Dividendo Certo

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Bradesco BBDC4 (ADR: BBD) e a recuperação judicial das Casas Bahia: o que se sabe e o que ainda não dá para saber

Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo

Em 16 de agosto de 2026, o Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas. No mesmo fim de semana, tinha divulgado prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. Na lista de credores entregue à Justiça, o grupo Bradesco apareceu como o maior credor financeiro: somando o que é devido ao próprio banco e ao Digio, seu banco digital, são cerca de R$ 4,78 bilhões a receber. Para quem tem BBDC4 (ADR: BBD), a pergunta natural é quanto disso vai virar perda. A resposta honesta é que ninguém fora do banco sabe ainda. Vale entender por quê, qual é o tamanho real do risco e o que observar para descobrir.

Quem é o credor: o Digio é o próprio Bradesco

Uma dúvida comum é tratar o Digio como um banco separado, do qual o Bradesco seria apenas sócio. Não é o caso. O Digio nasceu como uma sociedade entre Bradesco e Banco do Brasil, mas o Bradesco comprou a parte do BB, e o negócio foi concluído em 2022. Desde então, o Digio pertence 100% ao Bradesco, como mostra o próprio relatório do segundo trimestre do banco. Na prática, qualquer perda do Digio é perda do Bradesco.

A maior parte da exposição do Digio vem do crediário das Casas Bahia, o famoso carnê. Nesse modelo, a varejista vendia a prazo e o banco financiava as parcelas. Segundo análise do Safra, a carteira total de crediário da varejista era de R$ 6,3 bilhões, dos quais cerca de R$ 2,6 bilhões estavam no Digio.

Nem todo crédito é igual: concursal e extraconcursal

O número de R$ 4,78 bilhões assusta, mas ele mistura dois tipos de crédito com riscos bem diferentes.

  • Crédito concursal é o que entra na recuperação judicial. Ele fica sujeito ao plano que a empresa vai propor e que os credores votam. Na prática, costuma ser pago com desconto e em prazo longo.
  • Crédito extraconcursal fica fora do plano. Em geral, é um crédito com garantia forte, como recebíveis cedidos ao banco (o dinheiro que os clientes da varejista ainda vão pagar). Esse credor pode continuar recebendo nas condições originais do contrato.

Segundo a lista de credores, a maior parte da exposição do grupo Bradesco é extraconcursal. O detalhamento, porém, variou entre as reportagens: a parcela fora do plano aparece como R$ 3,35 bilhões numa versão e R$ 4,12 bilhões em outra. O dado mais concreto é a estimativa da própria Casas Bahia: uma perda de cerca de 25% sobre o crediário do Digio, o equivalente a R$ 655 milhões classificados como crédito concursal.

Mesmo o crédito extraconcursal não está livre de risco: tudo depende da garantia. Se ela for um recebível, o banco pode, em princípio, continuar recebendo. Se for um bem essencial à operação da varejista, o banco não pode tomá-lo durante o chamado stay period, o prazo em que as cobranças contra a empresa ficam suspensas. No caso das Casas Bahia, a Justiça fixou esse prazo em 180 dias, de 19 de agosto de 2026 a 15 de fevereiro de 2027.

Por que o impacto ainda é incerto

A incerteza tem três fontes.

1. Não se sabe quanto já está provisionado. Provisão é o dinheiro que o banco reserva no balanço, antecipadamente, para cobrir perdas prováveis. Se o Bradesco já reservou boa parte do risco das Casas Bahia antes do pedido, o impacto no lucro daqui para frente será pequeno. Se não, a conta ainda está por vir. Os analistas do Safra examinaram os números do Digio até junho e não encontraram reforço relevante de provisão: o saldo de créditos problemáticos até caiu no semestre. Por outro lado, o próprio Safra lembra que o Bradesco aumentou em cerca de R$ 800 milhões as provisões para o varejo de massa no segundo trimestre, o que pode já cobrir parte do caso. Os dados públicos não permitem separar uma coisa da outra.

2. A garantia mudou de natureza. Em agosto de 2025, o Bradesco reestruturou o contrato do crediário. O risco principal passou a ser do consumidor que comprou a prazo, e não mais da varejista. As Casas Bahia ficaram como garantidoras: quando um cliente deixava de pagar, a empresa reembolsava o Digio em até cinco dias. Com a recuperação judicial, esse reembolso entrou nas regras do processo e deixou de ser uma garantia plena. Na prática, a carteira ficou mais parecida com um crédito sem garantia, pelo menos durante os 180 dias de suspensão.

