Dividing It Right

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Entre perder dinheiro e perder market share: como o Itaú ITUB4 (ADR: ITUB) protege o lucro se o crédito piorar

By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right

Depois da euforia pós-eleição, os bancos devolveram parte da alta. Na quarta-feira, 7 de outubro de 2026, a ação do Itaú Unibanco, ITUB4 (ADR: ITUB), caiu 2,66%, num pregão em que o Ibovespa recuou pelo segundo dia seguido. No artigo anterior sobre o banco, a pergunta era se o preço acima de R$ 50 ainda fazia sentido. Desta vez, a pergunta é outra, e talvez mais importante para quem pretende ficar com a ação por muitos anos: o que sustenta o retorno de 24% sobre o patrimônio se o ciclo de crédito virar?

A melhor resposta veio do próprio banco, na videoconferência de resultados do segundo trimestre de 2026. Perguntado por um analista por que o Itaú não aproveitava o balanço forte para crescer mais rápido, o CEO, Milton Maluhy Filho, respondeu com uma frase que resume a filosofia de crédito da casa: “ou perdemos o market share ou perdemos dinheiro, e sempre optamos por perder market share”.

O cenário que preocupa o próprio banco

Antes de explicar como o Itaú se protege, vale entender do que ele está se protegendo. Na mesma resposta, o CEO descreveu um ambiente de crédito que “inspira cautela”. As famílias estão com alto comprometimento de renda e mais endividadas, os juros seguem restritivos e houve, nas palavras dele, um “excesso de crédito dado pelo mercado”, puxado por novos competidores. Um dado ilustra bem o problema: o brasileiro tinha, em média, 1,4 cartão de crédito por CPF; hoje tem de 5 a 6.

Para um banco, isso é um sinal de alerta. Quando o mesmo cliente deve para muitas instituições ao mesmo tempo, qualquer aperto na renda se espalha pela fila de credores. Ganha quem emprestou com mais garantia e para o cliente mais resistente.

Primeira defesa: olhar a margem depois do risco

Uma forma comum de um banco aumentar o lucro no curto prazo é emprestar a juros altos para clientes mais arriscados. A receita sobe na hora. O problema aparece meses depois, quando parte desses clientes deixa de pagar e o banco precisa reservar dinheiro para cobrir as perdas, a chamada PDD (provisão para devedores duvidosos).

O Itaú diz gerir o balanço pela margem ajustada ao risco, ou seja, o que sobra dos juros recebidos depois de descontadas as perdas esperadas. Nas palavras do CEO na apresentação, entrar com uma margem muito alta e devolvê-la no custo do crédito “não faz sentido como alocação de capital”. No segundo trimestre, essa margem ajustada ficou em 6,2% ao ano: para cada R$ 100 em operações com clientes, sobraram cerca de R$ 6,20 depois de pagar a captação e cobrir as perdas com inadimplência. Foi uma leve alta em relação aos 6,1% do trimestre anterior. O custo do crédito, o quanto o banco perde com inadimplência em relação à carteira, rodou em 2,7%, estável desde o primeiro trimestre de 2025.

Segunda defesa: escolher o cliente e o produto

O exemplo mais claro está no consignado privado, o empréstimo com desconto em folha para trabalhadores com carteira assinada. É um produto novo, que cresceu 90% em um ano no Itaú. Mas o banco explicou que concentrou a oferta em quem já é seu correntista, pessoas cujo histórico ele conhece, e que não tem operado de forma relevante “no mar aberto”, onde vê inadimplência alta e problemas de repasse das parcelas pelas empresas. Resultado: o atraso da carteira do Itaú nesse produto roda perto da metade do indicador do sistema.

Há também uma troca deliberada. Para os clientes que podem usar o consignado, o banco reduziu em 7% a produção de crediário, um crédito mais caro para o cliente e com menos prioridade de pagamento. O banco abre mão de uma receita maior hoje para ficar com um empréstimo mais seguro e evitar o superendividamento de quem já é seu cliente.

Terceira defesa: não crescer só para mostrar crescimento

Foi aqui que veio a frase que dá título a este artigo. O raciocínio do CEO, em resumo: o dia em que um banco perde a disciplina porque acha que precisa crescer, ou entregar resultado, “você devolve tudo na PDD depois”. E o estrago não para no lucro. A perda consome capital, o banco fica na defensiva, corta crédito para todos e entra no que ele chamou de “abre e fecha” do crédito. O objetivo declarado é o contrário: emprestar sempre, mas nos clientes mais resistentes.

