
Já escrevi várias vezes por aqui que o investidor inteligente deve se manter fora do ruído, das modinhas e do comportamento de manada. Então vou confessar algo que me deixou desconfortável: recentemente percebi que eu mesmo, sem perceber, tinha entrado no que o mercado vem chamando de “trade eleitoral”.
O que é o “trade eleitoral”, e por que ele é diferente de investir
“Trade eleitoral” é a aposta de que uma ação vai subir ou cair dependendo de qual candidato vencer as eleições — não por causa dos fundamentos da empresa (lucro, geração de caixa, dividendos futuros), mas por causa da expectativa de curto prazo sobre o resultado das urnas. É, na essência, uma aposta binária de curto prazo: compra-se agora na expectativa de vender com lucro depois do resultado eleitoral, torcendo para o cenário político “certo” se confirmar.
Isso é estruturalmente diferente de investir em dividendos com foco em renda passiva de longo prazo, que é a proposta central deste blog. Quem faz trade eleitoral está precificando um evento político pontual; quem investe pensando em dividendos está precificando a capacidade da empresa de gerar lucro e distribuir caixa ao longo de décadas, independentemente de quem estiver no comando do país num determinado mandato.
Como percebi que tinha caído nisso
Há alguns dias, comentei num grupo que estava decepcionado com os dividendos do Banco do Brasil ($BBAS3) — mas que não vendia a ação porque achava que ela poderia disparar depois das eleições. Um colega respondeu, sem rodeios: “isso é puro trade eleitoral”. Minha primeira reação foi de resistência. Depois de refletir, tive que admitir que ele estava certo.
Nesta época do ano — em que pesquisa eleitoral sai todos os dias, promessas duvidosas se acumulam e acusações voam para todos os lados —, meu subconsciente se deixou capturar por exatamente o tipo de ruído que eu sempre disse aos leitores para evitar.
Por que até quem sabe da armadilha cai nela
Charlie Munger catalogou, ao longo de décadas estudando psicologia da má-avaliação humana, o viés da prova social: a tendência de seguir o comportamento e as crenças da multidão, especialmente em ambientes de incerteza, mesmo quando a pessoa é capaz, racionalmente, de reconhecer que aquele comportamento não faz sentido. Quanto mais intenso o “barulho” ambiente — e uma temporada eleitoral com pesquisa diária, acusações cruzadas e promessas de todos os lados é praticamente um laboratório de barulho —, mais fácil é para esse viés se infiltrar até em quem já escreveu, por escrito, sobre a importância de evitá-lo.
Esse é um ponto importante: cair num viés cognitivo não é sinal de burrice ou de falta de conhecimento teórico. É sinal de que somos humanos, e vieses como a prova social evoluíram justamente para operar de forma automática, abaixo do radar consciente. A defesa não é “ser imune” — ninguém é —, é desenvolver o hábito de se questionar quando percebe um padrão de comportamento estranho na própria conduta, como eu fiz ao ouvir a observação do meu colega.
A conexão com o desapontamento real com o BBAS3
Fazendo um inventário honesto da situação: eu, de fato, não estou satisfeito com os dividendos pagos atualmente pelo Banco do Brasil. Já registrei aqui no blog, ao analisar o resultado do 2T26, que o payout do banco (a fatia do lucro distribuída como dividendo) está em 30% — bem abaixo do que já foi no passado —, o que faz o dividend yield (DY, o retorno em dividendos sobre o preço da ação) atual não bater meu critério mínimo de entrada de 6% ao ano, o chamado critério de Décio Bazin.
Essa insatisfação genuína com o dividendo parece ter sido a brecha emocional que abriu espaço para o viés eleitoral entrar: já que o retorno via dividendo está fraco mesmo, uma parte de mim se permitiu torcer por um “empurrão” via valorização especulativa pós-eleição — uma racionalização que, goste eu ou não, é exatamente a definição de trade eleitoral.
O que fazer quando se percebe pego num viés desses
Meu primeiro impulso, depois da conversa no grupo, foi pensar em alguma ação corretiva imediata. Mas a conclusão a que cheguei, e que já é praticamente um mantra entre investidores de longo prazo, é mais simples: na dúvida, não fazer nada. Não vender por impulso, não comprar mais por especulação eleitoral, não tentar “consertar” às pressas uma posição só porque percebeu um viés na forma como estava pensando sobre ela.
Não fazer nada, nesse contexto, não é indecisão — é disciplina. A tese original de manter $BBAS3 continua sendo sobre os fundamentos do banco (carteira de crédito, inadimplência, ROE), não sobre o resultado das urnas. Se a tese fundamentalista ainda se sustenta, o barulho eleitoral — inclusive o meu próprio, momentâneo — não deveria ser o que decide a próxima ação sobre a posição.
O que fica de prático
Este artigo não recomenda a compra ou venda de nenhuma ação específica. O aprendizado central, e talvez o mais desconfortável de admitir: a arte de investir exige uma grande dose de autoconhecimento e autocrítica, e nem quem já alertou repetidamente sobre um viés está automaticamente imune a ele. Perceber que se caiu num padrão de pensamento raso — mesmo que temporariamente — não é motivo de vergonha; é a matéria-prima de que se faz um investidor mais maduro. Na dúvida gerada por ruído externo (eleitoral ou de qualquer outra natureza), o remédio mais confiável continua sendo simplesmente não fazer nada.
Fontes consultadas:
- Reflexão pessoal do autor, a partir de conversa em grupo de investidores (setembro/2026).
- A Sabedoria de Charles Munger, organizado por Peter D. Kaufman — conceito de viés de prova social (“social proof”) dentro do catálogo de psicologia da má-avaliação humana de Charlie Munger.
- Artigo anterior deste blog: análise do resultado do 2T26 do Banco do Brasil (payout de 30% e dividendo abaixo do critério Bazin).
- Artigo anterior deste blog: “trade eleitoral” e carteiras recomendadas (ângulo do incentivo comercial das corretoras).
Leave a Reply