Dividendo Certo

Renda passiva com dividendos — briefing semanal de investimentos

O Sr. Mercado e o Estreito de Ormuz: três semanas de loucura que ensinam mais sobre value investing do que qualquer livro

Benjamin Graham criou, ainda nos anos 1940, uma das metáforas mais úteis que já apareceram em um livro de investimentos: o Sr. Mercado. Imagine que você é sócio de uma empresa junto com um parceiro chamado Sr. Mercado, e que ele aparece na sua porta todos os dias oferecendo comprar sua parte ou vender a dele por um preço diferente. Alguns dias ele está eufórico e oferece muito mais do que o negócio vale. Outros dias está em pânico e quase implora para você levar a parte dele por uma fração do valor real. A genialidade do conceito de Graham não é explicar o comportamento do Sr. Mercado — é deixar claro que você não é obrigado a negociar com ele todo dia, e muito menos a acreditar que o preço que ele grita hoje é a verdade sobre o que o negócio vale.

As últimas três semanas na carteira do Dividendo Certo foram um curso intensivo, ao vivo, sobre esse conceito.

Três semanas, uma montanha-russa

O estopim foi o conflito no Estreito de Ormuz, a rota por onde passa cerca de 20% do petróleo e do GNL comercializados no mundo. Em poucos dias, o Brent saiu de algo próximo a US$ 67 para um pico acima de US$ 126, recuou para perto de US$ 75 assim que um cessar-fogo pareceu se desenhar, e voltou a subir para a faixa de US$ 84–86 depois que os Estados Unidos retomaram os ataques e reinstauraram o bloqueio naval a portos iranianos. O mesmo conflito, a mesma commodity, e uma oscilação de dezenas de dólares por barril em questão de dias — para cima, para baixo, e de novo para cima.

PETR4 seguiu o mesmo roteiro emocional. O papel oscilou mais de 30% no período, respondendo a cada manchete como se cada uma delas revelasse uma verdade definitiva sobre o valor da empresa. Só que a Petrobras de hoje é, estruturalmente, quase a mesma Petrobras de três semanas atrás: mesmas reservas, mesma capacidade de refino, mesmo custo de extração, mesma política de dividendos. O que mudou não foi o negócio — foi o humor de quem está precificando o negócio a cada minuto.

Votação de curto prazo, pesagem de longo prazo

Graham resumiu essa dinâmica numa frase que já virou clichê de tanto ser repetida, mas que raramente é levada a sério na prática: no curto prazo, o mercado é uma máquina de votação; no longo prazo, é uma máquina de pesagem. A votação é movida por medo, euforia, manchete de jornal e possibilidade de guerra. A pesagem é movida por lucro, fluxo de caixa, dividendo pago e reinvestido ano após ano.

O episódio do Ormuz é didático justamente porque comprime esses dois regimes numa janela de tempo curta o suficiente para observar os dois lados quase simultaneamente. Quem olhou para o Brent a US$ 126 e concluiu que o mundo tinha mudado para sempre — e comprou PETR4 no pico, tomado pelo mesmo otimismo do mercado — provavelmente amargou a queda para US$ 75 alguns dias depois. Quem olhou para o mesmo Brent a US$ 67, no fundo do poço, e decidiu que a companhia tinha perdido valor permanentemente — e vendeu no desespero — ficou de fora da recuperação para US$ 85. Em ambos os casos, quem reagiu à votação em vez de continuar pesando o negócio pagou um preço real por isso.

O que fica quando a poeira baixa

Isso não significa que o investidor de dividendos deva ignorar completamente o que acontece no mundo — o Brent mais caro tem efeitos reais e assimétricos sobre a carteira, pressionando a inflação e a Selic, o que por sua vez afeta o custo de capital de elétricas e o apetite por crédito dos bancos. Esses efeitos merecem ser acompanhados com atenção. A diferença é entre acompanhar o fundamento e reagir emocionalmente ao ruído.

Na prática, o antídoto de Graham para não enlouquecer com esse tipo de episódio é simples de enunciar e difícil de praticar: o preço que o Sr. Mercado grita hoje é uma oferta, não um veredito. Você pode aceitar a oferta quando ela for particularmente favorável — comprar mais de uma boa empresa quando o pânico empurra o preço para baixo do valor razoável do negócio — e pode ignorá-la completamente no dia seguinte, se ela não fizer sentido. O que você nunca deveria fazer é deixar o humor do Sr. Mercado decidir o que você pensa sobre o valor da sua própria carteira.

As três semanas de Ormuz vão passar, como toda crise geopolítica eventualmente passa. O que continua sendo verdade depois que a poeira baixa é o mesmo de sempre: dividendo é pago com lucro e caixa, não com a cotação do dia. Quem manteve o foco nisso, em vez de no gráfico minuto a minuto do Brent, atravessou a montanha-russa das últimas três semanas com bem menos desgaste — e, provavelmente, com a carteira mais barata do que estava antes de tudo começar.

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