Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

A fórmula de Décio Bazin aplicada à carteira do Dividendo Certo — junho de 2026

RODRIGO GOMES FLORES — 29 de junho de 2026

Décio Bazin não era fã de complicação.

No livro Faça Fortuna com Ações, ele propôs um critério direto para separar as ações que merecem entrar numa carteira de renda daquelas que não merecem: o dividend yield mínimo de 6% ao ano. Simples assim.

A partir desse critério, ele derivou uma fórmula igualmente simples para calcular o preço máximo que um investidor de renda deveria pagar por uma ação:

Preço-teto = Dividendo médio anual ÷ 0,06

Se a ação está abaixo desse preço, você está comprando renda a um custo razoável. Se está acima, você está pagando caro por um fluxo que não justifica o risco da renda variável.

Apliquei essa fórmula à carteira inteira do Dividendo Certo com os dados de 29 de junho de 2026. O resultado revela muito sobre quais ativos estão bem posicionados — e dois casos que merecem uma conversa honesta.

O núcleo sólido: cinco ações com folga real

BBSE3, TAEE11, ITSA4, ITUB4 e VALE3 passam no filtro com margem confortável. São os ativos em que o preço atual ainda está significativamente abaixo do preço-teto de Bazin — o que significa que há espaço para o preço subir sem que o investidor que compra hoje perca o critério de entrada.

A BBSE3 é o caso mais emblemático: com DY de 11,61% e preço-teto em R$ 75,83, a ação negocia a R$ 39,17 — praticamente metade do preço que Bazin consideraria o limite para compra. Isso reflete um histórico de pagamentos elevados e consistentes, com payout próximo de 90%.

A TAEE11 também se destaca: DY de 8,25%, preço-teto em R$ 54,67, cotação em R$ 39,72. Transmissora com receita regulada, contratos de longo prazo indexados à inflação, e política explícita de distribuir entre 90% e 100% do lucro líquido regulatório. É o tipo de ativo que Bazin chamaria de “máquina de renda”.

As três que passam, mas pedem atenção

ISAE4, CXSE3 e BBDC4 estão dentro do critério, mas com margem estreita. Qualquer alta de 10% a 15% já as coloca no território de “caro para renda”.

A ISAE4 merece atenção especial: o DY de 6,56% está exatamente na fronteira do critério Bazin, e existe um risco regulatório em aberto — a decisão do TRF1 sobre a RBSE pode reduzir os recebíveis futuros da empresa, o que pressionaria o dividendo. O preço-teto está em R$ 30,83 e a cotação em R$ 28,20: há margem, mas não sobra muito. É uma posição para monitorar de perto, não para ampliar sem cuidado.

A CXSE3 tem um diferencial importante: ROE de 31,89% e lucro crescendo ~19% ao ano. Isso significa que o dividendo tende a crescer — o que desloca o preço-teto para cima ao longo do tempo. Com crescimento de lucro, o denominador da fórmula de Bazin aumenta e o preço-teto sobe junto. Por isso, a margem estreita de hoje pode ser confortável daqui a dois anos.

Os dois casos fora do critério — e por que são diferentes entre si

BBAS3: o numerador encolheu. O Banco do Brasil não está fora do critério Bazin porque ficou caro. Está fora porque o dividendo caiu.

Com lucro de R$ 3,4 bilhões no 1T26 (queda de 54% ano a ano), guidance revisado para R$ 18–22 bilhões e payout reduzido para 30%, o BB deve distribuir algo em torno de R$ 1,18 por ação em 2026. Com esse dividendo médio, o preço-teto de Bazin fica em R$ 19,67 — e a cotação atual de R$ 20,34 está ligeiramente acima disso.

Não é uma distância enorme. Mas o critério não é sugestão: ou passa, ou não passa. Óbvio que não vou vender. Mas também não vou comprar.

O que chama atenção é que a queda de preço do BB já fez parte do ajuste. A ação acumula queda de mais de 11% em doze meses. Um investidor que comprou há dois ou três anos a preços mais altos já sentiu isso. Para quem ainda não tem posição, a pergunta relevante é: se o lucro do BB se recuperar em 2027 e o payout voltar para 40-45%, o preço-teto subiria para algo entre R$ 28 e R$ 32 — o que representaria um upside significativo a partir de R$ 20,34. Mas isso é aposta em recuperação, não compra de renda.

Barsi — que investe no BB há mais de 50 anos — declarou recentemente que não pretende ampliar sua posição no banco agora. Não está saindo. Mas também não está comprando. É uma postura que diz muito.

EGIE3: sete anos, uma decisão. A Engie Brasil é onde a análise de Bazin ficou pessoal.

Fiquei sete anos com a EGIE3 na carteira. É uma empresa de qualidade indiscutível — concessões de longo prazo, geração hidrelétrica estável, gestão competente. Mas dois fatos mudaram a equação ao longo de 2025 e início de 2026.

O primeiro: o DY comprimiu para 4,27%. Com os últimos doze meses somando R$ 3,61 por ação distribuídos, e a cotação em torno de R$ 84,50, o yield de entrada ficou bem abaixo do piso de Bazin. O preço-teto pela fórmula seria R$ 60,17 — a empresa negocia com 40% de ágio sobre esse valor. Não é uma distorção pequena.

O segundo: a empresa sinalizou a intenção de lançar subscrição de capital para financiar a integração da usina Jirau. Para o acionista existente, subscrição significa uma escolha desconfortável: ou você aporta mais capital para não ser diluído, ou você vê sua participação encolher. Em ambos os casos, a lógica da renda passiva — comprar, sentar, receber — fica comprometida.

Com esses dois sinais no radar, tomei a decisão de sair. Os recursos foram direcionados ao Tesouro como reserva de oportunidade.

Não foi uma decisão fácil depois de sete anos. Mas é exatamente para isso que serve o critério de Bazin: tirar a emoção da equação. Quando os números saem do filtro, a pergunta não é “mas a empresa é boa?” — a resposta quase sempre é sim. A pergunta é: “a renda que ela entrega justifica o preço que estou pagando?” No caso da EGIE3, a resposta em 2026 é não.

O que fazer com essa análise

O filtro de Bazin não é um sinal de compra automático. É um critério de preço. Uma ação abaixo do preço-teto está em zona de interesse; acima, está cara para quem pensa em renda.

Para o investidor do Dividendo Certo, o mapa de hoje é este:

BBSE3 e TAEE11: ampla margem entre o preço atual e o preço-teto de Bazin. O filtro está satisfeito com folga.

ITUB4, ITSA4 e VALE3: dentro do critério com espaço razoável. A VALE3 carrega volatilidade adicional ligada ao preço do minério.

ISAE4, CXSE3 e BBDC4: dentro do critério, mas sem margem para absorver alta de preço.

BBAS3: fora do critério pelo dividendo comprimido, não pelo preço elevado.

EGIE3: fora da carteira. O critério foi respeitado.


Os dados de cotação e DY utilizados neste artigo são de 29 de junho de 2026, com base em informações públicas disponíveis. Este artigo não constitui recomendação de compra ou venda de ativos.

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