
Luiz Barsi Filho é o investidor pessoa física mais conhecido da bolsa brasileira, e boa parte da fama vem de uma ideia simples: concentrar o patrimônio em empresas de setores que a sociedade não consegue dispensar, em qualquer fase da economia. Ao longo dos anos, essa ideia ganhou uma sigla, BESST, de bancos, energia, saneamento, seguros e telecomunicações. Este blog já explicou a diferença entre empresas perenes e cíclicas. Este artigo vai um passo além: mostra o que cada setor da sigla tem de perene, onde está o risco de cada um e o que as exceções da própria carteira de Barsi ensinam.
De onde vem a tese
Barsi conta, em sua autobiografia, “O Rei dos Dividendos”, que começou do zero: filho de imigrantes, perdeu o pai aos quatro anos e foi criado pela mãe num cortiço em São Paulo. Começou a investir no fim dos anos 1960 e atravessou planos econômicos, hiperinflação e trocas de moeda sem abandonar a bolsa. A estratégia que o levou a ser o maior investidor pessoa física do país foi justamente escolher negócios que continuassem funcionando no meio dessas crises.
A sigla aparece em duas versões. A mais citada é BESST, com dois “S”, para saneamento e seguros. Algumas fontes usam BEST, sem seguros, e atribuem a formulação à equipe de Barsi, que inclui a filha, Louise Barsi. A versão importa menos que a ideia: são setores de demanda constante, que as pessoas e as empresas continuam pagando em anos bons e ruins.
O que cada setor tem de perene
Bancos. Ninguém deixa de receber salário, pagar contas ou guardar dinheiro numa crise. O blog tratou do setor em detalhe nas últimas semanas, então aqui basta lembrar o essencial: o risco do banco é o crédito, e a qualidade da gestão faz toda a diferença.
Energia elétrica. Luz é o serviço que o consumidor corta por último. Dentro do setor, porém, os riscos são muito diferentes. As transmissoras, como Taesa, TAEE11, e ISA Energia, ISAE4, recebem uma receita fixa, corrigida pela inflação, por manter as linhas disponíveis, sem depender de quanta energia passa por elas. Geradoras dependem de chuva e do preço da energia; distribuidoras, do consumo e da inadimplência dos clientes. A transmissão é a parte mais perene de um setor já perene.
Saneamento. Água e esgoto são talvez o serviço mais essencial de todos, e a demanda praticamente não varia com a economia. Empresas como Sabesp, Sanepar e Copasa operam em regime de concessão, quase sem concorrência. O ponto de atenção é outro: a tarifa depende de reguladores e, muitas vezes, de governos estaduais, que podem segurar reajustes por motivos políticos. É um setor perene no negócio, mas sensível na política.
Seguros. Seguro de vida, de casa, de carro e prestamista (o que quita um empréstimo se o devedor morrer) são contratados de forma contínua. As seguradoras ainda contam com o float, o dinheiro dos prêmios que fica aplicado até o pagamento de eventuais indenizações. Na carteira do blog, BB Seguridade, BBSE3 (ADR: BBSEY), e Caixa Seguridade, CXSE3, são o exemplo, com payout perto de 90% do lucro.
Telecomunicações. Celular e internet viraram serviços básicos, com contas mensais pagas por milhões de clientes. Empresas como Vivo e TIM têm receita recorrente e previsível. O risco aqui é a tecnologia: o setor exige investimentos pesados e constantes, como foi o 5G, e o que é essencial hoje pode ficar obsoleto amanhã.
Perene não é o mesmo que seguro
O exemplo mais forte vem do próprio BESST. A Oi era uma das maiores empresas de telecomunicações do país, num setor perene. Em 2016, pediu a maior recuperação judicial da história brasileira até então, com dívidas de cerca de R$ 65 bilhões, e voltou a pedir recuperação judicial em 2023. A demanda por telefone e internet nunca desapareceu; o que quebrou a empresa foi a dívida alta, decisões de investimento ruins e a perda de espaço para concorrentes mais eficientes.
