By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right

Basta o Ibovespa engatar uma sequência de quedas para o noticiário financeiro ser inundado por manchetes alarmistas. Palavras como “derretimento”, “fuga de capital” e “risco” começam a pipocar na tela do seu celular, e a primeira reação do investidor iniciante é sentir um frio na barriga. O impulso natural de sobrevivência humana grita para que você abra o seu home broker e venda tudo antes que o seu patrimônio “desapareça”.
Mas será que a queda no preço de uma ação é realmente o maior perigo para quem investe com foco em renda passiva?
No mundo do value investing (investimento em valor), nós aprendemos que o mercado adora confundir conceitos. Para blindar a sua carteira e garantir que os seus dividendos continuem crescendo, você precisa dominar uma lição essencial ensinada pelo lendário investidor Howard Marks: a diferença brutal entre a volatilidade e o risco verdadeiro.
A Ilusão da Volatilidade: O “Sobe e Desce” da Tela
A volatilidade é, de forma simples, a oscilação temporária de preços. É o fato de uma ação custar R$ 40 hoje, R$ 35 amanhã e R$ 42 no mês que vem.
A grande maioria das pessoas trata a volatilidade como risco, mas ela reflete apenas o humor de curto prazo dos investidores, as manchetes políticas do dia ou as expectativas sobre a taxa de juros. Volatilidade não destrói o balanço de uma empresa sólida; ela apenas muda a etiqueta de preço que o mercado cola nela momentaneamente.
Benjamin Graham, o grande mestre de Warren Buffett, criou a melhor analogia para explicar isso: o “Sr. Mercado”. Imagine que você é sócio de uma padaria excelente, que vende pães todos os dias e dá lucro constante. O seu outro sócio, o Sr. Mercado, é um sujeito altamente emocional. Todos os dias ele bate na sua porta oferecendo para comprar a sua parte ou vender a parte dele. Em dias de euforia, ele oferece um preço altíssimo. Em dias de pânico, ele oferece vender a parte dele por centavos.
O erro fatal do investidor amador é acreditar que a padaria está falindo só porque o Sr. Mercado acordou deprimido e ofereceu um preço baixo. Graham ensinava que, no curto prazo, o mercado funciona como uma “máquina de votação” (guiada por emoções e popularidade), mas no longo prazo ele atua como uma “máquina de pesagem” (pesando o lucro real e a geração de caixa).
O Risco de Verdade: A Perda Permanente de Capital
Se a oscilação do preço não é o problema, o que é o risco de verdade? Para Howard Marks, o risco real é a perda permanente de capital.
Esse risco se concretiza quando os fundamentos estruturais da empresa quebram. É quando aquela padaria deixa de vender pão, perde os seus clientes para a concorrência, acumula dívidas impagáveis e perde, em definitivo, a sua capacidade de gerar lucros. Se o negócio perdeu a qualidade, os dividendos vão secar. Isso sim é risco.
Se você tem ações de gigantes como o Banco do Brasil (BBAS3) ou a Taesa (TAEE11) e a cotação delas cai 10% em uma semana por causa de um ruído em Brasília, o modelo de negócios delas mudou? As pessoas pararam de usar energia elétrica ou de pegar crédito? Se a resposta for não, a empresa continua gerando caixa, e o risco é apenas uma ilusão criada pela volatilidade.
A Queda de Preços como Acelerador de Renda
Aqui no Dividing It Right, o nosso olhar é o de donos do negócio. Nós não torcemos contra as empresas, nós torcemos para que o mercado, num surto de pessimismo, jogue o preço de boas empresas pagadoras de dividendos para baixo.
Para nós, uma queda de preço nunca deve ser enquadrada como um alarme; ela é sempre uma oportunidade de comprar mais barato e aumentar o Dividend Yield (o rendimento percentual do dividendo em relação ao preço pago) de entrada.
É neste momento que aplicamos a nossa maior defesa: o Critério Bazin, que exige um Dividend Yield mínimo de 6% ao ano como filtro para comprar uma ação. Se uma empresa que paga R$ 3,00 de dividendos por ano sofre uma queda de preço de R$ 50 para R$ 30, o seu rendimento salta de 6% para 10%. Você passa a receber muito mais renda passiva com o mesmo dinheiro investido.
What remains practically
A bolsa de valores é um lugar para ter disciplina, não para se deixar levar pelo pânico. Da próxima vez que o mercado balançar e a sua carteira ficar vermelha, faça a si mesmo três perguntas antes de pensar em vender:
- O motivo dessa queda afeta a capacidade de a empresa continuar gerando lucro no longo prazo?
- A empresa contraiu dívidas perigosas ou perdeu vantagens competitivas?
- Ou isso é apenas o “Sr. Mercado” em um dia de pessimismo?
Se o negócio continua perene e lucrativo, o seu trabalho não é fugir. O seu trabalho é aproveitar a volatilidade para comprar ações na liquidação, garantindo um dividendo muito maior para a sua aposentadoria. O risco de verdade é ficar de fora.
Siga reinvestindo.
Um abraço e bons dividendos,
Rodrigo Gomes Flores – Editor do Dividendo Certo
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