RODRIGO GOMES FLORES — 5 de julho de 2026
No artigo passado, falei sobre a virada de Charlie Munger: preferir comprar um negócio excelente a preço justo do que uma pechincha com problema estrutural. O Bradesco, na minha carteira, é o exemplo mais concreto que tenho desse critério em ação — e vale contar com números, não só com a lembrança do “comprei na pior fase”.
O tamanho da crise: o que os dados mostravam em 2023
Em 2023, o Bradesco (BBDC3/BBDC4) atravessou o pior momento de qualidade de crédito da sua história recente. A inadimplência acima de 90 dias saltou de 3,5% no segundo trimestre de 2022 para 5,1% no primeiro trimestre de 2023 e 5,9% no segundo trimestre daquele ano. O estopim foi o calote da Americanas: o banco precisou provisionar R$ 4,9 bilhões para cobrir 100% da sua exposição à varejista, que entrou em recuperação judicial. O resultado foi um ROE (retorno sobre patrimônio líquido) que desabou de 17,5% para 3,9% em um único trimestre — muito abaixo do historicamente entregue pelo banco e muito abaixo dos pares.
E aqui está o ponto que mais importa para entender o tamanho do desconto: enquanto o Bradesco patinava, Itaú (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3) seguiam entregando ROE acima de 20%. Ainda em 2024, o ROE do Bradesco estava em 10,2% no primeiro trimestre — menos da metade do que os concorrentes diretos entregavam no mesmo período. Não era uma crise de setor, era uma crise específica de um banco, e o mercado sabia disso muito bem. A ação chegou a operar perto da mínima dos últimos anos, na faixa de R$ 12,60 a R$ 12,95, um preço que embutia ceticismo real sobre a capacidade do banco de reverter o ciclo.
Por que essa não era uma “pechincha de Graham”
Vale reforçar o argumento do artigo anterior: essa não era uma pechincha escondida no sentido clássico de Benjamin Graham. Não havia nenhuma informação privilegiada ali — a deterioração da carteira de crédito, a exposição à Americanas e o ROE deprimido estavam todos publicados em balanço trimestral, dissecados por dezenas de casas de análise. Era um risco visível, discutido à exaustão e precificado com desconto proporcional à incerteza.
A decisão de comprar não foi “encontrei algo que ninguém viu”. Foi uma leitura de que a franquia por trás do problema — base de mais de 60 milhões de clientes, capilaridade de agências, marca centenária, capacidade de gerar receita de serviços — continuava intacta, e que ciclo de crédito ruim em banco bem capitalizado tende a ser temporário, não estrutural. É exatamente a lógica de Munger: não comprar porque estava barato, comprar porque o negócio de fundo seguia bom, mesmo com o preço refletindo um momento difícil.
A recuperação, em números
A reversão veio de forma gradual, sustentada por vários trimestres seguidos de melhora — e não por um trimestre isolado de “vitória”, o que reforça que era mesmo um problema cíclico:
O lucro líquido cresceu cerca de 20% em 2024 e mais 26% em 2025, atingindo R$ 24,6 bilhões — o oitavo trimestre seguido de crescimento de lucro até o fim de 2025. A inadimplência acima de 90 dias, que havia chegado a 5,9% em 2023, fechou 2024 em 4,0% (queda de 1,2 ponto percentual) e terminou 2025 em 4,1%, praticamente estável, sinal de que o pior ciclo já havia sido digerido. O ROAE (retorno recorrente sobre patrimônio) saiu de 10,2% no início de 2024, passou por 12,7% no quarto trimestre daquele ano, e fechou 2025 em 14,8% — ainda abaixo do histórico do banco (que já superou 20% antes da pandemia), mas em trajetória consistente de recuperação.
O preço da ação acompanhou o movimento: alta acumulada de cerca de 65% nos últimos 12 meses, saindo da faixa de R$ 12-13 para a casa de R$ 15-16. E o dividendo, que havia sido pressionado pela queda de lucro, voltou a crescer: o dividend yield girou entre 6,4% e 8,6% ao longo de 2025, com estimativas de casas como a Itaú BBA apontando para até 9% em 2026, à medida que o payout acompanha a recuperação do lucro.
O que fica de lição prática
Esse caso não prova que “comprar banco em crise sempre dá certo” — seria um erro tirar essa conclusão de um único exemplo, e há bancos que entram em crise de crédito e nunca se recuperam de verdade. O que ele ilustra é o critério de decisão: a pergunta certa não foi “está barato?”, foi “o negócio por trás do problema ainda é bom, e o problema é temporário ou estrutural?”. Bradesco tinha capital, capilaridade e marca — o problema era gestão de risco de crédito em um ciclo específico, não inviabilidade do modelo de negócio. Isso é bem diferente de comprar uma ação só porque ela caiu muito.
Para quem monta carteira pensando em dividendo recorrente, o recorte prático de comparação com os pares importa: mesmo hoje, com o Bradesco em recuperação, o ROE ainda está abaixo de ITUB4 e BBAS3, o que sugere que o processo de reversão não terminou — e que o dividend yield mais alto do banco em relação aos concorrentes provavelmente ainda carrega um prêmio de risco de execução. Isso não invalida a tese, mas é o tipo de informação que deveria pesar na hora de dimensionar a posição.
Fontes: relatórios de resultado do Bradesco (4T23 a 3T25); análises de XP Investimentos, Genial Investimentos e Itaú BBA; InfoMoney, Seu Dinheiro e Investidor10.
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