
A Equinor, petroleira norueguesa que faz parte da minha carteira internacional, divulgou o resultado do terceiro trimestre na quarta-feira, 28 de outubro. Foi um trimestre de petróleo caro, e os números mostram isso com clareza: o lucro ajustado mais que triplicou e a dívida quase desapareceu.
Mas, para quem investe por renda, o dado mais importante é outro. Os dados sugerem que o petróleo caro já virou lucro e caixa na Equinor, mas ainda não virou dividendo maior. O dividendo trimestral ficou em US$ 0,39 por ação, o mesmo valor anunciado em fevereiro. O dinheiro extra foi para outro lugar, e entender para onde ele foi ajuda a entender como funciona uma petroleira bem administrada.
O que o petróleo caro fez com os números
Os preços que a Equinor conseguiu vender subiram muito em um ano:
| Indicador | 3T26 | 3T25 |
|---|---|---|
| Preço médio do petróleo e líquidos vendidos | US$ 92,3 por barril | US$ 64,9 por barril |
| Preço médio do gás vendido na Europa | US$ 20,0 por milhão de BTU | US$ 11,4 por milhão de BTU |
| Produção de petróleo e gás | 2,17 milhões de barris equivalentes por dia | 2,13 milhões de barris equivalentes por dia |
| Lucro operacional ajustado | US$ 12,35 bilhões | US$ 6,22 bilhões |
| Lucro líquido ajustado por ação | US$ 1,20 | US$ 0,37 |
O petróleo vendido ficou 42% mais caro e o gás europeu, 75% mais caro, sempre em relação ao terceiro trimestre de 2025. Com a produção 2% maior no mesmo período, o lucro operacional ajustado (o resultado da operação, sem efeitos contábeis pontuais) praticamente dobrou, e o lucro por ação ficou mais de três vezes maior. A empresa também aumentou a previsão de crescimento da produção em 2026, de 3% para cerca de 4% sobre 2025.
Quem fica com a maior parte: o governo da Noruega
Aqui está o primeiro detalhe que o investidor costuma esquecer. A Noruega cobra impostos muito altos sobre a produção de petróleo no país. No terceiro trimestre, a alíquota efetiva de imposto da Equinor foi de 77,6%.
O exemplo mais claro está na produção norueguesa: ela gerou um lucro operacional ajustado de US$ 10,57 bilhões antes dos impostos e de US$ 2,33 bilhões depois deles. Ou seja, de cada US$ 100 que o petróleo caro rendeu na Noruega, cerca de US$ 78 ficaram com o governo. Só no trimestre, a Equinor pagou US$ 6,5 bilhões em impostos.
Isso não é um defeito: é o modelo norueguês, em que o país fica com a maior parte da renda do petróleo. Mas explica por que um petróleo muito caro rende menos ao acionista da Equinor do que rende a petroleiras de países com impostos menores.
Para onde foi o dinheiro que sobrou
Mesmo depois dos impostos, sobrou muito dinheiro. A geração de caixa da operação, já descontados os impostos pagos, foi de US$ 8,1 bilhões no trimestre e de US$ 21,8 bilhões nos nove primeiros meses do ano. A Equinor usou esse dinheiro de três formas:
- Pagou a dívida. A relação entre a dívida líquida e o capital da empresa caiu de 17,8% no fim de 2025 para 10,4% em junho e para 3,8% no fim de setembro. Na prática, a dívida quase zerou. A empresa tem US$ 24 bilhões em caixa e aplicações.
- Manteve o dividendo previsível. O dividendo do trimestre é de US$ 0,39 por ação, 5,4% maior que o do terceiro trimestre de 2025 (US$ 0,37), mas igual ao que a empresa prometeu em fevereiro, quando o petróleo ainda estava mais barato. O petróleo caro não mudou o valor.
- Recomprou ações. Recompra é quando a empresa usa o próprio caixa para comprar ações na bolsa e cancelá-las. Com menos ações, cada acionista passa a ser dono de um pedaço maior da empresa. Em junho, a Equinor dobrou o programa de recompra de 2026, de US$ 1,5 bilhão para até US$ 3 bilhões, e agora lançou a quarta e última parte, de até US$ 1,125 bilhão.
Por que o dividendo não subiu junto
Para quem esperava um dividendo maior, o resultado pode parecer frustrante. Mas a lógica é coerente com a forma como a Equinor distribui o dinheiro: o dividendo comum é tratado como algo estável, que sobe aos poucos, e não acompanha cada alta do petróleo. O que vem a mais, em anos bons, sai por outras vias: recompras e, às vezes, dividendos extraordinários, como o pago no início de 2025.
Para o investidor de renda, isso tem dois lados:
- O lado bom: o dividendo comum é previsível. Ele não dispara quando o petróleo sobe, mas também tende a não despencar quando o petróleo cai. Uma petroleira que distribuísse tudo no auge teria de cortar muito na baixa.
- O lado menos bom: quem quer renda imediata recebe menos do petróleo caro do que gostaria. A recompra aumenta o valor de cada ação ao longo do tempo, mas não cai na conta como provento.
É a mesma lógica que o blog discutiu no artigo sobre o petróleo acima de US$ 110: o petróleo caro não chega ao investidor de renda pelo caminho mais óbvio.
O que fica
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de EQNR nem de qualquer ação citada. O resultado do terceiro trimestre deixa três pontos para acompanhar:
- O anúncio de fevereiro de 2027. Junto com o resultado do quarto trimestre, a Equinor costuma anunciar o dividendo e a recompra do ano seguinte. Com a dívida quase zerada e US$ 24 bilhões em caixa, é ali que se verá se o petróleo caro de 2026 vira mais renda para o acionista.
- O preço do petróleo. A empresa está preparada para um petróleo mais barato, e o dividendo comum foi pensado para isso. Mas recompras e extraordinários dependem do preço continuar alto.
- As datas do dividendo atual. O dividendo de US$ 0,39 tem data ex (a partir dela, quem compra a ação não recebe mais o provento) em 15 de fevereiro de 2027 em Oslo e em 16 de fevereiro na bolsa de Nova York, com pagamento em 26 de fevereiro de 2027.
Na tese BICU do blog, a Equinor está na letra C, das commodities: uma parcela menor da carteira, que existe para multiplicar patrimônio quando o ciclo ajuda. O terceiro trimestre mostra o ciclo ajudando, mas também mostra que, numa empresa disciplinada, o ganho chega ao acionista aos poucos, e não de uma vez.
Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo
Fontes consultadas:
- Equinor — “Third quarter 2026: Financial statements and review” (28/10/2026) — preços realizados, produção, lucro operacional ajustado, lucro por ação, alíquota efetiva de imposto (nota 6), fluxo de caixa, endividamento, dividendo e programa de recompra (nota 7), declarações do presidente, Anders Opedal.
- Equinor — apresentação de resultados do 3T26, de Torgrim Reitan, diretor financeiro (28/10/2026) — resultado por segmento antes e depois dos impostos, impostos pagos, caixa e previsões para 2026.
- Dividendo Certo, artigos “Comecei a comprar Equinor (EQNR): por que a estatal norueguesa entrou na carteira internacional” (15/07/2026), “Petróleo acima de US$ 110: é bom ou ruim para quem vive de dividendos?” (21/10/2026) e “Tese BICU” (20/10/2026).
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