
Quando os leitores olham para a minha carteira focada em renda passiva, recheada de bancos, elétricas e seguradoras no Brasil, a reação costuma ser de surpresa ao verem o topo da minha alocação internacional: Alphabet ($GOOGL), a empresa-mãe do Google.
“Mas Rodrigo, o foco do Dividendo Certo não é fluxo de caixa e proventos? O que uma gigante de tecnologia faz como a sua maior posição?”
A resposta é simples: Geração de caixa estrutural e monopólio de atenção.
Aqui no Brasil, busco negócios maduros que me devolvem o lucro no formato de dividendos gordos. Lá fora, o meu “motor de crescimento” funciona de forma diferente. A Alphabet pega rios de dinheiro e reinveste para dominar o futuro da tecnologia. E o balanço do 2º trimestre de 2026 (2T26) é a prova matemática dessa tese — mas também traz uma pegadinha contábil que enganou muita gente.
A Máquina de Receitas (De onde vem o dinheiro)
Para entender o tamanho desse transatlântico, basta olhar para a linha da receita. A Alphabet faturou impressionantes US$ 119,8 bilhões em apenas um trimestre, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior.
Muitos investidores ainda acham que a Alphabet se resume àquela barrinha branca de pesquisa no navegador. Mas veja de onde veio esse dinheiro nos últimos três meses:

A divisão Google Cloud acelerou absurdos 82% neste trimestre. Eles não estão apenas criando Inteligência Artificial; eles estão alugando a infraestrutura pesada para que outras empresas construam as suas próprias soluções.
A Ilusão Contábil: Lucro Recorde, mas Caixa Negativo?
Aqui entramos na análise que separa os homens dos meninos. Se você olhar apenas a manchete dos jornais, verá que o lucro líquido da Alphabet disparou quase 300%. Mas quem analisa os fundamentos logo percebeu algo bizarro: como a empresa teve um lucro tão expressivo se o fluxo de caixa (Cash Flow) ficou negativo?
A resposta está na diferença entre o que é “lucro contábil” e o que é “dinheiro no banco”.
1. O Efeito do Lucro de Papel: A Alphabet reportou um ganho de cerca de US$ 98 bilhões no trimestre originado exclusivamente da valorização de suas fatias em outras empresas (os chamados “ganhos não realizados” ou unrealized gains). Ou seja, as ações que o Google possui se valorizaram, e a contabilidade exige que isso entre no balanço como lucro. Mas atenção: a empresa não vendeu essas ações. É um lucro de papel. Não entrou nem um único centavo de dólar vivo no caixa por conta disso.
2. O Peso do CAPEX (A Queima de Caixa Real): Do outro lado da balança, a empresa está no meio de uma guerra global pela dominância em Inteligência Artificial. Para fazer a receita do Google Cloud crescer 82%, a Alphabet precisou abrir a carteira e gastar bilhões de dólares comprando novos datacenters, chips avançados e servidores. Isso se chama CAPEX (Despesas de Capital).
Quando você pega uma empresa que teve o lucro inflado por ganhos de papel, mas que ao mesmo tempo torrou uma quantidade astronômica de dinheiro real comprando infraestrutura (CAPEX), a matemática é implacável: o lucro líquido vai às nuvens, mas o fluxo de caixa fica negativo.
O Elefante na Sala: Os Riscos da Tese
O setor de tecnologia não é como o de transmissão de energia no Brasil, onde você assina um contrato de concessão de 30 anos e vai dormir tranquilo. A tecnologia é um moedor de carne, e a competição é brutal.
Quais são os riscos que eu monitoro de perto nessa posição?
- A Carnificina do CAPEX na Nuvem: Como vimos no fluxo de caixa, manter esse crescimento exige montanhas de capital constante. A guerra de trincheiras contra a Amazon (AWS) e a Microsoft (Azure) pode pressionar as margens no longo prazo.
- A Ameaça ao Monopólio das Buscas: O modelo de anúncios do Google ainda é a “vaca leiteira” do grupo. Se o usuário passar a preferir respostas diretas de chats de IA (como o ChatGPT da OpenAI/Microsoft) em vez de clicar em links patrocinados, a receita principal pode sofrer.
- A Mira dos Governos: Empresas do tamanho da Alphabet são alvos fáceis para processos antitruste (práticas anticompetitivas) nos Estados Unidos e na Europa.
O Veredito da Minha Carteira
Por que, mesmo com um fluxo de caixa pressionado por investimentos colossais e riscos claros, ela continua sendo a minha maior posição internacional?
O motivo por que ela continua a ser minha maior posição internacional foi em função da valorização do papel: impressionantes 123%, em dólar! Não foi uma posição que montei com compras, chegou num ponto que parei de comprar.
Claro que eu poderia vender para realizar o lucro, mas não é assim que invisto. Mesmo com a empresa passando por um momento turbulento, acredito que ela possui os melhores funcionários, cientistas e executivos do setor de tecnologia. Não é algo trivial uma empresa fazer parte da nossa vida diariamente sem nem a gente perceber desde o uso do celular, trabalhar com um navegador ou assistir a um vídeo do YouTube. Resumindo: não vendo.
O Google é o meu contrapeso perfeito. O caixa negativo atual não é um sinal de fraqueza, mas sim o preço de construir a infraestrutura do futuro. Eles têm a musculatura financeira para aguentar esse CAPEX sem comprometer a saúde do negócio, além de possuírem o ativo mais valioso do mundo: a atenção de bilhões de pessoas.
Enquanto os meus bancos e elétricas brasileiras colocam o leite em casa hoje pagando dividendos estáveis, a Alphabet garante que o meu patrimônio esteja exposto à tecnologia que vai ditar o ritmo da economia global amanhã.
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