Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

O que vale lembrar de Bradesco, Itaú e Banco do Brasil antes dos resultados do 2º trimestre

A temporada de resultados do 2T26 está prestes a começar: Bradesco (BBDC4) reporta em 30/07, Itaú (ITUB4) em 04/08, e Banco do Brasil (BBAS3) em 12/08. É tentador ler os três resultados com a mesma régua genérica de “bancos são sensíveis a juros” — mas o 1T26 de cada um deixou pistas bem claras de que esse rótulo esconde mecanismos bem diferentes por trás. Vale revisar essas pistas agora, antes dos números do 2T26 saírem, para saber exatamente o que procurar em cada balanço — inclusive no que diz respeito ao dividendo.

Três mecanismos, três históricos diferentes no trimestre anterior

Existem três motores possíveis por trás de um resultado bancário: a carteira de crédito (quanto o banco ganha emprestando, líquido de provisão para calote), o resultado de tesouraria (ganhos ou perdas com títulos e hedge, geralmente mais pontual), e a margem financeira recorrente com clientes (a diferença estrutural entre o que o banco cobra do tomador e paga ao poupador). No 1T26, BBAS3, ITUB4 e BBDC4 foram puxados por combinações bem diferentes desses três motores — e é justamente essa diferença que vale ter em mente ao acompanhar o 2T26.

Bradesco: o único dos três com crescimento genuíno na margem com cliente

No Bradesco, a margem financeira total somou R$ 20,05 bilhões no 1T26, com alta de 16,4% na comparação anual — puxada principalmente pela margem com clientes propriamente dita, que avançou 16,3% no ano, para R$ 19,49 bilhões. Foi o único dos três bancos em que o crescimento trimestral veio majoritariamente do motor estrutural e recorrente, não de tesouraria.

Isso não significa que o Bradesco esteja livre de pressão de crédito — a despesa bruta com provisão (PDD) somou R$ 9,7 bilhões, alta de 26,5% na comparação anual, com custo de crédito subindo para 3,5% (+0,5 p.p. no ano). Mas o crescimento da margem com clientes foi forte o suficiente para mais do que compensar esse aumento, resultando em lucro recorrente de R$ 6,8 bilhões, alta de 16,1% no ano. A Bradesco Seguros contribuiu com R$ 2,8 bilhões de lucro (+13% no ano), reforçando o papel da diversificação como colchão adicional.

E o dividendo? Aqui está o sinal mais favorável dos três. Além do JCP mensal regular, o Bradesco aprovou duas distribuições extraordinárias de JCP em 2026 — uma em março/abril de R$ 3 bilhões, e outra em junho ainda maior (cerca de 18,3 vezes o valor mensal usual, líquido de imposto). O payout anualizado está em 49,99% do lucro. Isso é coerente com o que os números do 1T26 mostram: um motor de lucro genuinamente mais forte, sustentando remuneração extra além do calendário normal — não é só o lucro subindo, é a política de distribuição acompanhando.

O que vale lembrar para o 2T26: verificar se a margem com clientes do Bradesco sustenta o mesmo ritmo de crescimento estrutural, ou se o trimestre passado foi um ponto fora da curva. Também vale acompanhar se o custo de crédito continua subindo no mesmo ritmo — no 1T26, ele ainda não comprometeu o resultado final, mas é a variável que poderia mudar esse quadro, inclusive o das distribuições extraordinárias.

Itaú: um trimestre mais fraco na margem com cliente, sustentado por ganho pontual de tesouraria

No Itaú, a margem financeira total (NII) somou R$ 32,3 bilhões no 1T26, estável na comparação trimestral e com alta de 4% na anual. Dentro desse número, porém, a margem financeira com clientes — o motor estrutural — caiu 0,7% na comparação trimestral (ainda que suba 4,5% na anual). O que sustentou a margem total no trimestre foi a margem com o mercado (tesouraria), que avançou 37,3% na comparação trimestral, refletindo principalmente o maior custo do hedge de índice de capital.

Diferente do Banco do Brasil, não há sinal de deterioração de crédito no caso do Itaú — a queda trimestral na margem com clientes é atribuída a sazonalidade (menos dias úteis no trimestre), e o próprio guidance da instituição projeta aceleração da margem com clientes ao longo do ano (crescimento entre 5% e 9%).

