
Há poucos dias, este blog explicou a tese BESST de Luiz Barsi Filho: bancos, energia, saneamento, seguros e telecomunicações, os setores que a sociedade não consegue dispensar. Escrevendo aquele artigo, percebi que a minha carteira segue uma lógica parecida, mas não igual. Ela tem uma letra a mais, e essa letra muda tudo. Dei a ela o nome de BICU: Banking, Insurance, Commodities e Utilities. Em português, bancos, seguros, commodities e serviços de utilidade pública.
Este artigo explica cada letra, o que o BICU tem em comum com o BESST e, principalmente, por que eu incluí as commodities, um setor que o próprio Barsi deixa fora da sigla.
Do BESST ao BICU
O BICU não é uma crítica ao BESST. Na verdade, ele contém o BESST inteiro. Utilities, no conceito amplo usado nos mercados de língua inglesa, são os serviços públicos essenciais: energia elétrica, saneamento e, numa classificação mais ampla, telecomunicações. (No padrão internacional GICS, usado por índices como o S&P 500, telecom fica num setor próprio, o de Serviços de Comunicação. Por isso a ressalva.) Assim, as letras E, S e T do BESST cabem dentro do meu U.
Bancos (B) e seguros (I, de insurance) são os mesmos nas duas siglas. A diferença real está numa letra só: o C, de commodities.
As três letras de renda
Na minha carteira, três letras têm a mesma função: pagar renda com regularidade, quase como um aluguel.
- B, de bancos: Banco do Brasil, BBAS3 (ADR: BDORY), Itaú, ITUB4 (ADR: ITUB), Bradesco, BBDC4 (ADR: BBD), e a holding Itaúsa, ITSA4. No exterior, JPMorgan, JPM, e o britânico Lloyds, LYG.
- I, de seguros: BB Seguridade, BBSE3 (ADR: BBSEY), e Caixa Seguridade, CXSE3. No exterior, a Berkshire Hathaway, BRK.B, cujo coração é o seguro, embora ela também tenha ferrovia, energia e participações em outras empresas.
- U, de utilities: as transmissoras Taesa, TAEE11, e ISA Energia, ISAE4. No exterior, a American Electric Power, AEP, uma das maiores empresas de energia elétrica dos Estados Unidos.
Essas três letras formam a base da carteira. Nelas, sou conservador: procuro empresas lucrativas, de setores perenes, com histórico de distribuição de dividendos e compradas a um preço que garanta um bom retorno de entrada, como mostra o critério de Bazin.
O C, e o livro que mudou meu raciocínio
As commodities são a exceção. Na carteira, o C é representado pela Vale, VALE3 (ADR: VALE), no minério de ferro, e pela norueguesa Equinor, EQNR, no petróleo e gás. E elas não estão lá pelo mesmo motivo que as outras.
Já contei aqui no blog, num artigo de junho sobre a Vale, que durante muito tempo eu não queria commodities na carteira. Quem investe por dividendos quer previsibilidade, e commodity é o oposto disso. O que mudou meu raciocínio foi um livro: “O Mundo à Venda”, dos jornalistas Javier Blas e Jack Farchy, que cobriram commodities para o Financial Times e para a Bloomberg. A edição brasileira saiu em 2022, pela Alta Cult.
O livro conta a história das grandes trading houses de commodities, como Glencore, Vitol, Trafigura e Cargill, empresas pouco conhecidas do público que compram e vendem petróleo, metais e grãos pelo mundo. A lição que tirei foi esta: fortunas são feitas em commodities por quem está posicionado na hora certa do ciclo, quando a oferta falta e o preço dispara.
Daí veio o C do BICU. Nas três primeiras letras, eu busco renda. No C, eu aceito riscos calculados com uma parcela menor da carteira, em troca da possibilidade de multiplicar o patrimônio quando o ciclo vira a favor. O BICU tem três letras de renda e uma de multiplicação.
O mesmo livro mostra o preço da hora errada
Seria desonesto contar só a metade boa da história. O caso mais famoso do próprio livro mostra o outro lado.
A Glencore, a maior das tradings, abriu capital em maio de 2011, a 530 pence por ação (pence são os centavos da libra esterlina). Para os sócios, o IPO consagrou fortunas bilionárias. Mas a estreia aconteceu no auge do último superciclo das commodities. Na crise das commodities de 2015, a ação chegou a ser negociada perto de 67 pence, uma queda de cerca de 87% em relação ao preço do IPO. Ela só voltou aos 530 pence em 2022, onze anos depois, impulsionada pela disparada das commodities após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Quem vendeu ações no IPO acertou a hora. Quem comprou no IPO esperou mais de uma década só para recuperar o dinheiro, sem contar os dividendos recebidos no caminho. A mesma commodity, a mesma empresa, dois resultados opostos, separados apenas pelo momento.
Não é prever o ciclo, é reconhecer onde ele está
No artigo de junho, escrevi que não sei fazer o timing do ciclo e não tento. Continuo achando isso. Prever o fundo exato é impossível. Mas existe uma diferença entre prever o ciclo e reconhecer em que fase ele está, e é nessa diferença que o C do BICU se apoia.
