Dividendo Certo

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Lloyds (LYG) no 3T26: lucro em alta, recompra em curso e um risco que ainda não terminou

O Lloyds Banking Group, maior banco de varejo do Reino Unido e uma das empresas da minha carteira internacional, divulgou o resultado dos nove primeiros meses do ano em 29 de outubro. Depois do JPMorgan, da Equinor e da Alphabet, é o quarto resultado da carteira internacional comentado no blog neste trimestre e, junto com o JPMorgan, o que mais se parece com os bancos brasileiros da carteira. A Berkshire Hathaway e a AEP ainda vão divulgar os seus.

O resumo cabe em uma frase: o banco voltou a ganhar bem, tem capital sobrando e está devolvendo esse excesso aos acionistas, principalmente por meio da recompra de ações. O ponto de atenção é um caso antigo, o das comissões em financiamentos de carros, que ainda pode custar mais do que o banco já reservou.

Os números de janeiro a setembro

Indicador 9 meses de 2026 9 meses de 2025 Variação
Lucro antes dos impostos £ 6,6 bi £ 4,7 bi +42%
Lucro por ação 7,6 pence 4,8 pence +58%
Retorno sobre o patrimônio tangível 17,9% 11,9% +6,0 pontos
Receita com juros £ 11,1 bi £ 10,1 bi +10%
Custos em relação às receitas 49,3% 59,7% −10,4 pontos
Provisões para calotes £ 930 mi £ 618 mi +50%

(£ = libra esterlina; 100 pence = 1 libra)

Parte do salto no lucro vem de uma comparação fácil. No terceiro trimestre de 2025, o banco reservou £ 800 milhões para o caso dos financiamentos de carros, o que derrubou o resultado daquele período. Sem esse efeito, o crescimento é menor, mas continua sólido: a receita com juros subiu 10%, os custos ficaram praticamente estáveis (+1%) e o retorno sobre o patrimônio tangível (o lucro dividido pelo patrimônio, sem contar ativos intangíveis) chegou a 17,9%, acima da meta de mais de 16% para o ano.

As provisões para calotes subiram 50%, mas a partir de um nível baixo. A inadimplência continua baixa e estável, segundo o banco, e o aumento veio sobretudo de menos reversões de provisões antigas.

O capital que sobra, e para onde vai

Bancos precisam manter um colchão mínimo de capital próprio para absorver perdas. No Lloyds, esse colchão (o chamado capital principal, ou CET1) estava em 13,3% em setembro, e a meta do banco é trabalhar perto de 13%. Tudo o que fica acima disso é capital que pode voltar ao acionista.

E o banco está devolvendo:

  • Recompra de 2025, concluída. Com a sobra de capital do ano passado, o Lloyds recomprou cerca de 1,7 bilhão de ações por £ 1,75 bilhão, entre janeiro e setembro de 2026.
  • Recompra de 2026, em andamento. Em julho, anunciou outra recompra, de até £ 1 bilhão. Até setembro, tinha usado £ 0,2 bilhão.
  • Dividendo. O banco pagou o dividendo intermediário em setembro e já reserva o dividendo do fim do ano.

Recompra é quando a empresa compra as próprias ações na bolsa e as cancela; com menos ações, cada acionista fica com um pedaço maior do banco. Como o blog mostrou no artigo de domingo, ela faz mais sentido quando a ação está barata, e o Lloyds fez recompras grandes com a sobra de capital de 2025 e de 2026.

O que a diretoria disse

Três falas da apresentação de resultados ajudam a entender o momento (tradução livre):

  • Sobre o desempenho. O presidente, Charlie Nunn, afirmou que o grupo está entregando “força sustentada no desempenho financeiro, com crescimento contínuo de receitas” e que está a caminho de cumprir todas as metas de 2026.
  • Sobre o dividendo. O diretor financeiro, William Chalmers, repetiu o compromisso com um dividendo “progressivo e sustentável”, ou seja, que cresce aos poucos e não depende de um ano excepcional.
  • Sobre o capital em 2027. Questionado por um analista, Chalmers explicou que, com as novas regras de Basileia que entram em vigor em janeiro, a exigência mínima de capital do banco vai cair cerca de 0,2 ponto. A meta de 13% continua, mas a folga em relação ao mínimo exigido aumenta. Em linguagem simples: o banco ganha mais espaço para crescer ou devolver capital.

O risco que ainda não terminou

O caso dos financiamentos de carros é antigo. Por anos, revendedores de veículos no Reino Unido receberam comissões dos bancos que financiavam os carros, sem que o cliente soubesse, e o regulador britânico, a FCA, decidiu que muitos clientes devem ser ressarcidos. O Lloyds, dono de uma das maiores financeiras de carros do país, reservou £ 800 milhões para isso em 2025 e não fez novas reservas em 2026.

Mas o caso não acabou. As regras de ressarcimento da FCA foram contestadas na Justiça por três bancos e por uma associação de consumidores, e a audiência está marcada para a segunda metade de fevereiro de 2027. Por isso, a implementação dos pagamentos foi adiada. O banco diz que a reserva atual continua sendo sua melhor estimativa, mas o valor final pode mudar.

O que fica

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de LYG nem de qualquer ação citada. Para quem acompanha o Lloyds pensando em renda, o resultado deixa três pontos:

  • A rentabilidade voltou. Com retorno de 17,9% e custos sob controle, o banco gera capital suficiente para pagar dividendos e recomprar ações ao mesmo tempo.
  • O acionista recebe de duas formas. O dividendo progressivo e as recompras anuais fazem do Lloyds um banco que devolve quase todo o capital que sobra, o que combina com a letra B, de bancos, na tese BICU do blog.
  • O caso dos carros merece atenção até fevereiro de 2027. Se a Justiça mantiver as regras da FCA e o custo superar a reserva, parte do capital que iria para os acionistas pode ter outro destino.

Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo


Fontes consultadas:

  • Lloyds Banking Group — “Q3 2026 Interim Management Statement” (29/10/2026) — demonstração de resultado dos nove meses e do trimestre, rentabilidade, capital, recompras, dividendo e o caso dos financiamentos de carros.
  • Lloyds Banking Group — apresentação de resultados do 3T26 (29/10/2026).
  • Lloyds Banking Group — transcrição da apresentação de resultados do 3T26 (29/10/2026) — falas de William Chalmers sobre dividendo, capital e Basileia 3.1 (traduzidas livremente pelo blog).
  • Dividendo Certo, artigos “LYG (Lloyds Banking Group): o banco britânico que virou minha segunda posição mais vitoriosa fora dos EUA” (02/08/2026), “Recompra ou dividendo” (01/11/2026) e “Tese BICU” (20/10/2026).

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