Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

A carteira completa do Dividendo Certo — 16 ativos, cada um com tese e yield projetado

RODRIGO GOMES FLORES — 28 de maio de 2026

O post que eu gostaria de ter encontrado quando comecei a investir em dividendos

Quando comecei a montar uma carteira de renda passiva, o que mais me faltava era transparência. Os influenciadores mostravam os resultados, mas não mostravam o raciocínio. Os analistas publicavam relatórios, mas cobravam caro ou escondiam por trás de paywall.

Este post é diferente. Aqui está a carteira completa do Dividendo Certo — todos os 16 ativos, com a tese de investimento de cada um e o dividend yield projetado para 2026. Sem mistério, sem omissão, sem promessa de enriquecimento fácil.

Antes de entrar nos ativos, dois avisos importantes: primeiro, esta carteira foi construída para o meu perfil específico — horizonte de longo prazo, tolerância moderada a risco, foco em renda passiva crescente, não em yield máximo imediato. Ela pode não ser adequada para você. O objetivo deste post é mostrar o raciocínio, não vender uma receita pronta. Segundo, você vai notar que três ativos internacionais da carteira (Google, Amazon e Berkshire) não pagam dividendos relevantes. Eles estão aqui por um motivo específico, explicado na seção deles.

🇧🇷 Ativos Brasileiros

BBAS3 — Banco do Brasil. O Banco do Brasil é o maior banco público do país, com uma base de clientes cativos no funcionalismo público e no agronegócio que nenhum banco privado consegue replicar. O payout mínimo garantido de 30% do lucro líquido é fixo por política — o que significa que o dividendo existe mesmo em anos difíceis. O 1T26 trouxe uma revisão para baixo do guidance de lucro (de R$ 22–26 bilhões para R$ 18–22 bilhões), motivada por provisões no crédito rural, mas a política de distribuição seguiu firme. Em junho de 2026, o banco pagou R$ 465,7 milhões em JCP. O que monitorar: a inadimplência no segmento rural e o ritmo de queda dos juros, que afeta diretamente a margem do banco. DY projetado 2026: ~5% (considerando guidance revisado e payout de 30%).

ITUB4 — Itaú Unibanco. O Itaú é o banco privado mais lucrativo da América Latina. Enquanto o BB enfrenta turbulência no crédito rural, o Itaú está no caminho oposto: lucro crescendo, ROE na casa de 21–22%, e distribuição acima do mínimo obrigatório com dividendos extraordinários recorrentes. A escala e a eficiência operacional do banco criam um fosso competitivo que é difícil de quebrar. Para um investidor de dividendos, ITUB4 é a âncora do setor financeiro — não pela surpresa, mas pela consistência. O que monitorar: qualidade da carteira de crédito e o impacto do ciclo de juros no spread bancário. DY projetado 2026: ~7%.

BBDC4 — Bradesco. O Bradesco é o ativo mais controverso desta carteira. O banco passou por uma troca de comando e está em processo de reestruturação após um período de margens comprimidas e provisões elevadas. A tese aqui não é “o Bradesco está ótimo” — é “o Bradesco está barato para o que ele pode voltar a ser”. Com mais de 70 milhões de clientes e uma rede de distribuição que rivaliza com o Itaú, o banco tem os ativos para se recuperar. O dividend yield histórico perto de 8% reflete o potencial quando a operação voltar ao trilho. O que monitorar: evolução do ROE trimestre a trimestre. DY projetado 2026: ~6–7% (com recuperação parcial em curso).

BBSE3 — BB Seguridade. BB Seguridade é uma holding de seguros e previdência do Banco do Brasil que não assume risco de crédito, não tem agência para manter, não tem folha de pagamento pesada. Ela simplesmente distribui os produtos das parceiras (Brasilseg, Brasilprev, Brasildental) pela capilaridade gigantesca do BB. É um modelo de negócio quase perfeito para dividendos: alta geração de caixa, baixo reinvestimento necessário, payout elevado. O risco principal é o vínculo com o BB. DY projetado 2026: ~9–10%.

CXSE3 — Caixa Seguridade. A Caixa Seguridade é o espelho da BB Seguridade, mas com um diferencial relevante: a Caixa Federal tem 150 milhões de clientes, e boa parte deles ainda não tem nenhum produto de seguro. Cada novo contrato assinado se empilha sobre a base existente e gera receita recorrente sem custo adicional de distribuição. O 1T26 confirmou a tese: lucro +13,2%, ROE de 65,9%, R$ 1,05 bilhão distribuído em dividendos no trimestre. O catalisador ainda não precificado é o Super App da Caixa, com lançamento previsto para junho/julho de 2026. DY projetado 2026: ~6–7%.

ITSA4 — Itaúsa. A Itaúsa é uma holding com participação majoritária no Itaú Unibanco, mas também com posições relevantes em Copagaz, Aegea Saneamento e outras empresas. A lógica de ter ITSA4 em vez de ITUB4 diretamente é o desconto histórico da holding em relação ao valor de mercado das participadas. O 1T26 mostrou lucro de R$ 4,5 bilhões. O que monitorar: variação do desconto de holding e o desempenho da Aegea. DY projetado 2026: ~7–8%.

