
A Amazon divulgou no dia 30 de julho de 2026 os resultados do segundo trimestre, e os números vieram fortes em praticamente todas as frentes. Receita total de US$ 200,6 bilhões, alta de 20% em relação ao mesmo período de 2025. Lucro operacional — ou seja, quanto a empresa ganhou com sua operação real, sem contar efeitos financeiros e investimentos — de US$ 27,5 bilhões, crescimento de 43% no ano. O AWS, divisão de computação em nuvem da Amazon, cresceu 37% e atingiu seu ritmo mais rápido em 18 trimestres.
É um resultado que merece atenção, sobretudo para quem, como eu, carrega a Amazon como terceira maior posição internacional na carteira — com um ganho acumulado de 57% desde maio de 2024.
AWS: o coração do negócio bate mais forte
Quando falamos de Amazon como investimento, o comércio eletrônico — aquela loja online que todo mundo usa para comprar de livro a geladeira — é apenas parte da história. A divisão que realmente dita o valor da empresa é o AWS (Amazon Web Services), o serviço de computação em nuvem que aluga infraestrutura digital para milhares de empresas ao redor do mundo, de startups a governos.
No Q2 2026, o AWS faturou US$ 42,2 bilhões só no trimestre — crescimento de 37% sobre o mesmo período do ano anterior, o mais rápido desde 2021. A margem operacional do AWS ficou em 39,4%, o que em linguagem simples significa: de cada US$ 100 que o AWS recebeu, quase US$ 40 ficaram como lucro da operação. Isso é um negócio muito lucrativo.
Dois números adicionais chamam atenção: o negócio de inteligência artificial da Amazon e sua divisão de chips (processadores próprios) cada um superou uma taxa anual de receita de US$ 25 bilhões, ambos crescendo em ritmo de três dígitos percentuais ao ano. A Amazon está apostando pesado em ser a infraestrutura do mundo de IA — e, até agora, essa aposta está ganhando.
O lucro de US$ 62 bilhões: o que está por trás do número
O lucro líquido do trimestre foi de US$ 62,6 bilhões, ou US$ 5,75 por ação. À primeira vista, parece extraordinário — e foi um salto imenso em relação aos US$ 18,2 bilhões do Q2 2025. Mas é importante entender o que está dentro desse número.
Dos US$ 62,6 bilhões de lucro, US$ 53,4 bilhões vieram de ganhos financeiros não operacionais — principalmente da valorização da participação da Amazon na Anthropic, empresa de inteligência artificial (a mesma que desenvolve o Claude). Esse tipo de ganho é contabilizado como lucro, mas não é recorrente: ele não vem da operação do negócio, e pode oscilar bastante de trimestre a trimestre dependendo do valor de mercado dos investimentos.
O lucro operacional, que mede o que a empresa ganha com sua atividade normal, foi de US$ 27,5 bilhões — também um número robusto e crescente, mas bem diferente daquele US$ 62 bilhões de manchete. Para quem analisa uma empresa de verdade, o lucro operacional é o número que importa como indicador de saúde do negócio.
Fluxo de caixa livre negativo: por que isso não é necessariamente um sinal ruim
Um dado que pode assustar quem olha pela primeira vez: o fluxo de caixa livre — que é o dinheiro que sobra depois que a empresa paga todas as contas e seus investimentos em infraestrutura — ficou negativo em US$ 7,6 bilhões nos últimos doze meses.
A explicação está no tamanho da aposta da Amazon em inteligência artificial. A empresa comprou US$ 173 bilhões em propriedades e equipamentos nos últimos doze meses — data centers, chips, infraestrutura — 64% mais do que no período anterior. É um volume de investimento extraordinário, que consome caixa hoje para gerar receita amanhã.
O fluxo de caixa operacional — que mede o dinheiro gerado pela operação antes de descontar esses investimentos — cresceu 33%, para US$ 161,4 bilhões no acumulado dos últimos doze meses. Ou seja: a máquina gera muito caixa. O problema não é geração de caixa; é que a Amazon está reinvestindo esse caixa e muito mais em crescimento futuro. Isso é diferente de uma empresa que não consegue gerar dinheiro.
Quem segue a filosofia de Buffett entende bem esse raciocínio: uma empresa que tem capacidade de reinvestir o próprio caixa com retornos altos está criando valor, mesmo que o fluxo de caixa livre momentâneo pareça negativo.
Amazon paga dividendos? A questão que todo investidor de renda deve ter clareza
Não. A Amazon não distribui dividendos aos acionistas — e provavelmente não distribuirá no curto e médio prazo. Essa é uma diferença fundamental em relação ao perfil típico das ações brasileiras da minha carteira (BBAS3, ITUB4, BBSE3, TAEE11, entre outras), que são escolhidas justamente pelo critério de Décio Bazin de dividend yield — o rendimento anual em dividendos — mínimo de 6% ao ano.
Então por que Amazon está na minha carteira internacional?
A resposta está na estratégia de construção do portfólio como um todo. No Brasil, foco em empresas maduras, pagadoras de dividendos consistentes, com fluxo de caixa previsível — bancos, seguradoras, transmissoras de energia. São os pilares de renda passiva. Nos Estados Unidos, o mix contempla também empresas de crescimento com qualidade comprovada, que reinvestem o lucro a taxas altas em vez de distribuir. A Amazon é esse tipo de empresa: não paga dividendo, mas tem gerado valorização de capital expressiva.
Os 57% de ganho acumulado desde maio de 2024 são a renda passiva implícita dessa posição — que se materializa não no bolso a cada trimestre, mas no valor patrimonial da carteira ao longo do tempo. Jeremy Siegel mostrou em décadas de dados históricos que ações de empresas com alto retorno sobre capital tendem a superar o mercado no longo prazo, mesmo sem distribuir proventos diretamente.
Para quem busca exclusivamente renda no bolso todo trimestre, Amazon não é o ativo certo. Para quem pensa em construção de patrimônio de longo prazo com um mix equilibrado entre renda corrente (Brasil) e crescimento de capital (EUA), ela cumpre um papel específico na carteira.
O que fica de prático
O Q2 2026 confirmou que os alicerces da Amazon estão sólidos: AWS crescendo forte, publicidade acelerando (26% de crescimento), operação comercial ganhando eficiência. O lucro inflado pelos ganhos com Anthropic vai passar — o que fica é o lucro operacional crescendo, a margem expandindo, e a empresa capturando a demanda por infraestrutura de inteligência artificial.
O fluxo de caixa livre negativo é um ponto de atenção para acompanhar: se a Amazon continuar investindo nesse ritmo e a receita do AWS não acelerar para compensar, a equação pode ficar mais tensa lá na frente. Por ora, o crescimento de 37% do AWS sugere que o mercado está absorvendo bem essa infraestrutura.
Para quem já tem posição como eu, os resultados não trazem motivo para revisão de tese. Para quem está avaliando, o ponto central é entender que essa não é uma ação de dividendo — é uma aposta no crescimento do mundo digital e de inteligência artificial, com uma empresa que tem demonstrado execução consistente.
Aviso: este artigo tem caráter educativo e reflete a visão pessoal do autor. Não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo. Antes de investir, avalie seus objetivos e o seu perfil de risco.
Deixe um comentário