E o dividendo? O mais previsível e estável dos três. O Itaú mantém a política de JCP mensal (R$ 0,01765 bruto por ação) e o payout histórico entre 50% e 60% do lucro líquido, com o estatuto garantindo distribuição mínima de 25% do lucro ajustado. A distribuição mais recente somou R$ 23,4 bilhões (R$ 2,18 por ação, entre dividendo e JCP). Não há sinal, nos números do 1T26, de que essa política mude — a queda pontual na margem com clientes foi atribuída a sazonalidade, não a um problema estrutural que ameace o payout.

O que vale lembrar para o 2T26: o guidance do próprio Itaú projeta aceleração da margem com clientes ao longo do ano — o 2T26 é o primeiro teste real dessa promessa. Vale conferir se a margem com clientes volta a crescer na comparação trimestral, o que confirmaria que o 1T26 foi mesmo sazonalidade e não um sinal de desaceleração mais estrutural que pudesse, no limite, pressionar o payout no futuro.

Banco do Brasil: margem bruta bonita, mas puxada por tesouraria enquanto o crédito racha

No Banco do Brasil, a margem financeira bruta subiu 14,8% no 1T26 frente ao 1T25, alcançando R$ 27,4 bilhões — número que, isolado, parece ótimo. O problema aparece na composição: a margem com o mercado (tesouraria) saltou 26,4% na comparação anual, com resultado de tesouraria de R$ 8,9 bilhões (+23%). Boa parte do crescimento da margem bruta veio de operações financeiras, não do motor recorrente de crédito.

Enquanto isso, a carteira de pessoa jurídica encolheu 6% (com MPME caindo 10% e grandes empresas 9%), e a inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,05% (ante 3,63% um ano antes) — o que fez as provisões somarem R$ 18,9 bilhões no trimestre. O resultado final: lucro recorrente de R$ 3,43 bilhões, queda de 53,5% frente ao 1T25.

E o dividendo? Aqui está o sinal de alerta claro. O Banco do Brasil já confirmou corte do payout para 30% em 2026 — abaixo do patamar histórico de 40% a 45% — como medida de conservadorismo diante da pressão de capital esperada por mudanças regulatórias. Com a projeção de lucro para 2026 também revisada para baixo (entre R$ 22 e R$ 23 bilhões), a distribuição estimada de dividendos e JCP fica entre R$ 6,6 e R$ 6,9 bilhões — um efeito duplo de queda: menos lucro para distribuir, e uma fatia menor desse lucro sendo distribuída. O próprio banco não descarta pagar dividendo extraordinário se a inadimplência no agro melhorar e os resultados recuperarem, mas isso depende de uma reversão que ainda não apareceu nos números.

O que vale lembrar para o 2T26: este é o resultado que pede mais atenção antes de sair. A pergunta central não é se a margem bruta volta a crescer — é se a inadimplência acima de 90 dias para de subir e se a carteira de pessoa jurídica estabiliza. Sem isso, mesmo uma margem bruta “bonita” de novo (via tesouraria) não muda o cenário de payout reduzido já confirmado para o ano.

O que essa comparação ensina, antes dos números saírem

Colocando os três lado a lado: o Bradesco chega ao 2T26 com o único motor genuinamente estrutural funcionando entre os três, e isso já se traduz em distribuições extraordinárias de JCP — dividendo em trajetória de alta. O Itaú chega com uma promessa de aceleração ainda não confirmada, mas com política de payout estável e sem sinal de risco — dividendo previsível, sem grandes surpresas para nenhum dos dois lados. O Banco do Brasil chega precisando mostrar que o problema de crédito parou de piorar — e, enquanto isso não acontece, o payout já confirmado em 30% (ante 40-45% histórico) somado ao lucro menor apontam para dividendo em queda estrutural, não pontual.

Da próxima vez que um resultado trimestral vier acompanhado da frase genérica “impacto da Selic”, vale abrir o release e procurar essas três linhas separadamente: resultado de crédito, resultado de tesouraria e margem com clientes. É ali, não na manchete, que mora a diferença entre um trimestre bom por sorte pontual e um trimestre bom por fundamento recorrente — e é exatamente isso que vai determinar se o dividendo de cada um desses três bancos sobe, cai ou se mantém estável depois do 2T26.

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