Dividendo Certo

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

BB Seguridade BBSE3 (ADR: BBSEY) no 3T26: a vaca leiteira continua dando leite, mas o pasto dos seguros encolheu

A BB Seguridade, BBSE3 (ADR: BBSEY), é um dos exemplos mais citados de ação “vaca leiteira” na bolsa brasileira: vende seguros, previdência e capitalização pela rede de agências do Banco do Brasil, precisa de pouco investimento para crescer e distribui quase todo o lucro aos acionistas. O resultado do terceiro trimestre, divulgado em 3 de novembro, mostra que a vaca continua dando leite. De janeiro a setembro, o lucro líquido recorrente foi de R$ 6,80 bilhões, praticamente igual aos R$ 6,80 bilhões dos nove primeiros meses de 2025 (+0,1%).

O que mudou foi o pasto. O negócio de seguros, que é o coração da empresa, está vendendo bem menos, e a própria BB Seguridade cortou a previsão para o ano. O lucro se manteve porque a previdência e os juros sobre o caixa compensaram. Para quem investe pensando em renda, a pergunta que o trimestre deixa é quanto tempo esse equilíbrio aguenta.

O que o trimestre mostrou

O lucro líquido recorrente do 3T26 foi de R$ 2,43 bilhões, 5,1% menor que no 3T25 (R$ 2,56 bilhões) e 13% maior que no 2T26 (R$ 2,15 bilhões). O número veio acima do que o mercado esperava, mas a ação caiu: fechou a terça-feira, 3 de novembro, a R$ 40,79 e era negociada a R$ 38,65 na tarde de quarta-feira, em queda de 5,25%.

A tabela mostra de onde veio o lucro, em milhões de reais:

Origem do lucro 3T26 3T25 Diferença
Brasilseg (seguros) 848,6 949,8 −101,2
BB Corretora (venda dos produtos) 884,2 943,0 −58,9
Brasilprev (previdência) 533,4 532,4 +1,0
Brasilcap e Brasildental 64,2 64,9 −0,8
Holding (juros sobre o caixa, despesas e impostos) 101,8 71,8 +30,0
Lucro recorrente total 2.432,1 2.561,9 −129,8

As duas maiores fontes de lucro, a seguradora e a corretora, ganharam menos. A previdência ficou estável, e o caixa da própria holding, aplicado a juros altos, rendeu mais.

O pasto que encolheu: os seguros

Os prêmios emitidos pela Brasilseg, o dinheiro que os clientes pagam pelas apólices, somaram R$ 3,6 bilhões no 3T26, 19% menos que no 3T25 (R$ 4,4 bilhões). As maiores quedas vieram de dois ramos ligados ao crédito do Banco do Brasil:

  • Seguro rural: −24,3% em relação ao 3T25. É o maior ramo da Brasilseg, com 46,8% dos prêmios do ano.
  • Seguro prestamista (o que quita o empréstimo se o cliente morrer ou ficar inválido): −26,9% no mesmo período.

Quando o banco empresta menos ao agronegócio e às pessoas, vende menos seguros atrelados a esses empréstimos. Por isso a BB Seguridade revisou a previsão para 2026: os prêmios da Brasilseg, que antes deveriam ficar entre −3% e +2% em relação a 2025, agora devem cair entre 11% e 15%. De janeiro a setembro, a queda foi de 9,2%.

Um ponto positivo ajuda a seguradora: a sinistralidade (a parcela dos prêmios gasta com indenizações) foi de 22,7% nos nove primeiros meses do ano, 0,5 ponto abaixo do mesmo período de 2025. A Brasilseg vende menos, mas o que vende continua dando lucro.

O pasto que cresceu: previdência e juros

Do outro lado, a Brasilprev vive um bom momento:

  • As reservas de previdência chegaram a R$ 514,2 bilhões em setembro, 12,1% acima de setembro de 2025.
  • A captação líquida (entradas menos resgates) foi positiva em R$ 4,5 bilhões nos nove primeiros meses do ano, depois de saídas de R$ 9,1 bilhões no mesmo período de 2025.

