RODRIGO GOMES FLORES — 19 de junho de 2026
Tem um padrão que se repete toda vez.
A bolsa sobe por alguns meses seguidos. As notícias ficam otimistas. Alguém no trabalho comenta que colocou dinheiro em ações e está ganhando bem. O cunhado aparece no churrasco de domingo falando que um amigo ficou rico em seis meses. O assunto começa a aparecer em programas de televisão que normalmente não falam de investimentos.
E é exatamente nesse momento — quando parece que é hora de entrar, quando todo mundo parece estar ganhando, quando a sensação é de que quem ainda não está na bolsa está perdendo o bonde — que o investidor experiente começa a ficar mais cauteloso.
Não por pessimismo. Por entender como os ciclos funcionam.
Howard Marks e o termômetro que ninguém usa
Howard Marks é o fundador da Oaktree Capital, uma das maiores gestoras de crédito do mundo. Em Dominando os Ciclos do Mercado, ele desenvolve uma tese simples na teoria e difícil na prática: os mercados financeiros se movem em ciclos, e a posição do investidor dentro desse ciclo determina muito mais o resultado final do que a escolha de qualquer ativo específico.
O argumento central de Marks não é que os ciclos são previsíveis — ele é enfático em dizer que não são. Ninguém sabe com precisão quando o mercado vai virar. O que ele defende é diferente: é possível identificar onde estamos no ciclo, mesmo sem saber quando ele vai mudar de direção. E essa identificação muda a postura que faz sentido adotar.
O termômetro que Marks usa não é técnico. Não é o P/L do Ibovespa nem o nível da taxa de juros. É comportamental. A pergunta que ele faz é: como as pessoas ao redor estão se sentindo em relação ao mercado?
Quando o otimismo é universal, quando a narrativa dominante é de que os preços só podem subir, quando o risco parece ter desaparecido — é aí que o risco real costuma estar no seu ponto mais alto. Não porque o mercado vai cair amanhã, mas porque os preços já incorporaram o melhor cenário possível, e qualquer decepção tem muito espaço para provocar queda.
O inverso também é verdadeiro. Quando o pessimismo domina, quando ninguém quer ouvir falar em bolsa, quando as histórias que circulam são de perdas e não de ganhos — é nesse momento que os ativos costumam estar precificados para decepcionar, e qualquer melhora tem espaço para surpreender positivamente.
Por que o “momento perfeito” é uma armadilha
O problema do investidor que espera o momento perfeito para entrar na bolsa é que ele usa os sinais errados para identificar esse momento.
O momento perfeito, na cabeça da maioria das pessoas, é quando a bolsa está subindo e a perspectiva é boa. Quando há clareza sobre o futuro. Quando os riscos parecem controlados.
Mas esse momento — exatamente esse — é o pior ponto de entrada possível. Os preços já subiram. O otimismo já está refletido nas cotações. O investidor que entra aqui está comprando no final de um ciclo positivo, não no início.
Marks descreve isso com uma imagem que ficou comigo: o pêndulo. Os mercados oscilam entre dois extremos — euforia e depressão — sem nunca ficar parados no meio. Quando o pêndulo está próximo de um extremo, a força que o puxa de volta já está acumulada. O investidor que entra quando o pêndulo está no extremo do otimismo está entrando no pior momento estrutural possível — mesmo que o movimento de reversão demore meses ou anos para acontecer.
A questão prática é que esse é também o momento em que mais pessoas querem entrar. Porque é quando o ambiente parece mais seguro. Quando as histórias de sucesso são mais visíveis. Quando a sensação é de que não entrar é o verdadeiro risco.
Essa é a armadilha. O mercado convida o investidor no pior momento possível, com o argumento mais convincente possível.
As histórias do cunhado
Há um sinal específico que aprendi a observar com atenção ao longo dos anos: as histórias de enriquecimento rápido que começam a circular nas conversas do dia a dia.
Não no meio de investidores. No churrasco de domingo. Na sala de espera do médico. Na conversa de corredor no trabalho.
Quando essas histórias aparecem — o amigo que dobrou o patrimônio em oito meses, o primo que saiu de ações justo antes da queda e entrou de novo na hora certa — é porque o ciclo já está em estágio avançado. As histórias circulam porque o mercado subiu o suficiente para criar ganhadores visíveis. E ganhadores visíveis atraem novos entrantes, que empurram os preços ainda mais para cima, que criam mais ganhadores visíveis, que atraem mais entrantes.
