Dividendo Certo

Estudos sobre dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Banco do Brasil BBAS3 (ADR: BDORY) e as Casas Bahia: quanto a recuperação judicial pode pesar num dividendo que já encolheu

By Rodrigo Gomes Flores — Dividends Right

Quando o Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial, em 16 de agosto de 2026, o Banco do Brasil apareceu como o segundo maior credor financeiro da varejista, atrás apenas do grupo Bradesco. Para quem tem BBAS3 (ADR: BDORY) pensando em renda, a notícia chegou num momento delicado: o banco já tinha reduzido a fatia do lucro que distribui aos acionistas e vem de um ano de inadimplência alta. A pergunta natural é se as Casas Bahia podem apertar ainda mais os dividendos. A resposta curta é que o efeito tende a ser pequeno perto dos problemas que o BB já tem, mas não é zero, e o contrato do BB é mais exposto que o do Bradesco. Vale entender por quê.

Quanto o Banco do Brasil tem a receber

Na lista de credores que as Casas Bahia entregaram à Justiça, o Banco do Brasil aparece com cerca de R$ 2,99 bilhões a receber. Esse total se divide em duas partes, com riscos diferentes:

  • Cerca de R$ 598 milhões são crédito concursal. É a parte que entra na recuperação judicial e fica sujeita ao plano que a empresa vai propor aos credores. Na prática, costuma ser paga com desconto e em prazo longo.
  • Cerca de R$ 2,39 bilhões são crédito extraconcursal. É a parte que fica fora do plano, em geral porque tem uma garantia forte, como recebíveis cedidos ao banco (o dinheiro que os clientes da varejista ainda vão pagar).

O valor extraconcursal praticamente coincide com um número que o Banco Safra calculou por outro caminho: segundo a análise, o BB detém cerca de R$ 2,4 bilhões da carteira de crediário das Casas Bahia, o famoso carnê. É provável que se trate da mesma exposição vista por dois ângulos. A lista ainda pode mudar, porque os valores e as classificações passam pela conferência do administrador judicial e podem ser contestados.

Por que o BB está mais exposto que o Bradesco

No artigo anterior, sobre o Bradesco, mostramos que o banco reestruturou o contrato do crediário em agosto de 2025. Desde então, o risco principal passou a ser do consumidor que comprou a prazo, e as Casas Bahia ficaram como garantidoras das perdas.

Segundo o Safra, o Banco do Brasil não fez essa mudança. Na avaliação dos analistas, a carteira do BB “ainda arca com 100% do risco de crédito da Casas Bahia”. Em outras palavras, quem deve ao BB é a própria empresa em recuperação, e não milhões de consumidores pulverizados.

Mesmo classificado como extraconcursal, esse crédito não está livre de risco: tudo depende de a garantia funcionar na prática. A Justiça suspendeu as cobranças contra a varejista por 180 dias, de 19 de agosto de 2026 a 15 de fevereiro de 2027. E, no pedido de recuperação, a própria Casas Bahia argumentou que a retenção de recebíveis dados em garantia poderia comprometer até 60% das suas entradas mensais de caixa. A empresa tem interesse direto em limitar o acesso dos bancos a essas garantias, e é essa disputa que vai definir quanto do crédito do BB está de fato protegido.

O tamanho do problema

Para dar escala, vale usar os números do próprio banco. No segundo trimestre de 2026, o custo do crédito do Banco do Brasil foi de R$ 18,5 bilhões. Custo do crédito é, basicamente, quanto o banco reserva e perde com calotes no período. Nas projeções para 2026, o banco espera algo entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões no ano.

Diante disso:

  • Os R$ 598 milhões concursais equivalem a cerca de 3% do custo do crédito de um único trimestre.
  • Os R$ 2,99 bilhões inteiros, num cenário extremo de perda total, equivaleriam a cerca de 16% do custo de um trimestre, ou menos de 5% do custo previsto para o ano.

Um gestor ouvido pelo Money Times no dia do pedido resumiu bem: não é um impacto material isoladamente, mas “se soma” às dificuldades que o banco já enfrenta. É esse “se soma” que importa para o dividendo.

O que realmente pressiona o Banco do Brasil

O relatório do segundo trimestre, publicado em 12 de agosto, antes do pedido das Casas Bahia, mostra onde está o peso de verdade:

  • Inadimplência acima de 90 dias de 5,61%, contra 3,96% um ano antes. Inadimplência acima de 90 dias é a parcela da carteira com parcelas atrasadas há mais de três meses.
  • Lucro ajustado de R$ 7,3 bilhões no semestre, queda de 34% sobre o primeiro semestre de 2025.
  • Guidance de lucro de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões para 2026, já revisado para baixo em maio. Guidance é a projeção que a própria empresa divulga para o ano.
  • Capital principal de 11,27%, abaixo dos 11,59% de março. Capital principal é o colchão de capital de melhor qualidade que o banco mantém para absorver perdas.

