RODRIGO GOMES FLORES — 24 de junho de 2026
O livro que mudou minha perspectiva
Quando li The House of Morgan, de Ron Chernow, não estava procurando uma tese de investimento. Estava tentando entender como a finança moderna foi construída. O que encontrei foi algo mais útil: a percepção de que o JPMorgan não é apenas um banco grande. É uma instituição que sobreviveu a pânicos financeiros, guerras mundiais, crises de liquidez, depressões e regulações radicais — e saiu de cada uma delas mais relevante do que entrou.
Chernow narra como J.P. Morgan, o homem, organizou pessoalmente o resgate do sistema bancário americano durante o Pânico de 1907. O Federal Reserve nem existia ainda. O mercado precisava de um árbitro confiável, e Morgan ocupou esse vácuo. Décadas depois, o banco que herdou seu nome fez algo semelhante em 2008: absorveu o Bear Stearns e o Washington Mutual quando estavam à beira do colapso — não por altruísmo, mas porque tinha capital e credibilidade para fazê-lo.
O negócio bancário, no fundo, é um negócio de confiança. E confiança leva décadas para ser construída — e pode desaparecer numa tarde. O JPMorgan tem mais de 150 anos de depósitos nessa conta.
Os números do 1T26: o banco entregou
Os resultados do primeiro trimestre de 2026, divulgados em 14 de abril, são um argumento em si mesmos.
Lucro líquido de US$ 16,5 bilhões no trimestre — alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. Receita gerenciada de US$ 50,5 bilhões, alta de 10%. Retorno sobre o patrimônio tangível (ROTCE) de 23%. Ativos totais: US$ 4,9 trilhões.
Para contextualizar: US$ 16,5 bilhões de lucro num único trimestre. São aproximadamente R$ 90 bilhões ao câmbio atual. O Itaú, maior banco brasileiro, lucra por volta de R$ 10 bilhões por trimestre. O JPM lucra em três meses o equivalente a quase dois anos de Itaú.
O que sustenta esses números? Diversificação real entre quatro motores independentes:
No varejo (CCB), lucro de US$ 5,0 bilhões no trimestre, ROE de 32%. São 63 milhões de clientes mobile ativos — crescendo 7% ao ano. O volume de compras em cartão de crédito e débito subiu 9% na comparação anual.
No banco de investimento e mercados (CIB), lucro de US$ 9,0 bilhões — alta de 30% ano a ano. A receita de mercados alcançou US$ 11,6 bilhões, um recorde histórico, com crescimento de 20% no período. O JPM mantém a liderança global em investment banking, com 9,8% de participação nas taxas globais do setor.
Na gestão de ativos (AWM), o banco administra US$ 4,8 trilhões em AUM (Assets Under Management) — alta de 16% no ano — e US$ 7,1 trilhões em ativos totais de clientes. É um negócio de receitas recorrentes e previsíveis, quase imune ao ciclo de crédito.
A cobertura de liquidez (LCR) está em 112%. O capital CET1 é de US$ 291 bilhões, com ratio de 14,3%. CET1 significa Common Equity Tier 1 — é a medida mais rigorosa de solidez financeira de um banco. Em linguagem simples: é o capital “de verdade” do banco, formado basicamente pelo dinheiro dos acionistas e pelos lucros acumulados, sem contar dívidas ou instrumentos híbridos. O ratio de 14,3% significa que para cada R$ 100 em ativos ponderados pelo risco, o JPM tem R$ 14,30 de capital próprio sólido como colchão. Os reguladores exigem algo em torno de 10-11% para os grandes bancos globais — o JPM está bem acima disso.
Em caixa e títulos líquidos, o banco carrega US$ 1,5 trilhão. É o que Jamie Dimon chama de “Fortress Balance Sheet” — o balanço-fortaleza.
A tese em dividendos: o que o 1T26 confirma
No trimestre, o JPM distribuiu US$ 1,50 por ação em dividendos — US$ 4,1 bilhões no total. Somando as recompras de ações (US$ 8,1 bilhões), o payout total nos últimos doze meses chegou a 82% dos lucros distribuídos aos acionistas.
Quem investe em JPM por dividendos não está mirando em yield de dois dígitos. O dividend yield gira em torno de 2% ao ano em dólares — modesto na superfície. Mas dois elementos mudam o cálculo para o investidor brasileiro:
Primeiro, o crescimento consistente do dividendo. O banco aumentou seus proventos ininterruptamente desde 2013, passando por pandemia e crises sem cortar. O valor por ação cresce a uma taxa que supera a inflação americana.
Segundo, o efeito câmbio. Um dividendo em dólares que cresce ao longo do tempo entrega duas fontes de retorno simultaneamente: o aumento nominal do provento e a desvalorização estrutural do BRL frente ao USD. Para um investidor brasileiro que quer proteger parte do patrimônio sem fazer hedge explícito, isso é um ativo estratégico.
O guidance do próprio banco para o ano completo de 2026 projeta receita de juros líquida de ~US$ 103 bilhões — o que sinaliza confiança interna na continuidade dos resultados.
Os riscos que acompanho de perto
Nenhuma tese honesta ignora os riscos. No caso do JPM, há três que monitoro de perto.
Inadimplência no cartão de crédito. A taxa de charge-off no Card Services foi de 3,47% no 1T26 — ligeiramente acima do trimestre anterior (3,14%), mas dentro da faixa esperada. O próprio banco projeta uma taxa anual de ~3,4% para 2026. É o número que mais acompanho nos earnings calls: quando começa a subir consistentemente, é sinal de estresse no consumidor americano.
Regulação de capital. Dimon deixou claro que “ainda há aspectos das propostas que precisam ser endereçados”. Se as exigências de capital subirem mais do que o esperado, a capacidade de crescimento dos dividendos e recompras pode ser temporariamente limitada.
Transição de liderança. Difícil separar a excelência operacional do JPM da figura de Jamie Dimon, CEO há quase 20 anos. Quando a transição vier — e virá — será o maior evento de risco idiossincrático do ativo. O próprio Dimon, no earnings call de abril, soou equilibrado sobre o ambiente macro: reconheceu os ventos favoráveis (estímulos fiscais, desregulação, investimento em IA), mas também alertou para riscos geopolíticos, déficits fiscais globais e preços de ativos elevados. É a postura conservadora que espero de quem gere um banco-fortaleza.
Por que mantenho a posição
Quando penso em quais ativos quero ter numa carteira que vai me pagar por décadas, a pergunta-chave não é “qual está mais barato agora?” — é “qual eu conseguiria segurar durante a próxima crise sem dormir mal?”
O JPM passou por 1907, pela Grande Depressão, por 1987, por 2001, por 2008 e por 2020. Em cada uma dessas crises, saiu mais forte. Não por sorte — por gestão de capital conservadora, diversificação real e uma reputação que o mercado precifica diferente de qualquer outro banco.
The House of Morgan me deu o contexto histórico. O balanço do 1T26 me deu a convicção atual. E o dividendo de US$ 1,50 por ação — pago todo trimestre, de forma crescente — me dá a paciência para manter.
Fonte: JPMorgan Chase & Co. — First Quarter 2026 Earnings Release, 14 de abril de 2026.
Leave a Reply