RODRIGO GOMES FLORES — 8 de junho de 2026
A pergunta que todo investidor pessoa física no Brasil faz em algum momento da vida é esta: meu dinheiro está perdendo para a inflação?
É uma pergunta legítima. O Brasil tem memória viva de inflação destruindo patrimônio — não décadas atrás, mas na vida de muita gente ainda ativa. E mesmo hoje, com o IPCA em dois dígitos em ciclos recentes e a Selic oscilando entre 10% e 14%, a dúvida persiste: vale a pena assumir o risco da bolsa se o CDI já rende bem?
Philip Fisher respondeu essa pergunta com precisão cirúrgica em 1958, no livro Ações Comuns, Lucros Extraordinários — e a resposta dele, confrontada com dados reais de uma carteira de dividendos brasileira de quase sete anos, continua sendo a mais honesta disponível.
O que Fisher disse sobre inflação e ações
Fisher foi o grande defensor do investimento de longo prazo em empresas excepcionais — e um dos primeiros a formalizar o argumento de que ações de qualidade são o melhor hedge contra inflação existente.
O raciocínio dele não é óbvio à primeira vista. Vai além de “ações sobem no longo prazo”. A lógica é estrutural: uma empresa com poder de precificação — aquela que consegue repassar custos aos clientes sem perder volume — cresce seus lucros em termos nominais conforme a inflação sobe. O preço do produto sobe. A receita sobe. O lucro sobe. E o dividendo, consequentemente, sobe junto.
Já o investidor de renda fixa fica preso ao juro contratado. Se a inflação surpreende para cima, o retorno real do título cai. O bond holder, como Fisher chamava o investidor de renda fixa, tem uma proteção ilusória: recebe o nominal, perde o real.
Fisher escreveu — e vale citar com precisão: “Os títulos de renda fixa oferecem proteção contra deflação, não contra inflação. Para se proteger da inflação de longo prazo, o único instrumento comprovado são as ações de empresas com negócios excepcionais.”
Ele não estava falando de qualquer ação. Estava falando das que ele chamava de outstanding companies — empresas com crescimento consistente de lucros, margens resilientes, gestão de qualidade e posição competitiva durável. As mesmas que, não por coincidência, tendem a pagar dividendos crescentes.
Por que o dividendo crescente é a prova mais concreta do hedge
Existe uma diferença fundamental entre uma empresa que paga dividendo alto hoje e uma empresa que paga dividendo crescente ao longo dos anos.
A primeira pode estar distribuindo mais do que ganha — payout insustentável, erosão de caixa, armadilha de yield. A segunda está entregando uma fatia crescente de um lucro crescente. É essa segunda categoria que Fisher admirava e que protege contra inflação de verdade.
Pense assim: se você comprou uma ação há cinco anos com um dividend yield de 6% sobre o preço de compra, e a empresa cresceu seus dividendos desde então, o seu yield sobre o custo (yield on cost) hoje é maior do que 6% — mesmo que o preço da ação tenha subido e o yield calculado sobre o preço atual seja menor. Você está recebendo mais reais por ação do que recebia antes. A inflação corroeu o poder de compra do real, mas sua renda em reais cresceu acima dela.
É exatamente o mecanismo que Fisher descreveu. O dividendo crescente é o termômetro do hedge.
Os números: o que uma carteira real de dividendos entregou
Teoria é necessária. Mas o investidor quer prova.
O desempenho consolidado de uma carteira real de ações, comparada ao Ibovespa e ao CDI, desde outubro de 2019 até maio de 2026 — quase sete anos — atravessou uma sequência de choques difícil de exagerar: a pandemia de Covid-19 e o colapso de março de 2020 (Ibovespa caindo ~45% em semanas); a crise das cadeias de suprimento globais em 2021, gerando a maior onda inflacionária mundial em 40 anos; a guerra da Ucrânia em 2022, disparando preços de commodities; o ciclo de alta de juros mais agressivo do Fed em 40 anos; eleições presidenciais polarizadas no Brasil; o escândalo Americanas em 2023, congelando o crédito corporativo brasileiro; a crise bancária americana (SVB, Signature) e do Credit Suisse; a Selic em 13,75%; o conflito Israel-Hamas e o ataque direto do Irã a Israel em 2024; a crise fiscal brasileira com o dólar acima de R$ 6,00; o retorno de Trump à Casa Branca; e, em 2025, a guerra tarifária global e os temores recorrentes de recessão nos EUA.
