Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro.

Dia de ir às compras

Para quem acompanha o noticiário, o mundo parece caótico agora. Os Estados Unidos foram à guerra em definitivo contra o Irã. A guerra na Ucrânia não dá nenhum sinal de que vai acabar, mesmo depois de quatro anos de conflito. E o Brasil segue com os problemas de sempre — juros na estratosfera e déficit fiscal ameaçando sair de controle, exatamente como acontece também nos Estados Unidos.

Isso, por si só, já recomenda cautela. Não é hora de agir por impulso, nem de ignorar o cenário como se ele não existisse.

Mas cautela não é sinônimo de imobilismo. E foi por isso que, com as reservas acumuladas com a venda total de EGIE3, aproveitei as quedas de hoje para comprar.

ISAE4: uma queda que parece exagerada neste momento

A primeira compra foi ISAE4, que hoje mostra queda de -6,9% — boa parte explicada pelo efeito técnico da subscrição em andamento (mais ações no mercado tendem a pressionar o preço no curto prazo, é matemática de diluição, não deterioração de negócio). Mas a queda de hoje parece maior do que esse efeito técnico justificaria sozinho. Isso é exatamente o tipo de situação que interessa a quem segue o critério de Bazin: o negócio (transmissão de energia, RAP contratada, reajustada por inflação) não mudou da noite para o dia — só o preço caiu, e mais do que o motivo aparente sugere.

Itaúsa: de R$ 15 para R$ 13,52 — um desconto de quase 10%

A segunda compra foi Itaúsa (ITSA4). Num momento de trégua entre uma crise e outra, recentemente, a ação chegou a ser negociada a R$ 15. Hoje a tela mostra R$ 13,52 — uma queda de 9,87%, quase 10% de desconto num intervalo curto de tempo. Para uma holding com a qualidade de portfólio que a Itaúsa tem (Itaú como ativo-âncora, mais as demais participações), esse tipo de desconto rápido, motivado por medo generalizado do cenário macro e não por um problema específico do negócio, é precisamente o momento que interessa a quem pensa em década, não em manchete.

Por que comprar em meio ao caos, e não apesar dele

Existe uma lógica por trás de comprar justamente quando o noticiário está mais assustador, e não é insensibilidade ao risco — é reconhecer que o preço de um ativo e o valor de um ativo são coisas diferentes, e que o mercado, no curto prazo, reage ao medo do momento, não aos fundamentos de longo prazo. A crise de agora — seja ela geopolítica ou fiscal — não muda o fato de que ISAE4 continua entregando uma receita contratada e reajustada, e que Itaúsa continua sendo dona de uma fatia relevante do maior banco privado do país.

O que a crise de agora faz, na prática, é me garantir dividendos mais perenes no futuro — porque cada real investido num desconto de quase 10% (no caso de ITSA4) ou numa queda que parece exagerada (no caso de ISAE4) compra uma fatia maior do fluxo de caixa futuro dessas empresas do que compraria em um momento de otimismo e preço cheio.

O cuidado que continua valendo

Isso não significa sair comprando tudo de uma vez só, com todo o caixa disponível de uma tacada. É preciso ir com calma nas compras, escalonando ao longo do tempo, para conseguir aproveitar o melhor momento possível dentro de uma janela de queda — que raramente tem fundo definido com precisão enquanto está acontecendo. Ninguém acerta o fundo exato; o objetivo não é acertar o fundo, é aproveitar o desconto real enquanto ele está disponível, sem apostar tudo de uma vez na expectativa de que o preço não vá cair mais um pouco antes de virar.

O mundo lá fora continua caótico. A carteira aqui dentro segue o próprio processo, um pouco de cada vez.

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