ISAE4 — ISA Energia Brasil. A ISA Energia é uma transmissora de energia elétrica com receita garantida por contrato de concessão — o que significa que ela recebe independentemente de quanto de energia efetivamente flui pela linha. Essa previsibilidade permite pagar dividendos mensais com regularidade impressionante. O que monitorar: renovação das concessões e variação da inflação. DY projetado 2026: ~6–7%.

EGIE3 — Engie Brasil. A Engie Brasil é a maior geradora de energia elétrica privada do país, com portfólio diversificado entre hidrelétricas, eólicas e solares. A empresa é famosa pela consistência histórica: distribuiu R$ 657 milhões em maio de 2026 (R$ 0,576 por ação). O que monitorar: hidrologia e o custo de novos projetos de expansão. DY projetado 2026: ~5–6%.

TAEE11 — Taesa. A Taesa é uma holding de transmissão de energia elétrica com mais de 11 mil quilômetros de linhas sob concessão. Como toda transmissora, a receita é garantida por contrato e não depende do consumo de energia. O payout historicamente acima de 90% do lucro torna os dividendos muito previsíveis. O que monitorar: IPCA e o calendário de vencimento das concessões mais antigas. DY projetado 2026: ~6–7%.

VALE3 — Vale. A Vale é o ativo mais volátil desta carteira e o único explicitamente dependente de commodities. A tese não é “o minério de ferro vai subir para sempre” — é “a Vale tem estrutura de capital e eficiência operacional para pagar dividendos relevantes mesmo com preço do minério moderado”. Com preço do minério entre US$ 95 e US$ 105/tonelada, analistas estimam dividendos mínimos de US$ 4,1 bilhões em 2026, representando yield de 7,5%. O risco é real: queda de commodity, demanda mais fraca da China, ou imprevisto operacional. DY projetado 2026: ~7,5–9%.

🌎 Ativos Internacionais

Uma nota sobre a lógica da carteira internacional: nem todos os ativos abaixo pagam dividendos relevantes. Eles estão aqui como proteção cambial e diversificação estrutural — são o seguro da carteira contra um cenário de deterioração severa do Brasil. Quando o real cai 30%, esses ativos valem 30% a mais em reais. Isso não é bônus — é o propósito deles.

JPM — JPMorgan Chase. O maior banco americano e uma das instituições financeiras mais bem geridas do mundo. Sob Jamie Dimon, o banco atravessou 2008, 2020 e todas as crises intermediárias com balanço sólido e dividendo crescente. DY projetado 2026: ~2,1% em USD (dividendo anual de US$ 6,00 por ação).

LYG — Lloyds Banking Group. O maior banco de varejo do Reino Unido, com foco quase exclusivo no mercado doméstico britânico. Além do dividendo ordinário, o banco aprovou um programa de recompra de ações de £1,75 bilhão. DY projetado 2026: ~3–5% em GBP.

BRK.B — Berkshire Hathaway. A Berkshire não paga dividendos — e está aqui exatamente por isso. A lógica de Buffett é que o dinheiro que seria distribuído como dividendo é melhor alocado quando reinvestido em negócios ou em recompra de ações. Funciona como reserva de valor em dólar. DY projetado 2026: 0% (o retorno é via valorização).

GOOGL — Alphabet (Google). O Google iniciou pagamento de dividendos em 2024 — ainda com yield irrisório de 0,22% —, mas a razão de ter GOOGL na carteira não é a renda atual. É o posicionamento em inteligência artificial. DY projetado 2026: ~0,22% em USD (posição de crescimento, não de renda).

AMZN — Amazon. Amazon não paga dividendos e provavelmente não vai pagar nos próximos anos. Está na carteira porque o AWS é a espinha dorsal da infraestrutura digital global. DY projetado 2026: 0% (posição de crescimento).

AEP — American Electric Power. Uma das maiores distribuidoras de energia elétrica dos Estados Unidos, com operações em 11 estados. Yield acima de 3% em dólar com histórico de crescimento do dividendo por mais de 15 anos consecutivos. O dividendo trimestral de US$ 0,95 por ação (anual de US$ 3,80) foi confirmado em abril de 2026. DY projetado 2026: ~3% em USD.

Uma palavra sobre o que não está nesta carteira

Não tenho FIIs. Não tenho Petrobras. Não tenho empresas de celulose, siderurgia ou frigoríficos. Não porque sejam ruins — mas porque cada ativo que entra precisa ter um papel claro e uma tese que eu consiga defender. Prefiro uma carteira menor e mais compreensível a uma carteira “completa” onde eu não entendo metade do que tenho.


Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não constitui recomendação de compra ou venda de ativos. Os dividend yields projetados são estimativas baseadas em dados disponíveis em maio de 2026 e podem variar.

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Dividendo Certo é uma newsletter sobre renda passiva com dividendos, pela ótica do value investing — Bazin, Barsi, Buffett, Munger, Lynch e Howard Marks aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

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