Cada um desses eventos, isolado, teria sido justificativa razoável para o investidor entrar em pânico e sair da bolsa. Juntos, formam o argumento mais poderoso possível para quem ainda acredita que “agora não é hora de investir em ações”.
Resultado no período: carteira de ações +123,30%, CDI +85,03%, Ibovespa +66,00%.
A carteira entregou 38 pontos percentuais acima do CDI e 57 pontos acima do Ibovespa no mesmo período.
Para contextualizar: a inflação acumulada no Brasil entre outubro de 2019 e maio de 2026, medida pelo IPCA, ficou em torno de 55-60%. Isso significa que a carteira não só bateu a inflação — ela bateu o CDI, que já embute a tentativa de acompanhar a inflação via Selic.
Quem estava no CDI achando que estava protegido entregou retorno real positivo, sim. Mas deixou na mesa quase 40 pontos percentuais de rentabilidade adicional que a carteira de ações gerou no mesmo intervalo de tempo, com o mesmo capital.
O que aconteceu em 2023 é a lição mais importante
2023 foi o ano em que o Tesouro Direto virou moda. Com a Selic a 13,75%, o argumento era irresistível: “por que se arriscar na bolsa se o CDI rende isso?”
Fisher teria sorrido. Ele viu esse fenômeno repetir nos EUA em diferentes décadas e sempre chegou à mesma conclusão: a aparente segurança da renda fixa em momentos de juro alto é exatamente a armadilha que impede o investidor de construir riqueza real.
O problema não é o rendimento nominal. É que o capital que foi para o Tesouro em 2023 perdeu o crescimento da carteira de ações naquele mesmo período. E juros caem — sempre caem. Quando caem, o Tesouro rende menos. As empresas que estavam crescendo enquanto todo mundo olhava para o CDI continuam crescendo.
Quem saiu da carteira de dividendos para o CDI em 2023 perdeu o pico de valorização que veio a partir daquele ano.
A condição que Fisher sempre impôs
Fisher era preciso em um ponto que muitos ignoram: a proteção contra inflação vale apenas para empresas excepcionais.
Uma empresa sem poder de precificação, com margens comprimidas, endividada ou operando em setor em declínio não protege contra inflação — ela é destruída por ela. Os custos sobem, a receita não acompanha, o lucro some e o dividendo some junto.
Por isso a seleção de ativos não é detalhe secundário — é a condição necessária para que a tese funcione. Fisher desenvolveu os seus famosos 15 pontos justamente para identificar quais empresas têm as características que permitem não só sobreviver à inflação, mas prosperar dentro dela.
No contexto brasileiro, o filtro equivale a perguntar: essa empresa consegue repassar inflação para o cliente? O lucro cresceu nos últimos 5 anos, inclusive nos anos ruins? O dividendo foi mantido ou crescido mesmo em crises? Se a resposta for sim nas três perguntas, você está no território que Fisher descrevia.
O veredicto
Ações protegem o investidor da inflação?
A resposta de Philip Fisher, fundamentada em décadas de análise de empresas excepcionais, é sim — com uma condição: as ações certas, mantidas pelo tempo certo.
Os números de uma carteira real confirmam. Em quase sete anos que incluíram todos os choques imagináveis, a carteira de dividendos entregou 123% contra 85% do CDI. A inflação foi batida. O Ibovespa foi batido. E o investidor que ficou quieto enquanto o mercado oscilava saiu na frente.
Renda fixa tem o seu papel. Liquidez, reserva de emergência, proteção de curto prazo. Mas como instrumento de preservação e crescimento de patrimônio no longo prazo, Fisher foi claro em 1958 e os dados confirmam em 2026: não existe hedge contra inflação mais poderoso do que ser sócio de empresas excepcionais que pagam dividendos crescentes.
Este artigo é de caráter educacional e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos. Os dados de desempenho da carteira referem-se ao período de outubro de 2019 a maio de 2026.
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