A lição é que o setor perene protege a demanda, mas não protege contra uma gestão ruim ou um balanço frágil. Por isso, escolher o setor é só o primeiro passo. Depois vem a empresa: dívida controlada, histórico de pagamento de dividendos e um preço que garanta um bom retorno de entrada.
As exceções da carteira de Barsi
Curiosamente, duas das posições mais associadas a Barsi ficam fora da sigla:
- Klabin, KLBN11, de papel, celulose e embalagens.
- Unipar, UNIP6, de soda cáustica e cloro, produtos químicos cujo preço oscila com o mercado internacional.
Ao lado do Banco do Brasil, essas duas aparecem com frequência entre as maiores participações dele, segundo levantamentos de mercado.
A presença delas mostra que o BESST funciona como um guia, não como uma regra rígida. Embalagens e produtos de limpeza e tratamento de água também têm demanda constante, ainda que com preços mais voláteis. O próprio caso da Unipar exige cuidado: o dividendo depende do preço da soda, e por isso varia bem mais de um ano para o outro que o de uma transmissora.
Onde a carteira do blog está, e onde não está
Olhando a carteira acompanhada pelo Dividendo Certo pela lente do BESST, três setores estão bem representados: bancos, energia, com as transmissoras, e seguros. Saneamento e telecomunicações estão ausentes. Isso não é um defeito em si, já que a diversificação útil é entre negócios realmente diferentes, não entre siglas. Mas é um bom exercício para qualquer investidor de renda: quais setores da minha carteira continuariam pagando dividendos numa recessão?
What remains practically
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de nenhuma ação ou empresa citada. Para aplicar a ideia de Barsi na sua carteira:
- Comece pelo setor. A demanda do produto continua igual numa crise? Se a resposta é sim, o negócio é candidato a base de renda.
- Depois olhe a empresa. Setor perene com dívida alta pode quebrar, como mostrou a Oi.
- Identifique o risco específico de cada setor: regulação no saneamento e na energia, tecnologia nas telecomunicações, crédito nos bancos.
- Trate a sigla como guia, não como lista fechada. O próprio Barsi tem posições fora dela.
- Só então olhe o preço. Um negócio perene comprado caro rende pouco, como mostra o critério de Bazin.
No fim, a força do BESST não está nas cinco letras, e sim na pergunta que ele obriga a fazer antes de qualquer compra: essa empresa vai continuar vendendo daqui a 20 anos, aconteça o que acontecer com a economia?
By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right
Sources consulted:
- Luiz Barsi Filho, “O Rei dos Dividendos: A Saga do Filho de Imigrantes Pobres que se Tornou o Maior Investidor Pessoa Física da Bolsa de Valores Brasileira” (Editora Sextante, 2022) — trajetória pessoal e filosofia de investimento.
- InfoMoney: “Luiz Barsi: ‘Recebi mais de R$ 170 milhões em dividendos de uma só empresa em 2021′” — a sigla dos setores “à prova de balas”, atribuída à equipe de Barsi.
- Nord Investimentos: “Luiz Barsi Filho: o maior investidor individual do Brasil” e “Dividendos recebidos por Luiz Barsi ultrapassam R$ 1 bilhão em 10 anos” — setores da tese e posições associadas a Barsi.
- Istoé Dinheiro / Reuters: entrevista com Luiz Barsi — Banco do Brasil, Klabin e Unipar entre as maiores posições.
- Poder360: “Oi encerra processo de recuperação judicial depois de 6 anos” — dívida de cerca de R$ 65 bilhões no pedido de 2016.
- Olhar Digital: “Oi pede segunda recuperação judicial e declara quase R$ 44 bi em dívidas” (02/03/2023) — segundo pedido de recuperação judicial.
Leave a Reply