
Quando falamos de investir no exterior, muitos investidores buscam as ações de tecnologia que prometem revolucionar o mundo da noite para o dia. Na minha carteira internacional, no entanto, o topo da alocação de segurança pertence a uma gigante construída com base em paciência, disciplina e negócios “chatos”: a Berkshire Hathaway ($BRK.B).
Ter a Berkshire na carteira é muito mais do que comprar uma ação; é fazer uma parceria com o maior investidor de todos os tempos, Warren Buffett, e carregar o legado de lucidez do saudoso Charles Munger. A empresa possui um histórico impressionante de valorização no longo prazo, e o seu modelo de negócio é a aplicação perfeita de tudo o que defendemos aqui no Dividendo Certo.
A Reserva de Valor em Dólar e os “Boring Businesses”
A Berkshire funciona para mim como uma verdadeira reserva de valor dolarizada. Ela não é uma empresa que tenta reinventar a roda. O conglomerado opera de forma descentralizada e foca naquilo que costumamos chamar de boring businesses (negócios chatos e essenciais).
O coração do negócio é o setor de seguros, operado por gigantes como a GEICO, a Berkshire Hathaway Primary Group e a Berkshire Hathaway Reinsurance Group. Assim como adoramos as seguradoras brasileiras pela capacidade de gerar caixa sem risco de crédito, a Berkshire domina a arte do float. Em 30 de junho de 2026, o float (dinheiro dos prêmios de seguro retido antes do pagamento de sinistros) atingiu a marca colossal de US$ 177,5 bilhões. É um capital massivo que a empresa investe e rentabiliza sem pagar juros por isso.
Mas a genialidade de Buffett e Munger não parou nos seguros. Eles usaram esse caixa livre para comprar ferrovias pesadas, como a BNSF, empresas de energia e utilidade pública, através da Berkshire Hathaway Energy (BHE), além de uma infinidade de operações de manufatura, serviços e varejo. São negócios perenes, que transportam grãos, geram energia e vendem bens de consumo diário, independentemente de crises econômicas.
A Reinvenção: Corrigindo o “Erro Histórico” com o $GOOGL
Embora a base da Berkshire seja construída em negócios perenes e tradicionais, a empresa prova que não parou no tempo. Uma das grandes surpresas ao analisar o portfólio de ações do conglomerado no segundo trimestre de 2026 é a presença da gigante de tecnologia Alphabet ($GOOGL) entre as suas cinco maiores posições globais, ao lado de American Express, Apple, Bank of America e Coca-Cola.
Durante anos, Warren Buffett admitiu publicamente que não ter investido no Google no início foi um de seus maiores “erros históricos”, já que a empresa possuía um monopólio natural fascinante. Agora, a holding mostra que está disposta a se reinventar e a corrigir rotas sem perder a essência.
Ter a Alphabet no topo da carteira demonstra que a Berkshire está de olho nas transformações da economia digital e na revolução tecnológica. Eles usam o caixa seguro e constante dos negócios “chatos” para financiar uma posição robusta na empresa que está liderando a corrida pela Inteligência Artificial. É o equilíbrio perfeito entre a segurança do passado e o crescimento do futuro.
O Motor V8 Descomunal (Os Resultados do 2T26)
Para entender a solidez dessa reserva de valor, basta olhar para o fechamento do segundo trimestre de 2026:
- Lucro Bilionário: O lucro líquido atribuível aos acionistas da Berkshire no segundo trimestre de 2026 foi de impressionantes US$ 25,667 bilhões.
- O Poder dos Seguros: Apenas a operação de subscrição (underwriting) de seguros gerou um lucro após impostos de US$ 1,731 bilhão no trimestre. Somado a isso, a receita gerada pelos investimentos da divisão de seguros colocou mais US$ 3,059 bilhões no caixa.
- A Força da Infraestrutura: A ferrovia BNSF entregou um lucro de US$ 1,558 bilhão no segundo trimestre. Já o braço de energia (BHE) lucrou US$ 891 milhões.
- Manufatura e Varejo: O grupo focado em manufatura, serviços e varejo reportou ganhos de US$ 4,47 bilhões.
O Caixa que Garante Noites de Sono Tranquilas
O maior diferencial para quem busca uma reserva de valor em dólar é a liquidez assustadora da empresa. No fim do segundo trimestre de 2026, apenas os negócios de seguros e outros mantinham a montanha de US$ 210,31 bilhões alocados em caixa, equivalentes de caixa e títulos de curto prazo do Tesouro dos EUA.
Ter a Berkshire Hathaway na carteira é saber que o seu patrimônio está ancorado em negócios perenes, administrado sob a filosofia de alocação mais vitoriosa da história, adaptando-se à nova economia digital e protegido por centenas de bilhões de dólares em caixa prontos para serem usados quando o mercado entrar em pânico. Não há ação “chata” que traga tanta paz de espírito.
Leave a Reply