Como a Brasilprev cobra uma taxa sobre o dinheiro administrado, reservas maiores tendem a significar mais receita nos próximos trimestres. Além disso, com os juros altos, o resultado financeiro (o que o grupo ganha aplicando o caixa e as reservas) respondeu por 27% do lucro do trimestre.

É aqui que entra a crítica de parte do mercado. Morgan Stanley, Itaú BBA e JPMorgan mantiveram a recomendação de venda, e o Bradesco BBI apontou que o lucro acima do esperado veio principalmente da previdência, da capitalização e das receitas financeiras da holding, e não dos seguros. Juros altos não duram para sempre: se a Selic cair, essa parte do lucro também tende a encolher.

A vaca leiteira passa no teste?

No artigo “Ações vacas leiteiras”, o blog listou cinco critérios para reconhecer uma boa pagadora de dividendos. Aplicando cada um ao resultado do trimestre:

  1. Setor perene. Seguros e previdência continuam existindo em qualquer crise.
  2. Lucro estável. Nos nove primeiros meses, o lucro ficou igual ao de 2025. Mas a composição mudou: depende mais de previdência e juros, e menos de seguros.
  3. Pouca necessidade de reinvestir. A venda pela rede do Banco do Brasil continua exigindo pouco capital.
  4. Payout alto e sustentável. Os dividendos do primeiro semestre somaram R$ 3,85 bilhões, cerca de R$ 1,98 por ação e 89% do lucro, descontada a reserva legal. O valor do segundo semestre sai, pelo padrão dos anos anteriores, em fevereiro.
  5. Dívida sob controle. Diferentemente de transmissoras de energia, que financiam grandes obras com dívida, o negócio de seguros e previdência não exige esse tipo de investimento.

A vaca passa nos cinco critérios. O risco está no pasto: o leite de 2027 vai depender de os seguros voltarem a crescer antes que os juros caiam.

O que a queda da ação muda para quem busca renda

Na queda forte da bolsa de 26 de outubro, quando o Ibovespa recuou 13,88%, a BBSE3 caiu só 1,5%, como o blog mostrou no artigo sobre o dividend yield depois da queda. Agora a ação caiu por um motivo próprio, e o efeito no yield é o mesmo: com os R$ 4,59 por ação pagos nos últimos 12 meses (valor bruto, segundo o Status Invest) e a cotação de R$ 38,65, o dividend yield fica perto de 11,9%.

O número olha para trás. Por isso vale fazer o mesmo teste do artigo “BBSE3 vale a pena para dividendos?”: se o dividendo dos próximos 12 meses for 20% menor, o yield sobre R$ 38,65 ainda fica perto de 9,5%, acima do piso de 6% do critério de Bazin. A margem de segurança continua existindo, mas é menor do que parece quando o lucro dos seguros está encolhendo.

O que fica

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de BBSE3 (ADR: BBSEY) nem de qualquer ação citada. O terceiro trimestre deixa três pontos para quem acompanha a empresa:

  • A vaca continua dando leite. O lucro de nove meses ficou estável e o dividendo do primeiro semestre foi de 89% do lucro.
  • O pasto mudou. Os seguros vendem menos e a previsão para o ano foi cortada. O lucro está se apoiando mais na previdência e nos juros.
  • O próximo teste é o dividendo de fevereiro. É ali que se verá quanto do lucro do segundo semestre volta ao acionista, e se a previsão menor de seguros já pesa nos proventos.

A transcrição da reunião com investidores, realizada em 4 de novembro, ainda não foi publicada no site de RI da empresa. Seguiremos acompanhando as explicações da diretoria sobre o seguro rural e o prestamista, que influenciam diretamente o pagamento de dividendos ao acionista.

Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo


Fontes consultadas:

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