Três pensadores que influenciam este blog ajudam a entender essa diferença:
- Howard Marks, em “Mastering the Market Cycle” (2018), defende que ninguém consegue prever o futuro, mas é possível saber em que ponto do ciclo estamos e ajustar o comportamento a isso: mais cauteloso quando todos estão otimistas, mais disposto quando todos estão pessimistas.
- Peter Lynch, em “O Jeito Peter Lynch de Investir”, alerta que, nas empresas cíclicas, o P/L baixo pode enganar. Ele costuma aparecer quando o lucro está no pico do ciclo, pouco antes da virada. Com as cíclicas, o momento da compra pesa mais do que em qualquer outro tipo de empresa.
- Nassim Nicholas Taleb, em “Antifrágil”, descreve a estratégia barbell (de barra de halteres): a maior parte do patrimônio em ativos muito seguros e uma fração pequena em apostas com retorno potencial muito maior. O BICU é inspirado nessa ideia, com uma ressalva: a Vale e a Equinor não são apostas especulativas extremas como as que Taleb imagina. São empresas grandes, lucrativas e pagadoras de dividendos, só que cíclicas.
Na prática, alguns sinais ajudam a reconhecer que o ciclo está perto de um ponto baixo. O blog mostrou alguns deles nas últimas semanas:
- Concorrentes cortando produção. Em setembro, a CSN Mineração reduziu a produção de minério de baixa qualidade no complexo de Pires, em Minas Gerais. Quando os produtores menos eficientes começam a cortar, a oferta encolhe.
- Preço da commodity perto do custo dos produtores mais caros. Em meados de outubro, o minério negociado em Cingapura chegou perto de US$ 90 por tonelada, o menor nível desde setembro de 2024.
- Pessimismo generalizado. A nova mina de Simandou, na Guiné, e a desaceleração da China dominam o noticiário do minério.
Nenhum desses sinais garante que o fundo chegou. Eles só indicam que o ciclo está mais perto da fase de pessimismo do que da de euforia.
Onde está o risco calculado
Mais do que o momento da compra, quem calcula o risco é o tamanho da posição. Por isso o C ocupa uma parcela deliberadamente menor da minha carteira do que as outras três letras. Se eu errar o momento, como erraria quem comprou Glencore em 2011, a renda das outras letras continua chegando, e o erro não compromete o plano.
Ter commodities numa carteira de renda exige aceitar três coisas:
- O dividendo varia muito. A Vale distribui uma parcela da geração de caixa, que acompanha o preço do minério. Em anos bons, o dividendo é generoso; em anos ruins, encolhe.
- O P/L engana. Como alertou Lynch, a ação pode parecer barata justamente quando o lucro está no topo.
- A paciência pode ser longa. O ciclo pode demorar anos para virar, como mostrou a Glencore.
E o que fica fora das quatro letras
A carteira internacional também tem Alphabet, GOOGL, e Amazon, AMZN. Elas não cabem em nenhuma letra do BICU, e não por acaso. São empresas de tecnologia escolhidas pelo crescimento, não pela renda: a Alphabet começou a pagar dividendos só em 2024, com um yield pequeno, e a Amazon não paga dividendos. É uma parcela separada, com outra função, e merece um artigo próprio.
What remains practically
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de nenhuma ação citada. O BICU é a forma como eu organizo a minha carteira, não uma fórmula para todos. Para quem quiser usar a ideia:
- Separe as funções. Saiba quais ações estão na carteira para pagar renda e quais estão para multiplicar patrimônio. Misturar as duas expectativas é a receita para se frustrar com as duas.
- Defina o tamanho da parcela de risco antes de comprar, não depois. É o tamanho, não o acerto do momento, que protege o plano.
- Nas cíclicas, olhe o ciclo antes do P/L. Pergunte em que fase o setor está: euforia ou pessimismo?
- Aceite que pode levar anos. Quem entra em commodities precisa ter estômago e prazo.
Barsi construiu seu patrimônio com setores que não podem parar. Os traders de “O Mundo à Venda” construíram fortunas com setores que sobem e descem. O BICU é a tentativa de ficar com o melhor dos dois: uma base sólida de renda e uma janela aberta para o ciclo.
By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right
Sources consulted:
- Javier Blas e Jack Farchy, “O Mundo à Venda: Dinheiro, poder e os traders que negociam os recursos do planeta” (Alta Cult, 2022) — dados da edição brasileira conferidos no Skoob.
- Mining.com: “Glencore regains IPO price after 11 years on commodity rally” — preço do IPO, auge do superciclo, mínima de 2015 e recuperação em 2022.
- Bloomberg: “Glencore Shares Stick to Offer Price After $10 Billion IPO” (18/05/2011) — estreia a 530 pence.
- Howard Marks, “Mastering the Market Cycle: Getting the Odds on Your Side” (2018).
- Peter Lynch, “O Jeito Peter Lynch de Investir” (“One Up on Wall Street”), sobre as empresas cíclicas e o P/L.
- Nassim Nicholas Taleb, “Antifrágil”, sobre a estratégia barbell.
- Aktienwelt360: “Amazon-Aktie: Dividende in 2026 oder 2030?” (06/05/2026) — a Amazon não paga dividendos.
- Dividendo Certo, artigos de 13/06/2026 (Vale e “O Mundo à Venda”), 30/09/2026 (CSN Mineração em Pires), 15/10/2026 (tese BESST) e 19/10/2026 (Simandou).
Leave a Reply