Warren Buffett deu nome ao comportamento que o Itaú diz evitar. Em sua carta aos acionistas de 1989, ele descreveu o “imperativo institucional”: a tendência das empresas de imitar o que os concorrentes fazem, mesmo quando é insensato, só para não ficar para trás. No crédito, isso significa emprestar porque todo mundo está emprestando. Aceitar perder participação de mercado quando os concorrentes crescem de forma irracional é recusar esse imperativo.

Howard Marks oferece a outra metade da explicação. Para ele, risco não é a oscilação do preço, e sim a chance de perda permanente. Num banco, a perda permanente é o empréstimo que não volta. Perder market share é reversível: o cliente pode voltar quando o ciclo melhorar. Perder dinheiro com crédito ruim não é.

O colchão: capital e inadimplência

A disciplina aparece nos números de qualidade de crédito:

  • Inadimplência acima de 90 dias: 1,9% no consolidado, estável em relação ao trimestre anterior.
  • Pequenas e médias empresas: o indicador subiu de 1,9% para 2,0%. O banco atribui o movimento ao fim das carências dos programas de crédito do governo e projeta mais 0,1 ponto no trimestre seguinte, para 2,1%, com estabilização depois. É o ponto a acompanhar no resultado do terceiro trimestre.
  • Capital principal (CET1): 12,3%, contra um mínimo interno de 11,5%.

Esse último número é o que mais interessa ao investidor de renda. O Itaú tem a política de devolver ao acionista o capital que excede o necessário, e o CEO disse esperar que o índice continue crescendo até o fim do ano, para a discussão de dividendos adicionais que o banco costuma fazer no início do ano seguinte. A conta é direta: cada real perdido com crédito ruim sai primeiro desse excedente. A disciplina no crédito é, na prática, a proteção do dividendo extraordinário.

Há ainda uma quarta linha de defesa, mais silenciosa: as despesas. O CEO lembrou que a receita depende da economia, mas “o custo está sob gestão”. O índice de eficiência no Brasil ficou em 35,5%, o que significa que o banco gasta cerca de 35 centavos para gerar cada real de receita.

O outro lado da moeda

A estratégia tem custo, e é honesto registrá-lo:

  • Crescimento menor. Perder market share significa ver concorrentes crescendo mais em algumas linhas. Em anos bons de crédito, o Itaú pode parecer conservador demais.
  • Receitas já revisadas. O banco reduziu a projeção de crescimento das receitas de serviços e seguros de 5% a 9% para 2% a 5% em 2026, por causa da atividade econômica mais fraca.
  • A projeção não é garantia. O próprio CEO ressalvou que “o mercado é dinâmico” e pode piorar mais rápido do que o banco espera, citando os juros nos Estados Unidos e o risco de pressão sobre o câmbio e a inflação no Brasil. Para 2027, disse que ainda é preciso observar os próximos meses.

What remains practically

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de ITUB4 (ADR: ITUB). Para quem acompanha o banco pensando em renda de longo prazo, a teleconferência deixa três sinais para monitorar nos próximos balanços:

  1. O custo do crédito. Se continuar perto de 2,7% enquanto o mercado piora, a disciplina está funcionando.
  2. A inadimplência das pequenas e médias empresas. O banco prometeu estabilização em 2,1%. Se passar disso, a explicação das carências perde força.
  3. O capital principal acima de 11,5%. É a folga que vira dividendo extraordinário no começo de cada ano.

Uma empresa eficiente não se avalia só pelo que ela faz quando tudo vai bem, mas pelo que ela se recusa a fazer quando o mercado inteiro está fazendo. No crédito, o Itaú diz preferir crescer menos a perder dinheiro. Para o acionista que vive de dividendos, essa costuma ser a escolha que preserva a renda quando o ciclo vira.


Sources consulted:

  • Itaú Unibanco — Transcrição da videoconferência de resultados do 2º trimestre de 2026 — falas do CEO Milton Maluhy Filho sobre ciclo de crédito, cartões por CPF, PDD, market share, consignado privado, crediário, margem ajustada ao risco, CET1, eficiência e guidance.
  • Itaú Unibanco — Análise Gerencial da Operação, 2º trimestre de 2026 — margem financeira com clientes ajustada ao risco de 6,2% ao ano (pág. 13), custo do crédito de R$ 10,1 bilhões, inadimplência acima de 90 dias de 1,9% e indicadores por segmento.
  • Warren Buffett, carta aos acionistas da Berkshire Hathaway de 1989 (organizada por Lawrence A. Cunningham em “As Cartas de Warren Buffett”) — o “imperativo institucional”.
  • Howard Marks, “O Mais Importante para o Investidor” — risco como probabilidade de perda permanente.
  • Cotação de fechamento de ITUB4 em 07/10/2026: B3, via noticiário de mercado do dia.

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