3. O consumidor do carnê já estava apertado. Quem compra no crediário é, em geral, o cliente de menor renda, o segmento mais endividado do país. O Safra chama atenção para um risco adicional: o noticiário sobre a crise da varejista pode mudar o comportamento desse cliente, que passa a priorizar outras dívidas.

Qual é o tamanho do problema para o Bradesco

Para dar escala, vale usar os números do próprio banco. No segundo trimestre de 2026, antes da recuperação judicial, o Bradesco lucrou R$ 7,05 bilhões e reservou R$ 9,985 bilhões em provisões para perdas com crédito (a chamada PDD, provisão para devedores duvidosos). Pedro Gonzaga, da Mantaro Capital, fez um cálculo de pior caso: se o banco tivesse de provisionar os quase R$ 5 bilhões de uma vez, sem nenhuma reserva anterior, isso seria menos da metade da provisão de um trimestre e, depois dos impostos, algo como 40% do lucro de um trimestre. Nas palavras dele, seria uma provisão “que pesa em um trimestre, mas menos no resultado de um ano e menos ainda no filme de recuperação”.

Esse cenário extremo é improvável, justamente porque boa parte do crédito tem garantia. Já os R$ 655 milhões que a própria varejista estima como perda representam menos de 7% da provisão de um único trimestre.

Um contraste ajuda a entender a leitura do mercado. No caso da Americanas, em 2023, os bancos foram surpreendidos por uma fraude contábil. Com as Casas Bahia, a dificuldade financeira era conhecida havia anos: a empresa já tinha passado por uma recuperação extrajudicial em 2024. É um risco de crédito que vinha sendo acompanhado, não uma surpresa. Talvez por isso as ações do Bradesco tenham caído só cerca de 2% nos dias seguintes ao pedido, sem volume fora do normal.

O Banco do Brasil está numa posição diferente

O Banco do Brasil, BBAS3 (ADR: BDORY), também financia o crediário das Casas Bahia. Segundo o Safra, sua fatia é de cerca de R$ 2,4 bilhões. A diferença está no contrato. O BB não fez a reestruturação que o Bradesco fez em agosto de 2025. Por isso, sua carteira ainda carrega 100% do risco da própria varejista e está totalmente sujeita às regras da recuperação judicial. No Bradesco, o risco está sobretudo no consumidor final, com as Casas Bahia como garantidoras. No BB, o risco é a própria empresa em recuperação.

É uma diferença de natureza, não só de tamanho, e ela merece uma análise própria. O caso do Banco do Brasil será tema de um próximo artigo aqui no blog.

Perda permanente ou só uma questão de tempo?

Howard Marks costuma dizer que risco não é a oscilação do preço de uma ação, e sim a chance de uma perda permanente. Essa distinção é exatamente o que está em aberto no caso Bradesco.

Os próprios analistas do Safra reconhecem que, se a recuperação judicial das Casas Bahia der certo, parte do impacto pode ser apenas uma “diferença temporária” nas provisões. O banco reserva agora e reverte depois, quando as garantias voltarem a funcionar. Se a recuperação fracassar, a provisão vira perda de verdade. Para quem investe de olho em dividendos, essa é a diferença que importa: um trimestre com lucro menor passa, mas uma perda permanente reduz a base que sustenta os proventos ao longo dos anos.

O que fica de prático

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de BBDC4 (ADR: BBD). O quadro, hoje, é de incerteza sobre o valor, não sobre a ordem de grandeza. Mesmo no pior caso, o impacto parece caber em um trimestre, e analistas como o Safra mantiveram a visão positiva sobre o banco apesar do alerta. Mas “caber em um trimestre” não é o mesmo que “não custar nada”.

Vale acompanhar três sinais:

  1. O balanço do terceiro trimestre (julho a setembro). É o primeiro que inclui o pedido de recuperação judicial. O ponto a observar é se o banco comenta o caso e se a provisão salta acima do normal.
  2. O plano de recuperação das Casas Bahia. Ele vai mostrar quanto os credores concursais devem receber, e em que prazo.
  3. O fim do stay period, em fevereiro de 2027. É quando fica mais claro se as garantias do crediário voltam a funcionar ou se o prejuízo se torna definitivo.

Uma recuperação de rentabilidade como a do Bradesco raramente é uma linha reta. O que distingue um tropeço de uma mudança de rota é se a perda é pontual ou permanente, e essa resposta vai aparecer nos balanços dos próximos trimestres, não na manchete.


Fontes consultadas:


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