Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo

Com a taxa Selic a 14% e o noticiário dominado por ruídos sobre o risco fiscal, o mercado financeiro entra em estado de alerta. Quando o medo se instaura, o investidor iniciante costuma tomar decisões drásticas no home broker baseadas puramente na emoção. E é nesse cenário de estresse que surge o inimigo mais silencioso da sua rentabilidade: o Efeito Disposição.
Você já teve o impulso de vender rapidamente uma ação excelente, de uma empresa sólida e geradora de caixa, apenas porque ela subiu 15% e você queria “garantir o lucro”? Ao mesmo tempo, você se recusa a vender aquela ação de uma empresa cheia de problemas que despencou 40%, justificando que vai “esperar voltar ao zero a zero”?
Se a resposta for sim, saiba que você está cometendo o erro clássico que o lendário investidor Peter Lynch descreveu como: “cortar as flores e regar as ervas daninhas.”
A Biologia do Prejuízo: Por que não conseguimos vender as ações ruins?
Para entender por que fazemos isso, precisamos sair das planilhas financeiras e entrar na psiquiatria.
O Dr. Alexander Elder, psiquiatra e autor renomado no mundo dos investimentos, explica perfeitamente a psicologia da posição perdedora. Segundo ele, o investidor se recusa a fechar uma posição no prejuízo porque isso aciona travas emocionais inconscientes da infância. Para a nossa mente, admitir o erro financeiro e materializar a perda equivale a uma punição moral — é como levar um boletim com notas vermelhas para mostrar a uma figura de autoridade.
Para evitar a dor e a vergonha imediata de assumir que a tese estava errada, a mente prefere entrar em estado de negação. O investidor mantém a ação perdedora na carteira na esperança mágica de que o preço volte, enquanto vende as suas empresas vencedoras só para sentir o alívio psicológico de uma pequena vitória.
A Máquina de Pesagem e o Foco nos Dividendos
O problema desse comportamento é que você acaba esvaziando a sua carteira dos melhores ativos e lotando o portfólio de “armadilhas de valor” (empresas com fundamentos destruídos).
Benjamin Graham, o pai do investimento em valor, nos ensinou que, no curto prazo, o mercado é uma máquina de votação (reagindo a manchetes e pânico), mas no longo prazo, ele é uma máquina de pesagem.
Se você tem na carteira uma transmissora eficiente como a Taesa (TAEE11) ou uma geradora robusta como a CPFL (CPFE3), e a cotação delas subiu, isso não é motivo para vendê-las. A decisão de manter ou vender um ativo na construção de renda passiva deve se basear na capacidade da empresa de continuar gerando caixa e pagando dividendos, e não na oscilação do preço de tela.
O nosso escudo contra esse viés psicológico é a objetividade. Ao invés de agir por intuição, use a matemática a seu favor. O Critério Bazin (exigir um Dividend Yield mínimo de 6%) é uma excelente régua. Se a empresa continua entregando lucros consistentes e proventos sólidos, o papel do investidor paciente não é liquidá-la para correr para a renda fixa, mas sim manter a sociedade e deixar os juros compostos trabalharem.
O Veredito
Investir com foco em dividendos não é um teste de genialidade financeira; é um teste de disciplina emocional. Pare de regar as ervas daninhas. Aceite quando a tese de um ativo cíclico der errado, limpe o seu portfólio e direcione o seu capital para as flores: os negócios perenes e à prova de crises que realmente pagam as suas contas no final do mês.
Siga reinvestindo. Um abraço e bons dividendos,Rodrigo Gomes Flores – Editor do Dividendo Certo
Leave a Reply