Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

O investidor individual que estuda bate o fundo de ações. Sempre.

RODRIGO GOMES FLORES — 22 de junho de 2026

Existe uma crença muito bem distribuída no mercado financeiro brasileiro — e é do interesse de muita gente que você continue acreditando nela.

A crença é esta: investir diretamente em ações é coisa de especialista. Para o investidor comum, o caminho certo é delegar para um gestor profissional, com equipe, com acesso a informação, com modelos sofisticados de avaliação. Pague a taxa de administração e durma tranquilo.

Há décadas de evidência empírica contradizendo essa ideia. E há um argumento estrutural — que raramente aparece nas conversas sobre fundos — que explica por que o investidor individual disciplinado tem uma vantagem real sobre o gestor profissional.

Não é sobre ser mais inteligente. É sobre não ter as mãos amarradas.

O problema que o gestor não pode resolver

Imagine um fundo de ações no Brasil em março de 2020. O mercado despenca. O Ibovespa cai 45% em semanas. Os cotistas entram em pânico e pedem resgate em massa.

O gestor sabe — porque é profissional e leu os mesmos livros que você vai ler — que aquele é o momento de comprar, não de vender. Que os ativos estão precificados para o apocalipse, que as empresas boas vão sobreviver, que quem comprar naquele momento vai colher retornos extraordinários nos anos seguintes.

Mas ele não pode fazer isso.

Porque os cotistas estão sacando. E para honrar os resgates, o fundo precisa vender ativos — exatamente quando os ativos estão mais baratos. O gestor é obrigado a vender na pior hora possível não porque tomou uma decisão ruim, mas porque a estrutura do fundo o obriga.

O inverso acontece quando o mercado sobe. Os cotistas querem entrar. O dinheiro novo precisa ser alocado. O gestor compra ações em alta — não porque acredita que é o momento certo, mas porque tem capital novo para alocar e não pode ficar parado em caixa por muito tempo sem explicar aos cotistas por que o fundo está “perdendo” para o benchmark.

Esse é o problema estrutural dos fundos de ações que nenhuma taxa de administração resolve. O gestor é refém do comportamento dos cotistas. E o comportamento dos cotistas — comprar na euforia, vender no pânico — é exatamente o oposto do que a teoria e a prática do bom investimento recomendam.

A vantagem que o investidor individual tem e não percebe

Quando você investe diretamente em ações, não existe resgate. Não existe cotista sacando ao seu lado. Não existe pressão de benchmark mensal para justificar ao conselho de administração.

Você pode fazer o que o gestor sabe que deveria fazer mas não consegue: ficar parado quando o mercado sobe sem motivo, e comprar mais quando o mercado cai sem motivo.

Luís Barsi Filho construiu um dos maiores patrimônios individuais em ações do Brasil fazendo exatamente isso. Comprou ações de empresas que ninguém queria, em momentos em que ninguém queria, e ficou dentro delas por décadas. Não tinha cotistas para prestar contas. Não tinha benchmark para bater no mês seguinte. Tinha uma tese, tinha paciência, e não tinha ninguém com poder de sacar antes dele.

Warren Buffett diz algo parecido de uma forma diferente: o mercado de ações é o único lugar onde as pessoas fogem quando tem liquidação. O investidor individual que entende isso — e que consegue agir de acordo com esse entendimento — tem uma vantagem estrutural que nenhum fundo consegue replicar.

Charlie Munger resumiu a ideia com a clareza que só ele conseguia: “Inverta. Sempre inverta.” Se todo mundo está comprando, pergunte se é hora de vender. Se todo mundo está vendendo, pergunte se é hora de comprar. O investidor individual pode fazer isso. O gestor de fundo, na prática, não pode.

O custo do conhecimento versus o custo da ignorância

Aqui entra o único argumento real a favor dos fundos: o investidor que não estuda, que não acompanha as empresas, que compra e vende por impulso ou por dica, provavelmente vai ter um desempenho pior do que um fundo mediano.

Esse argumento é verdadeiro. E é exatamente por isso que ele não se aplica a você, que está lendo isso.

O que significa estudar para o investidor de dividendos? Não é passar oito horas por dia na frente de uma tela. É ler o release de resultado trimestral das empresas que você tem na carteira — geralmente quinze a vinte páginas, quatro vezes por ano. É ouvir a teleconferência com analistas depois da divulgação, onde o CEO e o CFO explicam o que aconteceu e o que esperam para os próximos trimestres. É ler dois ou três livros por ano de investidores que já percorreram o caminho.

Décio Bazin, Warren Buffett, Charlie Munger, Luís Barsi Filho — a biblioteca inteira que você precisa cabe numa prateleira pequena. E o tempo necessário para ler um release trimestral de uma empresa que você conhece bem é de menos de uma hora.

O custo desse conhecimento é medido em horas. O custo da ignorância é medido em taxa de administração paga ao longo de décadas, mais o retorno perdido por comprar na alta e vender na baixa junto com os outros cotistas.

Faça a conta.

O que você passa a controlar quando estuda

Quando você entende o negócio de cada empresa que tem na carteira — de onde vem o lucro, o que ameaça esse lucro, qual é o histórico de distribuição de dividendos — você passa a ter algo que não tem preço: convicção fundamentada.

Convicção fundamentada é o que permite que você faça o oposto do que o mercado faz.

Quando o BBAS3 cai 8% num dia depois de um resultado ruim, o investidor que não estudou vende no susto. O investidor que leu o release e ouviu a teleconferência sabe avaliar se o resultado mudou a tese ou se é ruído de curto prazo. Pode comprar mais se concluir que o mercado exagerou. Pode sair se concluir que algo fundamental mudou.

Essa capacidade de avaliação independente é o que separa o investidor do especulador. E ela não vem de talento — vem de estudo.

O modelo que funciona

Comprar ações de empresas que atuam em setores perenes. Empresas que existem há décadas e vão continuar existindo porque resolvem problemas que não desaparecem — energia elétrica, serviços bancários, seguros, commodities essenciais. Empresas que geram lucro de forma consistente e distribuem uma fração desse lucro aos acionistas com regularidade.

Acumular essas posições ao longo do tempo. Comprar mais quando o preço cai e a tese não mudou. Não vender quando o mercado entra em pânico se o negócio subjacente continua sólido.

Não é uma fórmula sofisticada. É o que Barsi fez no Brasil. É o que Buffett fez nos Estados Unidos. É o que Bazin sistematizou com o critério dos 6% de dividend yield.

A sofisticação está na simplicidade. E na disciplina de não abandonar o plano quando o mercado — e os fundos de ações junto com ele — entram em colapso coletivo.

Uma última observação

Isso não significa que todo fundo de ações é ruim. Existem gestores excepcionais que superam consistentemente o mercado. Mas eles são raros, as vagas nos melhores fundos são limitadas, e identificá-los com antecedência é difícil.

O que é acessível para qualquer investidor — independentemente do patrimônio, da formação ou da disponibilidade de tempo — é estudar as empresas que pretende ter na carteira e tomar as próprias decisões.

Você vai errar em algum momento. Todo investidor erra. Mas quando erra por conta própria, aprende. Quando erra porque delegou para alguém que vendeu seus ativos na pior hora do mercado porque os outros cotistas pediram resgate — não aprende nada. Só perde.

Seja o responsável pelo seu próprio destino financeiro.

Vale o esforço.

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Dividendo Certo é uma newsletter sobre renda passiva com dividendos, pela ótica do value investing — Bazin, Barsi, Buffett, Munger, Lynch e Howard Marks aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

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