
Depois de um dia como segunda-feira, quando o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, os sites de cotação amanhecem com uma novidade aparentemente boa: o dividend yield de muitas ações subiu. Ações que pagavam 7% passaram a mostrar 8%, 9%, 10%.
Na minha leitura, esse é o momento em que o dividend yield mais ajuda e mais engana ao mesmo tempo. Ajuda porque, se o dividendo continuar, quem compra agora garante uma renda maior pelo mesmo dinheiro. Engana porque o número na tela olha para trás: ele mostra o que a empresa pagou, não o que vai pagar. A pergunta certa depois de uma queda não é “quanto o yield subiu?”, e sim “o dividendo vai continuar?”.
Por que o yield sobe sozinho
O dividend yield é a conta dos proventos pagos nos últimos 12 meses dividida pelo preço da ação. Como o preço está embaixo, quando ele cai, o resultado sobe, sem a empresa pagar um centavo a mais. Foi a primeira armadilha do artigo do blog sobre o dividend yield, publicado no sábado. Dois dias depois, ela apareceu em tamanho grande.
O que aconteceu com o yield das empresas acompanhadas pelo blog
A tabela usa os proventos dos últimos 12 meses (valor bruto, segundo o Status Invest), o preço de fechamento de sexta-feira, 23/10, e o preço de poucos minutos antes do fechamento de segunda-feira, 26/10:
| Empresa | Proventos em 12 meses | Variação do preço | Yield antes | Yield depois |
|---|---|---|---|---|
| Banco do Brasil, BBAS3 (ADR: BDORY) | R$ 0,69 | −27,8% | 2,8% | 3,9% |
| Bradesco, BBDC3 (ADR: BBDO) | R$ 1,47 | −20,8% | 8,1% | 10,3% |
| Itaú, ITUB4 (ADR: ITUB) | R$ 3,14 | −13,8% | 6,5% | 7,5% |
| Itaúsa, ITSA4 | R$ 1,13 | −12,9% | 7,4% | 8,5% |
| Taesa, TAEE11 | R$ 3,01 | −9,8% | 6,7% | 7,4% |
| Caixa Seguridade, CXSE3 | R$ 1,35 | −1,9% | 6,3% | 6,4% |
| BB Seguridade, BBSE3 (ADR: BBSEY) | R$ 4,59 | −1,5% | 10,5% | 10,7% |
| Vale, VALE3 (ADR: VALE) | R$ 5,61 | +4,5% | 9,1% | 8,7% |
Três coisas chamam a atenção.
1. Quanto mais o preço caiu, mais o yield subiu. No Bradesco, foi de 8,1% para 10,3%. No Itaú, de 6,5% para 7,5%. Nas seguradoras, que quase não caíram, o yield quase não mudou. E na Vale, que subiu com o dólar, o yield até caiu.
2. O caso do Banco do Brasil é o mais instrutivo. A ação caiu 27,8%, a maior queda da lista, e mesmo assim o yield ficou em só 3,9%. O motivo é que o dividendo já tinha encolhido antes da queda: com o lucro em forte baixa em 2026 (no primeiro trimestre, o lucro ajustado caiu 53,5% em relação ao 1T25, como o blog mostrou em junho), os proventos dos últimos 12 meses somam só R$ 0,69 por ação. Ou seja, o preço de hoje não é “barato por causa da queda”; ele já vinha refletindo um banco que paga bem menos do que pagava.
3. Yield alto não diz se o dividendo vai continuar. O yield de 10,3% do Bradesco parece ótimo. Mas, como o blog mostrou na semana passada, o colchão do banco contra calotes vem diminuindo, e a maior parte do que ele paga é juros sobre capital próprio, com 17,5% de imposto. Com juros futuros acima de 15%, o risco de calote dos clientes tende a crescer. O yield da tela não mostra nada disso.
Como separar o yield que fica do yield que some
Para cada empresa que caiu, eu faço três perguntas antes de olhar o yield:
- O lucro vai aguentar? O dividendo sai do lucro. Se o lucro dos próximos trimestres cair, o dividendo cai junto, e o yield da tela vira miragem. Para bancos, a pergunta mais importante agora é se a inadimplência vai subir com os juros mais altos.
- O que foi pago se repete? Se os proventos dos últimos 12 meses incluem algum pagamento extraordinário, o yield está inflado. Vale conferir no histórico da empresa.
- O que mudou foi o preço ou o negócio? Uma transmissora de energia como a Taesa tem receita definida em contrato, corrigida pela inflação. Um banco depende do crédito e dos juros. A mesma queda de preço pode significar coisas bem diferentes para cada uma.
Os resultados do terceiro trimestre, que começam a sair nesta semana, vão trazer as primeiras respostas. O Itaú e a BB Seguridade divulgam no dia 3 de novembro, e o Banco do Brasil no dia 11.
O que fica
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de nenhuma ação citada. É um guia para ler o número que mais aparece nos dias de queda:
- O yield sobe quando o preço cai, sem a empresa pagar nada a mais.
- Isso é uma oportunidade só se o dividendo continuar. Quem compra uma boa empresa mais barata garante uma renda maior pelo mesmo dinheiro.
- Isso é uma armadilha se o dividendo cair, e às vezes o preço caiu justamente porque o mercado espera um dividendo menor.
Depois de uma queda forte, o yield da tela é um convite para investigar, não um motivo para comprar.
Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo
Fontes consultadas:
- Status Invest — proventos brutos com data-com entre 27/10/2025 e 27/10/2026 de BBAS3, BBDC3, ITUB4, ITSA4, TAEE11, CXSE3, BBSE3 e VALE3, consultados em 27/10/2026.
- Cotações de fechamento de 23/10/2026 e de poucos minutos antes do fechamento de 26/10/2026: plataforma de negociação. Yields calculados pelo blog.
- InfoMoney: “Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker” (26/10/2026) e Investing.com — fechamento do Ibovespa em 176.608 pontos, queda de 13,88%.
- Dividendo Certo, artigos “O Plano de Recuperação do Banco do Brasil: o que há por trás dos números do 1T26” (04/06/2026), “Bradesco BBDC4 (ADR: BBD) no 3T26” (23/10/2026), “Dividend yield: por que o yield dos últimos 12 meses engana” (24/10/2026) e “O último de pé” (26/10/2026).
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