Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Itaú (ITUB4) no 2T26: lucro recorde, ação amassada — e o que o relatório revela sobre o motivo

Voltei de férias na Suíça e na Itália e, mesmo longe do teclado, segui de olho nos índices — o fuso horário atrapalhou o sono, não o acompanhamento do mercado. E o que encontrei ao voltar foi um contraste que vale a pena registrar: os bancos brasileiros ficaram tão amassados nas últimas semanas que aproveitei para comprar ITUB4 a R$ 37,65. Para efeito de comparação, essa mesma ação chegou a R$ 49 em 20 de fevereiro deste ano — e, entre um preço e outro, o banco não parou de melhorar seus resultados. É exatamente esse tipo de descompasso entre preço e negócio que vale a pena investigar com calma, e o relatório do 2º trimestre de 2026 do Itaú traz elementos bons para isso.

Um trimestre de números sólidos

O Itaú reportou lucro recorrente gerencial de R$ 12,4 bilhões no 2T26, alta de 1,0% frente ao trimestre anterior e de 7,8% em 12 meses. O retorno sobre patrimônio (ROE) ficou em 24,3% no consolidado e 25,7% no Brasil — patamares historicamente elevados para o banco, e bem acima do custo de capital de qualquer instituição financeira.

A carteira de crédito total encerrou o trimestre em R$ 1,52 trilhão, crescimento de 9,6% em 12 meses. O detalhe importante está na composição desse crescimento: no Brasil, a carteira de pessoas físicas cresceu 7,8%, puxada por crédito imobiliário e crédito consignado — as duas modalidades mais garantidas do varejo bancário, uma por ter o próprio imóvel como colateral, a outra por descontar a parcela diretamente da folha de pagamento ou do benefício do INSS. A inadimplência acima de 90 dias permaneceu estável em 1,9%, e a margem financeira com clientes cresceu 4,8% no semestre.

O índice de eficiência — quanto o banco gasta para operar, em proporção ao que fatura — ficou em 37,3% no acumulado do semestre, e a capitalização segue confortável: capital Nível I em 13,8% e Basileia acima de 15%, com folga sobre o mínimo regulatório para sustentar crescimento e dividendo ao mesmo tempo. O guidance para 2026 foi mantido em praticamente todas as frentes, com apenas a faixa de crescimento de receita de serviços e seguros revisada para baixo.

Por que, então, a ação apanhou tanto?

Aqui é onde a pesquisa complementa o relatório. O desconto recente nos bancos brasileiros não nasceu de um problema específico do Itaú — nasceu de uma mudança de humor do mercado com o crédito no Brasil como um todo. Levantamentos recentes mostram que o setor bancário espera piora adicional da inadimplência no terceiro trimestre de 2026, e a inadimplência do crédito ao consumidor já bateu recorde de 5,6% em maio, patamar mantido em junho, segundo dados do Banco Central. A agência Moody’s projeta desaceleração do crescimento da carteira de crédito dos bancos brasileiros, de 10% para 8% em 2026, citando justamente a inadimplência elevada, os juros ainda restritivos e a volatilidade do calendário eleitoral.

Some-se a isso a saída de capital estrangeiro da bolsa brasileira: agosto foi o segundo mês com maior retirada líquida de recursos estrangeiros da B3 em 2026, atrás apenas de maio, em movimento que se intensificou depois que o JPMorgan rebaixou a recomendação para ações brasileiras de overweight para neutra — citando o fim do ciclo de queda de juros, a desaceleração do crescimento e justamente a deterioração do ciclo de crédito, além da incerteza eleitoral. Em outras palavras: parte relevante da queda no preço das ações bancárias não veio de uma piora no balanço de nenhum banco específico — veio de um movimento amplo de cautela com o país e com o setor como um todo.

O que o relatório do próprio Itaú mostra sobre essa cautela

O ponto mais interessante, porém, é que o próprio relatório do 2T26 já mostra o banco se posicionando para esse cenário mais desafiador — antes que ele se agrave. O crescimento da carteira de pessoas físicas foi concentrado justamente nas linhas com garantia real ou consignação (imobiliário e consignado), em vez de crédito não garantido, que tende a sofrer mais em ambientes de inadimplência crescente. O banco também reforçou suas provisões para garantias financeiras, compromissos de crédito e créditos a liberar, e mantém toda sua concessão de crédito balizada por um arcabouço formal de apetite de risco, aprovado pelo Conselho de Administração e monitorado continuamente por seis dimensões de risco.

Isso não é uma garantia de que a inadimplência não vá subir — o próprio setor admite que espera piora à frente, e seria ingênuo descartar esse risco. Mas é um sinal de que os grandes bancos brasileiros, com destaque para o Itaú, não estão sendo passivos diante do cenário: estão exigindo mais colateral, direcionando o crescimento para linhas mais seguras e mantendo capital e cobertura de provisão em níveis historicamente confortáveis para absorver um eventual choque.

O que fica de prático

Este artigo não recomenda a compra ou venda de nenhuma ação específica — é uma leitura de um resultado trimestral à luz do cenário mais amplo de crédito e fluxo de capital no Brasil. As incertezas são reais: o mercado projeta piora da inadimplência, o investidor estrangeiro está reduzindo posição na bolsa brasileira, e o cenário eleitoral adiciona uma camada extra de cautela. Mas, com base no relatório do próprio banco, há evidência concreta de que o Itaú está se preparando para esse ambiente mais difícil com maior seletividade na concessão de crédito e exigência de garantias — o que é bem diferente de um banco surpreendido por uma crise. A pergunta que cada leitor precisa responder por conta própria é se esse preparo já está refletido no preço atual da ação, ou se o desconto embute mais medo do que os números justificam.


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Dividendo Certo é uma newsletter sobre renda passiva com dividendos, pela ótica do value investing — Bazin, Barsi, Buffett, Munger, Lynch e Howard Marks aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

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