Dividendo Certo

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Itaú ITUB4 (ADR: ITUB) ou Banco do Brasil BBAS3 (ADR: BDORY): qual banco para quem busca dividendos?

Itaú e Banco do Brasil são os dois bancos mais presentes nas carteiras de dividendos do Brasil, e a pergunta “qual dos dois?” é das mais comuns entre investidores de renda. Em 2026, ela ficou mais interessante, porque os dois seguiram caminhos opostos: o Itaú bateu recorde de lucro e passou de R$ 50 por ação, enquanto o Banco do Brasil viu o lucro encolher, cortou a distribuição e foi rebaixado por um grande banco estrangeiro. Este artigo compara os dois com os números oficiais do segundo trimestre de 2026 e mostra que a resposta depende menos de qual banco é “melhor” e mais do que o investidor procura.

Os números lado a lado

Dados dos relatórios oficiais de resultados do 2º trimestre de 2026 e cotações de fechamento de 9 de outubro, segundo o Status Invest:

Itaú ITUB4 (ADR: ITUB)Banco do Brasil BBAS3 (ADR: BDORY)
Lucro no 2T26R$ 12,4 bi (recorrente)R$ 3,9 bi (ajustado)
ROE24,3%8,3%
Inadimplência acima de 90 dias1,9%5,61%
Capital principal12,3%11,27%
Preço da açãoR$ 50,47R$ 24,64
P/VP2,56cerca de 0,78
Dividend yield de 12 meses (bruto)6,2%2,8%

Dois termos ajudam a ler a tabela. O ROE é quanto o banco lucra para cada real que os acionistas deixaram investido nele: o Itaú gera quase três vezes mais lucro por real de patrimônio. O P/VP compara o preço da ação com o patrimônio que ela representa no balanço: o mercado paga mais de duas vezes e meia o patrimônio do Itaú e menos que o patrimônio do BB.

Itaú: o banco de qualidade, pelo preço da qualidade

O Itaú é hoje o banco mais rentável entre os grandes do país, com inadimplência baixa e estável. Como o blog mostrou ao analisar a teleconferência do segundo trimestre, a gestão prefere perder participação de mercado a emprestar para clientes arriscados, e isso protege o lucro quando o ciclo de crédito piora.

Para o investidor de renda, o Itaú tem duas características que precisam ser entendidas:

  • O dividendo vem em duas partes. Um JCP mensal pequeno e regular, e um dividendo extraordinário grande, normalmente anunciado no fim do ano, quando o banco devolve o capital que sobrou. Dos cerca de R$ 3,14 por ação pagos nos últimos 12 meses, R$ 1,87 foram extraordinários. Sem eles, o yield ficaria perto de 2,5%.
  • O preço já reflete a qualidade. Com P/VP de 2,56, o mercado paga caro por esse lucro. Quem compra hoje depende de o ROE continuar alto para que o investimento renda bem.

Banco do Brasil: o banco descontado, com motivo para o desconto

O Banco do Brasil atravessa o pior momento em anos. O lucro do primeiro semestre de 2026 caiu 34% em relação ao mesmo período de 2025, puxado pelo aumento da inadimplência no agronegócio. A inadimplência acima de 90 dias subiu de 3,96% para 5,61% em um ano. O banco também é o segundo maior credor financeiro das Casas Bahia, que pediram recuperação judicial em agosto.

A consequência para quem busca renda foi direta: em janeiro, o BB reduziu o payout, a parcela do lucro distribuída aos acionistas, para 30% em 2026. Com lucro menor e uma fatia menor dele distribuída, o yield de 12 meses caiu para 2,8%. No primeiro semestre, toda a distribuição foi feita em JCP, que tem 17,5% de imposto retido na fonte. Líquido, o yield fica perto de 2,3%.

Em 6 de outubro, o JPMorgan rebaixou as ações do BB para venda, citando a lentidão na recuperação operacional e a exposição ao crédito agro.

O que o preço baixo esconde, e o que pode revelar

À primeira vista, o BB parece uma pechincha: o mercado paga 0,78 vez o patrimônio. Mas, como o blog já discutiu, o P/VP sozinho engana. O que o investidor compra é o lucro que esse patrimônio gera.

Uma conta simples ajuda a comparar: dividir o ROE pelo P/VP mostra quanto o banco lucra, por ano, em relação ao preço pago pela ação.

  • Itaú: 24,3% ÷ 2,56 = cerca de 9,5% ao ano.
  • Banco do Brasil: 8,3% ÷ 0,78 = cerca de 10,7% ao ano.

Por essa régua, os dois estão mais próximos do que parece, e o BB até sai na frente. A diferença está na confiança no número. O ROE do Itaú está estável há vários trimestres. O do BB está deprimido, e pode tanto se recuperar quanto cair mais.

  • Se o crédito agro melhorar, como a administração espera com a MP 1.376, o lucro do BB pode voltar a crescer, o payout pode subir e a ação, hoje descontada, ganha espaço. A própria projeção do banco aponta lucro de R$ 18 a 22 bilhões em 2026, contra R$ 7,3 bilhões no primeiro semestre.
  • Se a inadimplência continuar subindo, o desconto de hoje terá sido merecido.

Há ainda um risco que o Itaú não tem: o BB é controlado pelo governo federal, e decisões de política pública podem pesar sobre a rentabilidade.

Qual escolher? Depende do que você procura

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de ITUB4 (ADR: ITUB) ou BBAS3 (ADR: BDORY). A comparação, porém, mostra perfis bem diferentes:

  • O Itaú combina com quem quer previsibilidade e aceita pagar mais por ela. É a lógica de Warren Buffett, que escreveu em 1989 que é melhor comprar uma empresa excelente a um preço justo do que uma mediana a um preço excelente. O dividendo vem em boa parte dos extraordinários, que dependem de o banco continuar gerando capital de sobra.
  • O BB combina com quem tem paciência para atravessar um ciclo ruim e aceita receber pouco agora em troca de uma possível recuperação. É a lógica de Benjamin Graham, de comprar com desconto em relação ao valor contábil. Hoje, porém, o banco não passa no filtro de 6% de Bazin, e o preço teto, como o blog calculou, ficou muito abaixo da cotação.

Muitos investidores de renda preferem ter os dois tipos de banco na carteira, justamente porque os ciclos de cada um não andam juntos.

O que fica de prático

  1. Não compare bancos só pelo P/VP. Olhe o ROE junto: o desconto pode ser oportunidade ou aviso.
  2. Separe o dividendo recorrente do extraordinário no Itaú, e o JCP bruto do líquido nos dois.
  3. Acompanhe três números nos resultados do 3º trimestre, previstos para o início de novembro: a inadimplência do agro no BB, o ROE dos dois e o capital principal do Itaú, que define o tamanho do extraordinário do início de 2027.

No fim, a pergunta “Itaú ou Banco do Brasil?” tem menos a ver com qual banco é melhor e mais com qual risco o investidor prefere carregar: pagar caro pela previsibilidade ou pagar barato pela incerteza.

Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo


Fontes consultadas:


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