RODRIGO GOMES FLORES — 3 de julho de 2026
O Banco do Brasil reportou lucro recorrente de R$ 3,43 bilhões no 1T26 — queda de 53,5% frente ao mesmo período do ano passado. O número veio em linha com o que o mercado esperava (R$ 3,425 bilhões), então não foi surpresa. A surpresa, se houve alguma, veio no guidance: o banco revisou o custo de crédito projetado de R$ 53–58 bilhões para R$ 65–70 bilhões, e cortou a faixa de lucro líquido esperado para 2026 de R$ 22–26 bilhões para R$ 18–22 bilhões.
A ação acompanha o movimento. Saiu de R$ 21,92 há doze meses para algo em torno de R$ 20,08 hoje — queda de cerca de 8,4% no período.
Antes de qualquer conclusão, vale separar duas coisas que costumam se misturar quando o preço de uma ação cai: o fato objetivo (lucro menor, guidance revisado) e a reação do mercado a esse fato (o preço caindo). São eventos distintos, e tratá-los separadamente é o que evita tanto o otimismo ingênuo quanto o pessimismo apressado.
O que está por trás da queda de lucro
O motivo principal não é operacional no sentido de “o banco está indo mal” — é o custo de crédito subindo, puxado majoritariamente pela carteira agro. O agronegócio brasileiro atravessa um ciclo de aperto: preços de commodities pressionados, custeio mais caro, produtores com margens mais apertadas. O BB tem exposição relevante a esse segmento — historicamente uma vantagem competitiva do banco, hoje um fator de pressão.
O ROE (retorno sobre patrimônio líquido) caiu para 7,3%, ante 16,7% um ano atrás. Isso é abaixo do custo de capital do banco — ou seja, no ritmo atual, o BB está gerando menos valor do que custa para mantê-lo capitalizado. É um dado que pesa, e não adianta escondê-lo atrás do otimismo de “é só um ciclo”.
Por que a queda de preço não é, por si só, motivo de alarme
Aqui entra um princípio que Benjamin Graham deixou como ferramenta permanente para quem investe em valor: a diferença entre o mercado como máquina de votação no curto prazo e como balança de pesagem no longo prazo. No curto prazo, o preço reage a humor, a revisão de guidance, a manchete. No longo prazo, o que prevalece é a capacidade real da empresa de gerar caixa e distribuir valor.
Com a ação em ~R$ 20 e o histórico de distribuição do banco, o DY de entrada para quem compra agora fica mais alto do que estava há doze meses — esse é o mecanismo básico que Décio Bazin descrevia: queda de preço de uma boa pagadora não é perda, é a oportunidade de travar um rendimento maior sobre o capital investido, desde que a empresa continue sendo capaz de pagar.
E aqui mora a pergunta que realmente importa, e que separa esse artigo de uma simples notícia de resultado: o guidance revisado ameaça a capacidade de distribuição do BB nos próximos trimestres, ou o mercado já precificou o pessimismo todo?
O que olhar antes de decidir
Não é papel desta newsletter dizer “compre” ou “venda” — isso é decisão sua, com seu perfil de risco e seu horizonte. Mas alguns pontos concretos ajudam a formar opinião própria:
Múltiplo atual. Com P/L em torno de 6x e cotação abaixo do valor patrimonial, o mercado já está descontando boa parte do cenário ruim no preço. A questão em aberto é se o pessimismo está completo ou se o ciclo de inadimplência do agro ainda tem piora pela frente — e isso só fica mais claro nos próximos um ou dois trimestres, acompanhando a evolução do custo de crédito.
Histórico em ciclos anteriores. O BB já passou por ciclos de aperto de crédito no agro antes, notadamente em 2015-2016. Vale olhar como o payout se comportou naquele período — se o banco manteve distribuição relevante mesmo com lucro pressionado, ou se cortou dividendos de forma significativa. Esse histórico é o melhor proxy disponível para estimar o comportamento agora.
Cronograma de JCP restante em 2026. Com o guidance revisado, a expectativa de distribuição total do ano também deve ser revisada. Vale acompanhar se o banco sinaliza manutenção da política de payout ou se dá indícios de reduzir a proporção distribuída.
A ideia atemporal por trás do fato
Graham chamava de margem de segurança a diferença entre o preço que se paga e o valor intrínseco estimado do negócio. Não é uma fórmula exata — é uma disciplina de exigir desconto suficiente para errar e ainda assim não perder dinheiro. Com o BB negociando abaixo do patrimônio e com múltiplo comprimido, a margem de segurança aparenta estar maior do que há um ano. Mas margem de segurança não é sinônimo de ausência de risco: ela existe justamente porque o risco é real, e o desconto no preço é a compensação por carregá-lo.
A tese do Banco do Brasil como pagador de dividendos não morreu com um trimestre ruim. Mas também não se sustenta sozinha só porque o preço caiu. Vale acompanhar o próximo resultado antes de qualquer conclusão mais firme.
O que eu vou fazer? Aquilo que é recomendado pela sabedoria de Charles Munger: na maior parte das vezes não fazer nada é a melhor decisão.
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