Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Bradesco (BBDC4) divulga o 2T26: décimo trimestre seguido de lucro em alta e um aumento de capital que muda o jogo para o acionista

O Bradesco (BBDC4) divulgou nesta quarta-feira, 29 de julho, o resultado do segundo trimestre de 2026. O banco reportou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões, com crescimento de 16,2% frente ao mesmo trimestre do ano passado — o décimo trimestre seguido de alta no lucro. Mas o destaque do período não é só o resultado operacional: no mesmo dia da divulgação, o Conselho de Administração aprovou um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, com efeitos diretos sobre a distribuição de dividendos e sobre a diluição de quem não acompanhar a subscrição. Vale entender os dois lados dessa história.

Como o Bradesco ganha dinheiro, em linguagem simples

Assim como qualquer banco, o Bradesco ganha dinheiro principalmente de três formas: a margem financeira (a diferença entre o que cobra de quem toma empréstimo e o que paga a quem deposita dinheiro, mais o resultado da tesouraria operando no mercado), as receitas de prestação de serviços (tarifas de cartão, administração de fundos, consórcios) e o resultado do braço de seguros (o Grupo Bradesco Seguros). Desse total, o banco desconta o custo do crédito (o dinheiro reservado para cobrir clientes que não pagam) e as despesas de operar o negócio.

Os números do trimestre

A margem financeira somou R$ 20,9 bilhões, alta de 15,7% na comparação anual. A carteira de crédito expandida (que inclui avais, fianças e outras operações com característica de crédito, além do crédito tradicional) atingiu R$ 1,137 trilhão, crescimento de 11,6% em doze meses, puxado tanto por pessoas físicas (+8,4%) quanto por pessoas jurídicas (+14,1%).

Do lado do risco, a inadimplência acima de 90 dias ficou em 4,3%, com leve avanço no trimestre — dentro do que o próprio banco já esperava, e concentrado principalmente em operações de capital de giro com garantia no segmento de pequenas e médias empresas, que têm uma dinâmica de recuperação mais lenta, mas não significam necessariamente perda. O índice de eficiência (quanto o banco gasta para operar, em proporção às suas receitas — quanto menor, melhor) ficou em 46,5%, em trajetória de melhora frente aos 51,2% de um ano atrás.

O retorno sobre o patrimônio líquido (ROAE, medida de quanto lucro o banco gera para cada real de capital próprio dos acionistas) ficou em 16,2% no trimestre, também em evolução constante ao longo dos últimos cinco trimestres.

O aumento de capital: o que muda para quem tem ações

Em 29 de julho, o Conselho de Administração aprovou um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, com garantia de subscrição mínima de R$ 8 bilhões pelos próprios acionistas controladores. A operação será feita por meio da emissão de novas ações ordinárias e preferenciais, com direito de preferência para os acionistas atuais exercerem entre 6 de agosto e 4 de setembro de 2026, na proporção de aproximadamente 5,72% sobre a posição que tinham em 4 de agosto.

Na prática, isso significa que quem já é acionista do Bradesco pode comprar ações novas com desconto sobre o preço de mercado (R$ 15,43 por ação ON e R$ 17,64 por ação PN, valores abaixo da cotação recente) para manter sua fatia proporcional na empresa. Quem não exercer esse direito nem vender o direito de subscrição na B3 (também possível, entre 6/8 e 1/9) sofre diluição — ou seja, passa a deter uma fatia menor do banco, ainda que o valor absoluto do investimento não mude de imediato.

Um detalhe que interessa a quem recebe JCP (juros sobre capital próprio, uma forma de remuneração parecida com dividendo): o banco antecipou o pagamento de R$ 6,5 bilhões em JCP já declarados para 15 de setembro de 2026, justamente para que os acionistas possam usar esse dinheiro para pagar a subscrição das novas ações, caso queiram.

O que isso significa para quem recebe dividendo, de forma geral

O Bradesco tem política de dividendo mínimo obrigatório de 30% do lucro líquido, mas historicamente distribui mais: no primeiro semestre de 2026, o banco pagou e provisionou R$ 8,0 bilhões em dividendos e JCP (bruto), equivalente a um payout de 69% do lucro líquido do semestre — bem acima do mínimo. Isso mostra que, mesmo estando no meio de uma captação de capital, o banco não reduziu sua distribuição habitual ao acionista.

Do lado da solidez, os índices de capital seguem confortáveis: capital principal em 11,3% e índice de Basileia total em 15,5%, ambos acima dos mínimos regulatórios — e é justamente essa base de capital, reforçada agora pelo aumento, que sustenta a capacidade do banco de seguir crescendo a carteira de crédito e remunerando o acionista ao mesmo tempo.

O que a administração projeta para o resto do ano

O Bradesco manteve todo o seu guidance para 2026: crescimento da carteira de crédito expandida entre 8,5% e 10,5%, margem financeira líquida entre R$ 42 bilhões e R$ 48 bilhões, crescimento de receitas de serviços entre 3% e 5%, despesas operacionais entre 6% e 8%, e resultado de seguros entre 6% e 8%. Nenhuma meta foi revisada — sinal de que a administração enxerga o trimestre como consistente com o planejado para o ano.

O que vou fazer?

Hoje comprei ações do Bradesco (BBDC3, a ação ordinária, que aumenta meu direito de participar da subscrição do aumento de capital. O preço da oferta para ações ON é de R$ 15,43, abaixo da cotação de mercado.

o que me encorajou a seguir como sócio do banco, aumentando posição via subscrição, foi o conjunto do resultado do trimestre: o lucro crescendo (décimo trimestre seguido de alta), a inadimplência sob controle (sem sinal de deterioração na carteira de crédito), a margem financeira em expansão — que, para quem não é do mercado, é simplesmente a diferença entre o que o banco cobra de juros de quem toma empréstimo e o que ele paga a quem deixa dinheiro depositado ou aplicado, mais o resultado de aplicar esse dinheiro no mercado — e o aumento do ROE, que mede quanto lucro o banco consegue gerar para cada real de capital que os próprios acionistas têm investido nele (quanto maior, mais eficiente o banco é em transformar capital próprio em lucro).

Reforço que isso é um relato pessoal de decisão de investimento, não uma recomendação de compra para quem lê o blog. Cada pessoa tem objetivos, prazos e tolerância a risco diferentes, e decisões como essa devem ser tomadas com base na própria análise e situação financeira.

O que fica de prático

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de BBDC4 — é um relato de como interpretar um resultado trimestral combinado com um evento societário relevante. O aprendizado central: quando um banco anuncia aumento de capital ao mesmo tempo em que mantém (ou até melhora) sua distribuição de dividendos e a qualidade do crédito, isso costuma indicar reforço de capital para crescer, não fragilidade — mas quem tem ações precisa decidir, até 4 de setembro, se exerce o direito de subscrição, vende esse direito, ou aceita a diluição.

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Dividendo Certo é uma newsletter sobre renda passiva com dividendos, pela ótica do value investing — Bazin, Barsi, Buffett, Munger, Lynch e Howard Marks aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

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