões de ações, aprovado em julho, e Bacci disse que a queda das ações do setor abre oportunidades para usá-lo nos próximos meses. Recompra é quando a empresa usa o próprio caixa para comprar ações na bolsa: com menos ações, cada acionista passa a ser dono de um pedaço maior da empresa e, no futuro, a ter direito a uma fatia maior dos dividendos. Mas, diferentemente do dividendo, ela não cai na conta do investidor agora.
O balanço ajuda. A dívida líquida expandida (que soma a dívida financeira e compromissos como os acordos de Brumadinho e Mariana) caiu US$ 0,2 bilhão no trimestre, para US$ 16,4 bilhões, mesmo depois do pagamento de setembro. Está dentro da faixa de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões que a própria Vale considera adequada.
O que fica
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de VALE3 (ADR: VALE). Para quem acompanha a Vale pensando em renda, o resultado deixa quatro pontos:
- O minério ainda manda no dividendo. Ele respondeu por 75% do resultado operacional no trimestre. Enquanto a construção na China encolher, o dividendo da Vale tende a oscilar mais.
- Sem dividendo extraordinário em 2026. A diretoria preferiu a cautela e sinalizou recompra de ações no lugar. Para quem vive de renda, a expectativa realista é o dividendo mínimo da política, não um bônus.
- O cobre já faz diferença. Ele dobrou de peso em um ano e segurou o trimestre. Com o tempo, pode tornar o dividendo menos dependente de um único metal.
- O próximo teste é o resultado do quarto trimestre, em fevereiro de 2027, quando a Vale deve anunciar a parcela de março. A empresa também prometeu mais detalhes sobre corte de custos no Vale Day, seu encontro anual com investidores.
Na tese BICU do blog, a Vale está na letra C, das commodities: a parte da carteira que oscila mais, mas que pode multiplicar patrimônio quando o ciclo ajuda. O terceiro trimestre mostrou o ciclo do minério desfavorável, e o do cobre, a favor.
Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo
Fontes consultadas:
- Vale — “Desempenho da Vale no 3T26” e Resultado Trimestral do 3T26 (29/10/2026) — lucro líquido, EBITDA por área de negócio (em US$), preços realizados, custos C1 e all-in, produção, fluxo de caixa livre, dívida líquida expandida, pagamento de US$ 1,7 bilhão em dividendos e JCP em setembro.
- Vale — transcrição da teleconferência de resultados do 3T26 (30/10/2026) — faixa-alvo de dívida, meta de cobre para 2030 e Vale Day.
- Vale — Demonstrações financeiras intermediárias de 30/09/2026.
- Vale — Política de Remuneração aos Acionistas (POL-0038-G) — valor mínimo de 30% do EBITDA ajustado menos investimento corrente, em parcelas de setembro e março.
- CNN Brasil: “Vale não prevê dividendos extraordinários em 2026, diz CFO” (30/10/2026) — declarações de Marcelo Bacci sobre dividendos extraordinários e recompra.
- InfoMoney: “Vale: ‘É provável ter dividendos extraordinários em breve’, diz CFO” (outubro de 2025) — declaração anterior do mesmo executivo.
- Forbes: “Vale distribui R$ 2,03 por ação e lança nova recompra” (julho de 2026) — valor por ação pago em setembro.
- Dividendo Certo, artigos “A China constrói menos: o que isso significa para o dividendo da Vale” (28/10/2026), “A Vale que o mercado não vê: cobre e níquel” (09/07/2026) e “Tese BICU” (20/10/2026).
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