
Todo investidor de dividendos no Brasil tem (ou já teve) Vale (VALE3) ou Banco do Brasil (BBAS3) na carteira. É quase inevitável. Elas são máquinas de gerar caixa, dominam seus setores e costumam pagar proventos generosos.
Mas investir no Brasil exige um estômago peculiar. O mercado não precifica o Banco do Brasil com desconto em relação ao Itaú à toa. A Vale não negocia a múltiplos baixos apenas pelos solavancos do minério de ferro na China.
Existe uma taxa invisível cobrada de quem investe nessas empresas: o Risco de Governança. E, nesta semana, o mercado recebeu dois lembretes amargos de como essa dinâmica funciona.
O Fantasma na Vale: Privatizada, mas nem tanto
A Vale foi privatizada nos anos 90, mas o governo sempre manteve uma “sombra” sobre a empresa, seja via Previ (fundo de pensão dos funcionários do BB) ou por pressões de bastidores.
O sinal de alerta mais recente soou com a tentativa de interferência do governo, que pressionou para que a mineradora fizesse negócios com a J&F, a holding dos irmãos Batista. Para o investidor focado em fundamentos, isso acende um farol vermelho.
Quando um governo (qualquer que seja a sua cor partidária) tenta ditar os parceiros comerciais de uma empresa privada, a eficiência operacional deixa de ser a prioridade. A mensagem que fica é clara: ser uma corporation (empresa sem controlador definido) no Brasil não te blinda totalmente da política.
O Cheque em Branco do Banco do Brasil
Se na Vale a pressão é de bastidores, no Banco do Brasil ela é institucional. O BB é uma estatal. O controlador é a União. E quando você compra ações do BB, você aceita que o seu sócio majoritário tem objetivos que vão muito além de maximizar os seus dividendos.
A notícia de que o Banco do Brasil fechou um negócio para pagar cerca de US$ 2 bilhões aos Correios (outra estatal) — sem licitação — é o exemplo clássico de por que a ação é negociada com tanto desconto na tela.
O negócio pode até ter sinergias estratégicas, mas a forma como é feito (sem concorrência, entre duas empresas do governo) levanta dúvidas legítimas sobre a alocação de capital. Esse dinheiro bilionário sai do caixa do banco. É dinheiro que pertence aos acionistas. Quando a transparência falha, a confiança do mercado despenca.
O que isso muda na prática? (Abertura de Carteira)
Antes de mais nada, vamos colocar a bola no chão: eu não estou dizendo para você abrir o home broker e vender as suas ações no pânico. Não é assim que o Dividendo Certo opera.
Para ser 100% transparente com você, abro aqui o que estou fazendo com o meu próprio dinheiro: eu não vou vender o meu Banco do Brasil. Continuo com a minha posição intacta. Porém, ao preço de hoje, na casa dos R$ 20,70, eu não acho que vale a pena aportar dinheiro novo. O combo de piora na governança, a incerteza pairando sobre a inadimplência — principalmente na carteira do agronegócio — e, muito importante, os baixos dividendos que a empresa tem distribuído recentemente, me fazem fechar a carteira para novas compras de BBAS3 no momento.
Já no caso da Vale, a minha leitura é diferente. Apesar dos ruídos governamentais, o desconto atual compensa o risco na minha estratégia. Tanto que, neste exato momento, tenho uma ordem de compra armada na pedra a R$ 69,99.
O que precisamos fazer, como investidores maduros, é ajustar as nossas expectativas e regras de bolso:
- Entenda o desconto: O Banco do Brasil sempre será mais barato que o Itaú (o nosso famoso “relógio suíço”). Esse desconto é justamente o “pedágio” que você aceita pagar para tolerar manobras sem licitação.
- Cuidado com a dependência: Se a sua carteira depende majoritariamente de BBAS3 ou de estatais, o seu fluxo de dividendos está exposto ao humor de Brasília. Diversificação, aqui, não é falta de convicção; é instinto de sobrevivência.
- Governança importa: Quando as regras do jogo ficam confusas, o mercado bate na cotação. Um histórico de interferências afeta a eficiência a longo prazo, e menos eficiência significa menos lucro líquido para distribuir para nós.
No fim do dia, investir no Brasil é aceitar que, vira e mexe, o Estado se comporta como um sócio intrometido. A pergunta que você deve fazer ao olhar para a sua carteira hoje não é “quando cai o próximo dividendo?”, mas sim: “Eu estou pagando caro demais para correr esse risco?”
Um abraço e até a próxima edição.
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