
O JPMorgan Chase (JPM), maior banco dos Estados Unidos, divulgou na terça-feira, 13 de outubro de 2026, os resultados do terceiro trimestre. O lucro ficou abaixo do que os analistas esperavam, e foi essa a manchete da maioria dos portais. Para quem investe pensando em renda, porém, a notícia mais importante estava em outra linha do balanço: o banco reduziu a recompra de ações de cerca de US$ 6,7 bilhões para cerca de US$ 1,1 bilhão em um trimestre e, ao mesmo tempo, aumentou o dividendo em 10%. A explicação de Jamie Dimon para essa escolha é uma pequena aula de alocação de capital, o que uma empresa decide fazer com o lucro que sobra.
O resultado, em números
Segundo o comunicado oficial e o suplemento financeiro do banco:
- Lucro líquido de US$ 15,3 bilhões, alta de 6% em um ano. O lucro por ação foi de US$ 5,57, abaixo das estimativas do mercado. Parte da diferença veio de uma perda de US$ 658 milhões com a venda de títulos, um item que o banco trata como pontual.
- Receita de US$ 50,9 bilhões, alta de 8%, puxada pelo banco de investimento e pela área de ações, cuja receita subiu 49%.
- Retorno sobre o patrimônio tangível de 20%. É o lucro dividido pelo patrimônio, excluídos ativos intangíveis como o ágio de aquisições.
- Capital principal de 13,9%, contra 14,2% no trimestre anterior.
A decisão que importa: menos recompra, mais dividendo
Recompra de ações é quando a empresa usa o próprio caixa para comprar ações dela mesma no mercado. Com menos ações em circulação, cada acionista que fica passa a ter uma fatia um pouco maior do negócio. Nos bancos americanos, é uma forma de devolver dinheiro aos acionistas tão comum quanto o dividendo.
O JPMorgan vinha recomprando cerca de US$ 8,3 bilhões por trimestre. No segundo trimestre de 2026, foram US$ 6,7 bilhões. No terceiro, US$ 1,1 bilhão, uma queda de 84%.
Ao mesmo tempo, o dividendo trimestral subiu de US$ 1,50 para US$ 1,65 por ação, aprovado pelo conselho em 15 de setembro. Ao preço de fim de setembro, isso equivale a um dividend yield de cerca de 2% ao ano, baixo pelo critério de Bazin. O JPM está na carteira do blog como referência de qualidade e perenidade, não como fonte principal de renda. Na prévia publicada no dia 10, o blog já tinha mostrado que os bancos americanos combinam dividendo moderado com recompras grandes, ao contrário dos brasileiros, que priorizam o dividendo.
A explicação de Dimon
No comunicado oficial, Dimon escreveu que a “hierarquia de capital” do banco continua a mesma, com o investimento no próprio negócio e o apoio aos clientes no topo, e que, “em linha com essa hierarquia”, o banco reduziu a recompra porque acredita que pode aplicar esse capital, ao longo do tempo, “a retornos muito atrativos” para os acionistas.
Na teleconferência com analistas, ele detalhou o raciocínio. Em resumo:
- O banco tem cerca de US$ 30 bilhões de capital excedente, acima do que precisa manter.
- A ordem de prioridades nunca mudou: primeiro o dividendo, que ele espera manter estável; depois o investimento em crescimento, que considera o melhor uso do capital; e por último a recompra, sobretudo quando o preço das ações está alto.
- O corte, segundo ele, é uma boa notícia: o banco encontrou onde aplicar o dinheiro com bons retornos, e isso é melhor do que comprar as próprias ações com um retorno de lucro de cerca de 6% ao preço atual.
Os números do próprio banco mostram por que o preço pesou na decisão. O preço médio pago na recompra subiu de cerca de US$ 297 por ação, um ano antes, para cerca de US$ 342 no terceiro trimestre. Quanto mais cara a ação, menos lucro cada dólar de recompra compra.
O que Buffett diz sobre recompras
Warren Buffett defendeu, em várias cartas aos acionistas da Berkshire Hathaway, que uma empresa só deveria recomprar as próprias ações em duas condições: quando tem dinheiro sobrando, além do necessário para o negócio, e quando as ações estão sendo negociadas abaixo do que valem de fato. Recomprar ações caras, por esse raciocínio, transfere valor de quem fica na empresa para quem vende.
A decisão de Dimon segue essa lógica. O JPMorgan negocia a quase três vezes o seu patrimônio tangível. Com a ação nesse nível, o banco preferiu manter o dividendo crescendo e usar o restante para emprestar e investir.
O paralelo com o Itaú
Na mesma teleconferência, Dimon disse que o banco está “apertando um pouco” a concessão de crédito, porque as condições do mercado ficaram frouxas demais, e que não precisa correr atrás desse tipo de negócio. É quase a mesma ideia que o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, defendeu na teleconferência do segundo trimestre: entre perder dinheiro e perder participação de mercado, o banco prefere perder participação de mercado.
Dois dos bancos mais rentáveis do mundo, em países diferentes, dizendo a mesma coisa no mesmo ano: crescer com disciplina vale mais do que crescer a qualquer custo.
O alerta: o lucro está acima do normal
Um analista perguntou se o retorno sobre o patrimônio tangível, hoje em 21% sem a perda com títulos, poderia cair em direção à meta de longo prazo do banco, que é de 17%. Dimon respondeu que 17% é o retorno esperado ao longo de um ciclo completo, com anos bons e ruins, e que hoje os tempos estão “bastante bons”: volumes altos, preços de ativos altos e perdas com crédito baixas. O CFO, Jeremy Barnum, acrescentou que é raro ver todas as áreas do banco batendo recordes ao mesmo tempo.
É um aviso que vale também para os bancos brasileiros: o lucro de um ano excepcional não deve ser tratado como o novo normal.
O que fica de prático
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de JPM. Três lições ficam para o investidor de renda:
- Olhe o que a empresa faz com o lucro, não só o tamanho dele. A ordem dividendo, crescimento e recompra mostra quais são as prioridades da gestão.
- Recompra só cria valor quando a ação está barata. Uma empresa que reduz a recompra quando o preço sobe está protegendo o acionista que fica.
- Desconfie de lucros recordes em todas as áreas ao mesmo tempo. O próprio JPMorgan avisa que esse cenário não é típico.
No fim, o trimestre mais fraco que o esperado contou menos do que a decisão por trás dele: pagar um dividendo maior e guardar a recompra para quando a ação estiver mais barata.
Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo
Fontes consultadas:
- JPMorgan Chase — Comunicado de resultados do 3º trimestre de 2026 (13/10/2026) — lucro, receita, item extraordinário, distribuição de capital e declarações de Jamie Dimon.
- JPMorgan Chase — Suplemento financeiro do 3º trimestre de 2026 — recompras por trimestre, preço médio de recompra, dividendo por ação, payout, capital principal, valor de mercado e patrimônio tangível por ação.
- JPMorgan Chase — Apresentação de resultados do 3º trimestre de 2026.
- Teleconferência de resultados do 3º trimestre de 2026 (13/10/2026), consultada pela retransmissão em vídeo com legendas automáticas — falas de Jamie Dimon e Jeremy Barnum sobre capital excedente, hierarquia de capital, disciplina de crédito e retorno ao longo do ciclo (paráfrases; os números do artigo vêm dos documentos oficiais).
- Warren Buffett, cartas aos acionistas da Berkshire Hathaway (organizadas por Lawrence A. Cunningham em “As Cartas de Warren Buffett”) — critérios para recompra de ações.
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