By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right

Um levantamento da B3 divulgado em março de 2026 (com dado-base de fevereiro daquele ano — o mais recente disponível até a publicação deste artigo) traçou o perfil de quem são as mulheres que investem em bolsa no Brasil. O resultado, olhado com atenção, é uma espécie de validação externa e independente da filosofia que este blog já defende há tempos: entre os quinze papéis mais presentes nas carteiras femininas, nove aparecem, folha por folha, entre as prioridades e o radar do Dividendo Certo. Vale entender o que os números mostram — e por que essa coincidência não é coincidência.
Quem são as investidoras da B3
Em fevereiro de 2026, 1,48 milhão de mulheres tinham posição na bolsa brasileira, em um universo de 5,56 milhões de investidores — 26,7% do total. O crescimento na comparação anual foi de 8%, acima do avanço geral de investidores (5,5%), e nos últimos cinco anos a presença feminina na renda variável (ações, fundos imobiliários, ETFs e BDRs) cresceu 83,4%. A maioria das investidoras pertence à geração X (nascidas entre 1965 e 1980) ou à geração Millennial (1981-1996): cerca de 80% têm entre 25 e 59 anos.
Um dado chama atenção e merece explicação, porque à primeira vista parece contraditório: a mediana do valor investido por mulher é de R$ 3.034, contra R$ 1.716 entre os homens — ou seja, a “investidora típica” tem mais dinheiro aplicado em bolsa do que o “investidor típico” homem. Mediana aqui significa o valor que fica bem no meio quando se ordena todos os investidores do menor para o maior estoque investido — não é a média, que pode ser distorcida por poucos investidores com valores muito altos. Ainda assim, como há bem menos mulheres investindo (1,48 milhão contra pouco mais de 4 milhões de homens), o total em custódia é bem menor: R$ 164,9 bilhões em nome de mulheres, contra R$ 535,5 bilhões de homens. Duas coisas diferentes, e verdadeiras ao mesmo tempo: a mulher que decide investir tende a alocar mais patrimônio por trás dessa decisão, mas o número de mulheres investindo ainda é bem menor que o de homens.
O ranking que confirma a filosofia da carteira
A parte mais reveladora do levantamento, para este blog, é a lista das quinze ações mais presentes nas carteiras femininas em fevereiro de 2026:
| Posição | Ticker | Nº de investidoras |
|---|---|---|
| 1 | $BBAS3 | 276.067 |
| 2 | $ITSA4 | 234.188 |
| 3 | $PETR4 | 226.423 |
| 4 | $VALE3 | 173.371 |
| 5 | $BBSE3 | 135.733 |
| 6 | $TAEE11 | 111.194 |
| 7 | $CXSE3 | 110.418 |
| 8 | $ITUB4 | 106.406 |
| 9 | $BBDC4 | 105.396 |
| 10 | KLBN4 | 102.897 |
| 11 | MGLU3 | 96.501 |
| 12 | WEGE3 | 94.546 |
| 13 | SAPR4 | 84.148 |
| 14 | CPLE3 | 83.673 |
| 15 | CMIG4 | 83.406 |
Das nove primeiras posições, oito coincidem exatamente com a “prioridade máxima” da carteira coberta por este blog: Banco do Brasil, Itaúsa, Vale, BB Seguridade, Taesa, Caixa Seguridade, Itaú e Bradesco. A exceção nas nove primeiras é a Petrobras ($PETR4) — que este blog trata sempre com a ressalva de ativo cíclico e politicamente sensível, não como pilar de renda estável, mesmo reconhecendo sua presença relevante nas carteiras em geral. Vale uma nota de precisão: a décima posição do ranking é da Klabin, mas no código KLBN4 (ação preferencial), não KLBN11 (a unit que este blog acompanha, composta por uma combinação diferente de ações com direitos econômicos distintos) — são papéis do mesmo grupo econômico, mas não idênticos, e por isso a comparação com a carteira do blog, aqui, é aproximada, não exata.
No total, das quinze ações mais presentes nas carteiras femininas, seis são do setor financeiro e quatro de utilidade pública (energia elétrica e transmissão) — justamente os dois setores mais representados na carteira que este blog acompanha, e que a B3 descreve como setores de “contratos de longo prazo, previsibilidade de receitas, resiliência a crises e bons dividendos”.
O que essa preferência revela, na prática
Luiz Barsi Filho conta em sua autobiografia, “O Rei dos Dividendos”, que sua concentração deliberada em poucos setores perenes — bancos, papel e celulose, energia — nunca foi por falta de opção, mas por convicção: são negócios com demanda que não desaparece, ainda que passem por ciclos, e que sustentam pagamento de dividendo através de crises. O dado da B3 não prova que as investidoras leram Barsi ou seguem conscientemente esse racional — mas mostra, de forma independente e em grande escala, que quando mulheres decidem alocar patrimônio em bolsa, a escolha tende a recair sobre o mesmo tipo de negócio: financeiro e de utilidade pública, com histórico de previsibilidade, e não sobre o modismo do momento. A superintendente de Negócios para Pessoa Física da B3, Christianne Bariquelli, resume esse padrão dizendo que as investidoras “fazem isso com preparo, cautela e foco em segurança”.
What remains practically
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de nenhum dos tickers citados, nem uma afirmação de que investir “no que a maioria escolhe” é, por si só, uma estratégia. O que fica de lição é o valor de checar se a lógica por trás de uma carteira tem sustentação fora da própria bolha em que foi construída: quando um dado externo, gerado por um levantamento independente e sem relação com este blog, aponta na mesma direção da filosofia que já se pratica — perenidade, dividendo, setores com contrato de longo prazo —, isso é um sinal de que o racional está fundamentado em algo mais amplo do que preferência pessoal.
Sources consulted:
- B3: “Raio-X da investidora: quem são as mulheres que investem na bolsa” (06/03/2026, dado-base de fevereiro/2026 — fonte primária do levantamento).
- Bora Investir (B3): “Raio-X da investidora: quem são as mulheres que investem na bolsa” (versão publicada no canal educativo da B3, mesmo levantamento).
- Luiz Barsi Filho, “O Rei dos Dividendos: A Saga do Filho de Imigrantes Pobres que se Tornou o Maior Investidor Pessoa Física da Bolsa de Valores Brasileira” (Editora Sextante, 2022) — autobiografia, fonte da filosofia de concentração setorial citada.
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