É um ciclo de retroalimentação. E ele termina quando os novos entrantes se esgotam ou quando algum evento externo quebra a narrativa.
Marks chama de capital tolo o dinheiro que entra no mercado nesse estágio. Não porque os investidores sejam tolos — mas porque estão chegando tarde, quando o risco já é alto e o retorno potencial já é baixo, movidos pela euforia coletiva e não por análise.
O capital inteligente, na visão de Marks, entra quando ninguém quer ouvir falar de bolsa. Quando o assunto some das conversas. Quando as histórias que circulam são de perdas, não de ganhos. É nesse ambiente — desconfortável, contra-intuitivo, sem validação social — que os melhores pontos de entrada costumam aparecer.
O que isso muda na prática
Marks não defende market timing. Ele não está dizendo para ficar fora do mercado esperando o fundo perfeito. Ele está dizendo algo mais sutil: ajuste sua postura de acordo com onde o ciclo parece estar.
Na prática, para um investidor de dividendos como eu, isso se traduz em algumas regras simples.
Quando o ambiente está eufórico — quando todo mundo está falando bem da bolsa, quando a mídia está cheia de histórias de sucesso, quando os preços subiram muito — o momento pede cautela. Não necessariamente venda. Mas compras menores, exigência maior de margem de segurança, menos urgência. O preço que eu pago hoje vai determinar o dividend yield que recebo amanhã. Comprar caro em euforia significa dividend yield baixo para o resto do tempo em que carregar aquela posição.
Quando o ambiente está pessimista — quando a bolsa caiu, quando ninguém quer ouvir falar em ações, quando a narrativa dominante é de crise — é quando faço o movimento oposto. Compro mais, aceito volatilidade de curto prazo, e sei que o dividend yield que estou travando hoje vai parecer excelente daqui a alguns anos.
Não é heroísmo. É só aplicar o que Marks explica com clareza: o retorno futuro é determinado principalmente pelo preço pago hoje. E o preço pago hoje é determinado pelo humor coletivo do mercado.
A vantagem do investidor de longo prazo
Existe uma vantagem que o investidor de dividendos tem nessa dinâmica e que raramente é mencionada: o fluxo de caixa.
Quem compra ações para especular precisa estar certo sobre o preço. Comprou caro, precisa que o preço suba ainda mais para ter lucro. A psicologia do ciclo trabalha contra ele — porque quanto mais o preço cai depois de uma compra cara, mais difícil é manter a posição.
Quem compra ações para receber dividendos tem uma relação diferente com o preço. Se o papel cai após a compra, o dividend yield sobre o custo de aquisição não muda. Os dividendos continuam chegando. A empresa continua operando. O fluxo de caixa não depende de o mercado concordar com a avaliação do investidor.
Isso não elimina o impacto do ciclo — comprar em euforia ainda é pior do que comprar em pessimismo. Mas torna a posição mais suportável nos momentos de queda, porque há um fluxo de caixa real que justifica a permanência.
Marks escreve que o investidor que consegue agir de forma diferente da maioria — comprando quando o ambiente convida à venda, vendendo quando o ambiente convida à compra — tem uma vantagem estrutural enorme. Não porque seja mais inteligente. Mas porque está trabalhando com os ciclos em vez de contra eles.
A dificuldade não é intelectual. É emocional. É resistir ao ambiente quando o ambiente é mais convincente do que qualquer análise.
Uma última observação
Quando começo a ouvir histórias de enriquecimento rápido em conversas que normalmente não tratam de investimento, anoto mentalmente: o ciclo está avançado.
Não vendo tudo imediatamente. Não entro em pânico. Mas fico mais lento para comprar, mais exigente com o preço que aceito pagar, e mais atento aos fundamentos dos negócios que já tenho.
E quando o silêncio volta — quando a bolsa some das conversas, quando as histórias param de circular, quando o cunhado para de falar sobre ações — é quando começo a ficar mais agressivo nas compras.
Não é uma fórmula. É uma postura. E é o que separa o investidor que trabalha com o ciclo do investidor que o ciclo trabalha.
Referência: Howard Marks, “Dominando os Ciclos do Mercado: Como ganhar vantagem adivinhando o que vem a seguir” (Mastering the Market Cycle, 2018).
As informações contidas neste artigo têm caráter exclusivamente educacional e informativo. Não constituem recomendação de compra ou venda de qualquer ativo.
Leave a Reply