Dividing It Right

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Itaú ITUB4 (ADR: ITUB) passa de R$ 50: por que o banco mais caro da bolsa pode continuar sendo um bom negócio

By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right

Na segunda-feira, 5 de outubro de 2026, a ação do Itaú Unibanco, ITUB4 (ADR: ITUB), passou de R$ 50 pela primeira vez na história. Chegou a R$ 50,68 durante o pregão e fechou a R$ 49,48, com alta de 10,37%, no dia em que o Ibovespa subiu 7,70%. Nesta terça, voltou a negociar acima de R$ 50. Em 12 meses, a valorização passa de 50%. Para quem investe em dividendos, uma alta dessas costuma vir acompanhada de uma dúvida: o Itaú ficou caro demais? A resposta depende de uma distinção que todo investidor de renda precisa dominar, a diferença entre preço alto e empresa cara.

O banco mais rentável do país

O Itaú lucrou R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, em termos recorrentes, alta de 7,8% em um ano. O retorno sobre o patrimônio, o ROE, ficou em 24,3%. ROE é quanto a empresa lucra para cada real que os acionistas deixaram investido nela: um ROE de 24% significa que cada R$ 100 de patrimônio gerou R$ 24 de lucro no ano. A inadimplência acima de 90 dias ficou estável em 1,9%.

Para comparar: no mesmo trimestre, o Banco do Brasil teve ROE de 8,3% e inadimplência de 5,61%. Os dois são grandes bancos brasileiros, mas o Itaú gera, para cada real de patrimônio, quase três vezes mais lucro.

Por que o mercado paga mais pelo Itaú

Um indicador ajuda a enxergar a diferença: o P/VP, ou preço sobre valor patrimonial. Ele compara o preço da ação com o patrimônio que cada ação representa no balanço. Um P/VP de 1 significa que o mercado paga exatamente o valor contábil do banco. Abaixo de 1, paga menos do que o patrimônio vale no papel.

O Itaú negocia perto de 2,56 vezes o valor patrimonial, segundo o Status Invest. O Banco do Brasil negocia abaixo de 1. À primeira vista, o BB parece uma pechincha e o Itaú, um exagero.

Mas o P/VP sozinho engana. O que o investidor compra, no fim, não é o patrimônio parado, e sim o lucro que esse patrimônio gera. Se cada real do Itaú rende 24% ao ano e cada real do BB rende 8%, faz sentido que o mercado pague bem mais pelo real do Itaú. Dividindo o ROE pelo P/VP, o investidor que compra o Itaú hoje paga 2,56 vezes o patrimônio, mas esse patrimônio rende 24,3%: o retorno sobre o preço pago fica perto de 9,5% ao ano. Um preço alto pode esconder um negócio razoavelmente precificado, e um preço baixo pode esconder um negócio que rende pouco.

Munger e o preço justo por uma empresa excelente

Warren Buffett escreveu, em sua carta aos acionistas de 1989, que é muito melhor comprar uma empresa excelente a um preço justo do que uma empresa mediana a um preço excelente, e creditou essa lição a Charlie Munger. Foi essa ideia que mudou o próprio Buffett, que no começo da carreira seguia à risca o método de Benjamin Graham de comprar empresas baratíssimas, mesmo que medianas.

A lógica é o tempo. Uma empresa mediana comprada barata dá um ganho que se esgota quando o preço se corrige. Uma empresa excelente continua gerando lucro alto ano após ano, e o investidor que fica com ela recebe esse retorno de forma composta. Para quem vive de dividendos, isso tem um nome prático: proventos que crescem junto com o lucro.

Isso não quer dizer que preço não importe. Até uma empresa excelente pode ficar cara demais. Mas a pergunta certa não é “a ação subiu muito?”, e sim “o que eu recebo, em lucro e dividendo, pelo preço que pago hoje?”.

E o dividendo, como fica?

Ao preço de R$ 50,63 desta terça, o dividend yield de 12 meses do Itaú está em cerca de 6,2%, segundo o Status Invest, acima do piso de 6% de Bazin. Mas esse número exige um olhar mais atento, como fizemos com a Vale.

Dos cerca de R$ 3,14 por ação pagos nos últimos 12 meses, R$ 1,87 vieram de um dividendo extraordinário anunciado em novembro de 2025 e pago em dezembro. Segundo os analistas, o banco antecipou esse pagamento por causa da mudança na tributação de dividendos que começou a valer em 2026. Sem ele, o yield de 12 meses ficaria perto de 2,5%.

Isso significa que o Itaú paga pouco? Não necessariamente. O banco tem uma política declarada de não carregar capital em excesso. Quando o lucro gera mais capital do que o banco precisa, o excedente volta ao acionista na forma de dividendos extraordinários e recompras de ações, que costumam vir no fim do ano. Em 2025, segundo cálculo do Goldman Sachs, o retorno total ao acionista chegou a cerca de R$ 36 bilhões, perto de 79% do lucro.

A diferença para quem busca renda é a previsibilidade. O pagamento mensal de JCP é pequeno e regular. O extraordinário é grande, mas depende de o banco continuar gerando capital acima do necessário. Hoje, com ROE de 24%, ele gera. É esse número, mais que o preço da ação, que vale acompanhar.

O que pode dar errado

Uma análise honesta também precisa olhar o outro lado:

  • Juros: parte da alta recente veio da queda dos juros futuros e da expectativa de juros menores. Se essa expectativa mudar, o preço pode devolver parte da alta, mesmo com o lucro intacto.
  • Receitas: em agosto, o próprio Itaú revisou para baixo a projeção de receitas de serviços e seguros para 2026.
  • Expectativa embutida: com P/VP de 2,56, o preço já pressupõe que o ROE continue alto. Se a rentabilidade cair, o múltiplo pode cair junto.

Nenhum desses pontos muda a qualidade do negócio, mas todos mostram que, num preço mais alto, a margem para decepção é menor.

Nota pessoal

O Itaú faz parte da carteira acompanhada pelo blog, e a alta desta semana pede uma decisão. Como a valorização foi recente, muito rápida e puxada por um evento eleitoral, e não por uma mudança nos resultados do banco, por ora não pretendo aumentar a posição. Prefiro esperar que o preço reflita os próximos balanços, e não o humor de alguns pregões. Ao mesmo tempo, não pretendo vender de jeito nenhum: a qualidade do negócio é exatamente a razão de o Itaú estar na carteira, e ela não mudou com a alta. Este é um relato da carteira pessoal do autor, não uma recomendação de compra ou venda para quem lê.

What remains practically

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de ITUB4 (ADR: ITUB). As lições valem para qualquer empresa da carteira:

  1. Preço alto não é o mesmo que empresa cara. O que define se um preço é razoável é o lucro que ele compra.
  2. Olhe o ROE junto com o P/VP. Um banco que rende pouco não fica barato só porque negocia abaixo do patrimônio.
  3. Separe o dividendo recorrente do extraordinário. O yield de 12 meses pode estar inflado por um pagamento que não se repete do mesmo jeito.
  4. Não puna uma empresa eficiente só porque ela subiu. O tempo é aliado dos bons negócios.

No fim, o Itaú passar de R$ 50 diz menos sobre o preço e mais sobre uma escolha que todo investidor de renda faz: pagar pouco por um negócio comum ou pagar o justo por um negócio excelente.


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