Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

Por que quem compra Bradesco (BBDC4) está levando muito mais do que um banco

Se você acompanha o noticiário financeiro nos últimos meses, já deve ter percebido que bater no Bradesco ($BBDC3 / $BBDC4) virou o esporte favorito de muitos analistas. A narrativa de curto prazo foca na reestruturação das agências, no risco de crédito e na dificuldade do banco comercial em retomar as margens históricas. Todavia, os números provam que o banco está recuperando terreno: na comparação do 1º trimestre de 2025 com o 1º trimestre de 2026, o lucro líquido consolidado saltou de R$ 5,8 bilhões para R$ 6,8 bilhões, o ROE (Retorno sobre o Patrimônio) avançou de 11,2% para 13,5%, e a margem financeira voltou a se expandir, sinalizando que o pior da tempestade no banco comercial já ficou para trás.

Mas, como investidores focados em dividendos e geração de valor de longo prazo, nós não compramos manchetes. Nós compramos balanços. E quando você abre o capô do Bradesco, encontra um motor V8 que a maioria do mercado precifica de forma equivocada: a Bradesco Seguros.

O que muitos esquecem — ou simplesmente ignoram — é que quem compra uma ação do Bradesco não está levando apenas o segundo maior banco privado do Brasil. Está levando, “de brinde”, a maior seguradora da América Latina.

O motor invisível dos dividendos

No mercado financeiro, existe um conceito chamado de “Soma das Partes” (Sum of the Parts). Ele serve para avaliar conglomerados gigantescos. A ideia é simples: se fatiarmos a empresa e vendermos cada pedaço separadamente, quanto o negócio valeria no total?

É aqui que a assimetria do Bradesco grita.

Hoje, a operação de Seguros, Previdência e Capitalização é a verdadeira fortaleza do conglomerado. Para se ter uma ideia do tamanho desse motor, basta olhar para os números mais recentes. No primeiro trimestre de 2026, a Bradesco Seguros entregou um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões, um crescimento operacional de 13% frente ao mesmo período do ano anterior.

Como o lucro consolidado de todo o banco no 1T26 foi de R$ 6,8 bilhões, a matemática fala por si só: sozinha, a seguradora respondeu por impressionantes 41% de todo o resultado do Bradesco.

Em trimestres onde o banco comercial sofre com a inadimplência, é a seguradora que “salva a lavoura”, entregando lucros bilionários com margens altíssimas (como o ROAE de 21,6% recém-reportado) e baixíssimo consumo de capital — já que seguradoras não precisam de fábricas ou agências físicas gigantescas para escalar.

A Tese do Spin-off: E se a Bradesco Seguros ganhasse asas?

Olhe para o lado e veja o que aconteceu com os rivais estatais. O Banco do Brasil fez o spin-off (a separação e abertura de capital) da BB Seguridade ($BBSE3). A Caixa Econômica fez o mesmo com a Caixa Seguridade ($CXSE3). Hoje, ambas são empresas queridinhas dos investidores de renda, negociando a múltiplos premium justamente por serem negócios “redondos” e extremamente focados.

Se a administração do Bradesco decidisse, amanhã, fazer o spin-off da Bradesco Seguros — listando-a na Bolsa como uma empresa independente —, o valor destravado para o acionista seria colossal. O mercado seria forçado a precificar a seguradora pelos seus próprios méritos, livre da “âncora” do risco de crédito do banco.

Isso é o que o lendário investidor Peter Lynch chamava de “Ativo Oculto” (Hidden Asset). Você paga um preço com desconto pela empresa inteira, mas carrega lá dentro uma divisão que vale ouro.

O que isso muda na nossa carteira?

Mesmo que esse spin-off nunca aconteça e a seguradora continue dentro da holding, a tese de investimento permanece intacta para quem busca renda passiva.

A Bradesco Seguros continuará sendo a grande vaca leiteira do grupo, garantindo que a engrenagem de lucros e a distribuição de proventos (como os famosos Juros sobre Capital Próprio mensais do $BBDC4) continue rodando e alimentando o nosso efeito bola de neve.

No Dividendo Certo, não tentamos adivinhar quando o mercado vai “perdoar” o Bradesco. Apenas aproveitamos os momentos de pessimismo exagerado para acumular frações de uma máquina de gerar caixa por um preço que faz sentido matemático.

E você, já tinha parado para pensar no peso da seguradora na sua cotação de $BBDC4?

Siga reinvestindo e até a próxima edição!

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