Por Rodrigo Gomes Flores — Dividendo Certo

Toda vez que a temporada de balanços se aproxima, a atenção do investidor de renda se volta imediatamente para os grandes bancos. Queremos saber como foi o trimestre do Itaú ($ITUB4), se o Bradesco ($BBDC4) engatou a virada e como o Banco do Brasil ($BBAS3) lidou com a inadimplência.
Existe, porém, uma dinâmica inevitável na atividade bancária: emprestar dinheiro envolve risco de crédito. Quando a taxa de juros permanece elevada por muito tempo, a PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) sobe, pressionando as margens e trazendo volatilidade para os lucros de curto prazo.
Mas e se existisse um setor na Bolsa que se beneficia diretamente desse cenário de juros altos, não corre risco de calote de crédito e ainda consegue distribuir proventos generosos e previsíveis?
Esse setor existe — e é formado pelas gigantes do setor de seguros, com destaque para BB Seguridade ($BBSE3) e Caixa Seguridade ($CXSE3).
O que é o “Float”? Pense nele como um “empréstimo grátis” dos clientes
Para entender por que as seguradoras operam em uma situação tão confortável, você precisa conhecer o motor mestre desse negócio: o Float.
Em vez de termos técnicos complicados, imagine a seguinte situação do cotidiano:
Imagine que você é dono de uma loja e os seus clientes resolvem pagar a assinatura anual do seu serviço adiantada, logo no primeiro dia de janeiro. O dinheiro de todo o ano entra integralmente na sua conta corrente hoje.
Porém, os seus custos para prestar esse serviço não acontecem todos de uma vez: eles vão surgindo aos poucos, ao longo dos próximos 12 meses. Para melhorar, muitos clientes nem chegam a acionar o serviço durante o ano todo.
O que você faz com essa montanha de dinheiro acumulada na sua conta enquanto os custos não chegam? Você não deixa o dinheiro parado: você coloca tudo no Tesouro Selic ou em uma conta que rende 100% do CDI para gerar juros a seu favor.
Aquele dinheiro que já entrou na sua conta, mas que você só precisará gastar no futuro (se gastar), é o Float.
No mundo das seguradoras, é exatamente assim que a engrenagem funciona:
- Você contrata um seguro de vida, de carro ou residencial e paga o valor do prêmio à vista ou em parcelas mensais.
- A seguradora recebe esse dinheiro imediatamente. No entanto, ela só terá que pagar uma indenização (o chamado sinistro) no futuro — se e quando algum imprevisto acontecer.
- Como a empresa tem milhões de clientes pagando todos os dias e apenas uma fração pequena deles sofre acidentes no mesmo mês, o saldo dessa “conta corrente” nunca zera. Cria-se uma verdadeira “piscina perpétua” de bilhões de reais acumulados.
Em suma: o Float é um empréstimo gigante e perpétuo que os clientes fazem para a seguradora sem cobrar 1 centavo de juros por isso. A seguradora pega esse dinheiro grátis, aplica no mercado financeiro atrelado à taxa Selic e fica com todo o rendimento. Quando os juros estão altos no Brasil, o lucro financeiro dessas empresas cresce praticamente no “piloto automático”.
A lição de Warren Buffett: O segredo por trás do império da Berkshire Hathaway
Se você acha que essa engenharia financeira é apenas um detalhe, saiba que foi exatamente assim que o maior investidor do mundo, Warren Buffett, construiu sua fortuna.
A grande alavanca da holding de Buffett (a Berkshire Hathaway) não foram apostas em empresas de tecnologia de alto risco, mas sim a aquisição de companhias de seguros — com destaque para a famosa GEICO.
Buffett percebeu muito cedo que o setor de seguros entrega o que ele chama de “Float com custo negativo”:
“Nós recebemos o dinheiro do prêmio hoje e só pagamos as indenizações anos depois. Enquanto isso, esse capital fica parado no nosso balanço gerando rendimentos — e nós podemos usá-lo para investir sem pagar juros por isso.” — Warren Buffett.
No Brasil, $BBSE3 e$CXSE3 executam essa mesma estratégia com maestria: captam os prêmios dos seguros e deixam bilhões de reais rendendo a taxas de juros de dois dígitos ao ano, transformando esse retorno financeiro em dividendos diretos na conta do acionista.
Zero risco de inadimplência de crédito
Existe outra vantagem crucial do setor de seguros em relação aos bancos tradicionais: seguradora não toma calote de crédito.
Se o cliente de um banco não paga a parcela do empréstimo, o banco toma o prejuízo e precisa lançar essa perda no balanço como PDD.
Se o cliente da seguradora deixa de pagar a mensalidade do seguro, a apólice é simplesmente cancelada. A seguradora não fica com dívida, não precisa negativar o cliente nem gastar com cobrança; ela apenas deixa de cobrir o risco a partir daquele momento.
Enquanto os bancos precisam criar reservas bilionárias para se proteger da inadimplência em épocas de aperto econômico, as seguradoras mantêm suas margens protegidas e o caixa livre para distribuição.
BBSE3 e CXSE3: Bancões trabalhando como força de vendas
Somado ao Float e à ausência de risco de crédito, BB Seguridade e Caixa Seguridade contam com uma vantagem competitiva imbatível: o modelo de bancassurance.
Elas utilizam a estrutura física das agências e os canais digitais do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para vender seus produtos. Isso significa que elas não precisam gastar fortunas construindo redes próprias de vendas ou contratando milhares de corretores.
Com custos operacionais baixíssimos, modelo de negócio leve em ativos (asset-light) e um caixa em constante expansão impulsionado pelo Float, o resultado para quem busca renda passiva é direto: payouts elevados e Dividend Yields que superam o Critério Bazin (mínimo de 6% ao ano) com extrema facilidade.
O papel das seguradoras na sua carteira de dividendos
Isso significa que você deve vender seus bancos e comprar apenas seguradoras? Não. Os grandes bancos continuam sendo pilares indispensáveis de qualquer portfólio focado em renda no longo prazo.
No entanto, adicionar $BBSE3 e$CXSE3 ao lado de $ITUB4 e$BBAS3 cria um equilíbrio estratégico perfeito: enquanto seus bancos navegam as oscilações dos ciclos de crédito, suas seguradoras fornecem uma âncora de estabilidade, previsibilidade de proventos e rentabilidade turbinada pelos juros altos.
Nesta temporada de balanços, lembre-se: a verdadeira tranquilidade financeira não vem de adivinhar o resultado do próximo trimestre, mas sim de investir em negócios cujos modelos operacionais trabalham a favor do seu bolso em qualquer cenário.
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