
Nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, primeiro pregão depois do segundo turno das eleições, a bolsa brasileira viveu um daqueles dias que ficam na memória. O Ibovespa chegou a cair mais de 17% durante a tarde, a B3 acionou o circuit breaker, que interrompe os negócios quando a queda é muito forte, e o índice caminhava para fechar perto de 176,6 mil pontos, queda de 13,9% em relação ao fechamento de sexta-feira (205,1 mil pontos). O dólar subiu 8,8%, para R$ 5,41, e os juros futuros passaram de 15% ao ano.
Este texto não é sobre a eleição nem sobre o que vai acontecer com o país. É sobre uma pergunta que vale para qualquer crise: quem consegue continuar de pé num dia assim? E a melhor resposta que conheço vem da empresa de Warren Buffett, a Berkshire Hathaway, que ficou conhecida no mercado como “the last man standing”, o último homem de pé.
O apelido e o que está por trás dele
O apelido não é de Buffett. É a forma como analistas e a imprensa descrevem a Berkshire: a empresa que continua firme, e comprando, quando as outras caem. Mas a ideia por trás dele está, sim, nas palavras do próprio Buffett.
Na carta aos acionistas publicada no início de 2010, ao relembrar a grande crise financeira de 2008, ele escreveu que a Berkshire nunca vai depender da bondade de estranhos. Explicou que organiza os negócios para que as necessidades de dinheiro da empresa sejam sempre pequenas perto do caixa que ela tem. E lembrou que, no auge da crise, a Berkshire foi fornecedora de dinheiro para o sistema, e não pedinte. Naqueles meses, enquanto bancos quebravam, ela investiu bilhões de dólares em empresas como o Goldman Sachs e a General Electric, em condições muito favoráveis, porque era uma das poucas com dinheiro disponível.
Em outubro de 2008, Buffett publicou um artigo no jornal The New York Times com um título curto: “Buy American. I Am.” (“Compre empresas americanas. Eu estou comprando”). Ali, repetiu a regra que tinha escrito em 1986: ter medo quando os outros são gananciosos, e ser ganancioso quando os outros têm medo.
Ser o último de pé, portanto, depende de duas coisas: não ser obrigado a vender e ter dinheiro para comprar.
A queda não foi igual para todos
Um dia como hoje também mostra para que serve diversificar. Com os preços de poucos minutos antes do fechamento, as empresas acompanhadas pelo Dividendo Certo se comportaram assim, em relação ao fechamento de sexta-feira:
| Empresa | Variação no dia |
|---|---|
| Banco do Brasil, BBAS3 (ADR: BDORY) | −27,8% (de R$ 24,72 para R$ 17,84) |
| Bradesco, BBDC3 (ADR: BBDO) | −20,8% (de R$ 18,06 para R$ 14,30) |
| Itaú, ITUB4 (ADR: ITUB) | −13,8% (de R$ 48,30 para R$ 41,63) |
| Itaúsa, ITSA4 | −12,9% (de R$ 15,31 para R$ 13,33) |
| Taesa, TAEE11 | −9,8% (de R$ 44,75 para R$ 40,36) |
| ISA Energia, ISAE4 | −8,6% (de R$ 28,32 para R$ 25,89) |
| Caixa Seguridade, CXSE3 | −1,9% (de R$ 21,41 para R$ 21,01) |
| BB Seguridade, BBSE3 (ADR: BBSEY) | −1,5% (de R$ 43,68 para R$ 43,04) |
| Klabin, KLBN11 | +3,4% (de R$ 18,22 para R$ 18,84) |
| Vale, VALE3 (ADR: VALE) | +4,5% (de R$ 61,90 para R$ 64,67) |
Os bancos caíram mais. Parte da explicação é que juros muito altos aumentam o risco de calote dos clientes, e o mercado costuma vender primeiro as ações mais ligadas ao crédito. As seguradoras quase não se mexeram. E as exportadoras, Vale e Klabin, subiram, porque recebem em dólar, e o dólar mais caro aumenta a receita delas em reais. Quem tinha só bancos viu a carteira despencar. Quem tinha bancos, seguradoras, energia e exportadoras sentiu a queda bem menos.
O que o investidor pessoa física pode aprender com a Berkshire
Ninguém tem o caixa da Berkshire. Mas a lógica funciona em qualquer escala:
- Não seja obrigado a vender. A reserva de emergência deve ficar fora da bolsa, e o dinheiro investido em ações não deve ser um dinheiro de que você vai precisar nos próximos meses. Quem vende num dia como hoje raramente vende porque quer; quase sempre vende porque precisa. Investir com dinheiro emprestado é o caminho mais rápido para ser obrigado a vender.
- Tenha dinheiro para as oportunidades. É o que Buffett chama de não depender da bondade de estranhos. Uma parte guardada para momentos de queda transforma o pânico dos outros em preço melhor para você.
- Compre em etapas. Ninguém sabe se hoje foi o pior dia ou só o primeiro. Dividir as compras em vários dias, ou semanas, evita usar toda a reserva logo no começo de uma queda que pode continuar.
- Separe preço de negócio, com honestidade. Nem toda queda é exagero. Juros futuros acima de 15% mudam a conta: a renda fixa fica mais atraente e o crédito fica mais arriscado. A pergunta certa não é “quanto a ação caiu?”, e sim “a capacidade da empresa de lucrar e pagar dividendos mudou, e quanto?”. Para algumas empresas, a resposta pode ser sim. Os resultados do terceiro trimestre, que saem nas próximas semanas, vão ajudar a responder.
O que fica
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de nenhuma ação citada. É um lembrete, um dia depois do artigo “Mantenha sua estratégia”: os preços variam, e às vezes variam muito num dia só. A Berkshire não ficou conhecida como o último homem de pé por prever crises. Ficou conhecida porque estava preparada para elas.
Para o investidor de dividendos, estar preparado significa três coisas simples: não precisar vender, ter reserva para comprar e saber diferenciar uma empresa que ficou mais barata de uma empresa que ficou pior.
Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo
Fontes consultadas:
- Cotações das ações, do Ibovespa, do dólar futuro e dos juros futuros: plataforma de negociação, cerca de dez minutos antes do fechamento do pregão de 26/10/2026. Os números de fechamento oficial podem ser ligeiramente diferentes.
- Money Times: “Ibovespa afunda 15%; dólar e juros futuros disparam” (26/10/2026) — circuit breaker e juros futuros acima de 15%.
- Diário de Caratinga: “Queda do Ibovespa atinge 17% após circuit breaker” (26/10/2026)
- Warren Buffett, carta aos acionistas da Berkshire Hathaway sobre 2009 (publicada em fevereiro de 2010) — “never become dependent on the kindness of strangers” e o papel da Berkshire como fornecedora de liquidez em 2008; resumo em Kottke.
- Warren Buffett, “Buy American. I Am.”, The New York Times, 16/10/2008.
- Warren Buffett, carta aos acionistas de 1986 — “be fearful when others are greedy”; citada pela Motley Fool.
- Stansberry Research: “How Buffett’s Secret Weapon Can Help You Be the ‘Last Man Standing’” — uso do apelido.
- Dividendo Certo, artigo “Mantenha sua estratégia: os preços vão variar, e isso pode jogar a seu favor” (25/10/2026).
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