Segundo o Safra, a inadimplência no cartão de crédito dobrou, para 14,6%, e no agronegócio só 74% dos pagamentos de julho, o mês de maior concentração de vencimentos, foram feitos em dia. Em setembro, o JPMorgan cortou sua projeção de lucro do BB para 2026 para R$ 16,9 bilhões, cerca de R$ 1,1 bilhão abaixo do piso do guidance, citando provisões maiores, o agronegócio e os cartões.

É nesse quadro que as Casas Bahia entram: não como o problema principal, mas como mais um item numa conta que já estava apertada.

E os dividendos?

O dividendo do Banco do Brasil já encolheu por decisão do próprio banco. Em 2025, o BB reduziu o payout (a fatia do lucro distribuída aos acionistas) da faixa de 40% a 45% para 30%, e manteve os 30% para 2026. Com lucro menor e payout menor, o efeito se multiplica. No primeiro semestre de 2026, o banco distribuiu R$ 0,314 por ação em JCP (juros sobre capital próprio, uma forma de remuneração parecida com o dividendo, com tributação diferente). No mesmo período de 2025, tinham sido R$ 0,573. É uma queda de 45%.

Como o payout é um percentual fixo do lucro, qualquer provisão extra reduz o provento na mesma proporção. Uma conta simples ajuda a dimensionar o efeito das Casas Bahia, considerando cerca de 5,7 bilhões de ações:

  • Se só a parte concursal virasse perda: R$ 598 milhões × 30% ÷ 5,7 bilhões de ações ≈ R$ 0,03 por ação a menos no ano.
  • No cenário extremo de perda total: R$ 2,99 bilhões × 30% ÷ 5,7 bilhões de ações ≈ R$ 0,16 por ação a menos.

Os dois números são tetos. A conta ignora que a provisão também reduz o imposto que o banco paga, o que diminui o efeito no lucro. E a perda total é improvável, porque a maior parte do crédito tem garantia. Mesmo assim, o teto não é desprezível: equivale a pouco mais de um quinto dos R$ 0,69 por ação que o BB pagou nos últimos 12 meses.

E não há colchão extra à vista. Na teleconferência do terceiro trimestre de 2025, o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Geovanne Tobias, chegou a dizer que o banco avaliaria, no fim de 2026, a possibilidade de um dividendo extraordinário. Nunca foi uma promessa, e a porta se fechou em maio: na divulgação do primeiro trimestre, o mesmo executivo afirmou que o dividendo extraordinário em 2026 “está totalmente descartado”. Para este ano, o acionista deve contar apenas com os 30% do lucro.

O critério de Bazin e o preço que subiu

Aqui entra um dado que vai na direção contrária do noticiário. Desde meados de agosto, a ação do Banco do Brasil subiu com força, mais de 26% em um mês, segundo o Seu Dinheiro, num movimento que o mercado associa às expectativas para a eleição. Perto de R$ 21,59, o dividend yield dos últimos 12 meses fica em torno de 3,2%, segundo o Status Invest. Dividend yield é quanto a ação pagou em proventos no último ano, dividido pelo preço atual.

Para o critério de Décio Bazin, que usa um yield mínimo de 6% como filtro de entrada, esse número está bem abaixo da linha. Isso não é consequência das Casas Bahia. É a combinação de proventos menores com um preço que subiu por outro motivo. Para quem investe de olho em renda, a lição é separar as duas coisas: a ação está sendo precificada pela eleição, enquanto o dividendo depende do crédito.

What remains practically

Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda de BBAS3 (ADR: BDORY). O caso Casas Bahia, isoladamente, parece pequeno diante do custo de crédito que o Banco do Brasil já carrega. Mas ele pesa sobre um dividendo que já encolheu e sobre um banco com pouca folga para absorver surpresas.

Vale acompanhar três sinais:

  1. O balanço do terceiro trimestre. É o primeiro depois do pedido das Casas Bahia. O ponto a observar é se o banco comenta o caso e se o custo do crédito recua, como o guidance exige.
  2. O JCP complementar do terceiro trimestre, previsto no calendário do banco para 4 de dezembro de 2026. É o primeiro provento calculado sobre um lucro que já inclui o efeito da recuperação judicial.
  3. A disputa sobre as garantias durante o período de suspensão, até fevereiro de 2027. Ela vai mostrar se o crédito extraconcursal do BB está de fato protegido.

Para quem vive de renda, a pergunta que importa é se o banco vai recuperar o lucro que sustenta os proventos. Essa resposta está no agronegócio e no cartão de crédito muito mais do que no crediário de uma varejista.


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