Dividendo Certo

Análises de dividendos, renda passiva e psicologia dos mercados pela ótica do value investing aplicados à carteira real de um investidor brasileiro. Perfil no "X" (Twitter): @dividendocerto

Para onde foi o capital da EGIE3

RODRIGO GOMES FLORES — 16 de junho de 2026

No artigo de ontem, expliquei por que vendi minha posição em EGIE3. A empresa é excelente — mas o yield comprimiu para 4,2%, o payout está contido por decisão da própria gestão, e a oferta primária de ações para incorporar a Usina Hidrelétrica Jirau colocaria o acionista minoritário sem capital disponível numa posição de diluição inevitável.

A pergunta natural que fica é: o dinheiro foi para onde?

Essa é a parte que a maioria dos investidores não conta. Mas ela é tão importante quanto a decisão de vender — porque o capital ocioso é capital que não trabalha, e capital que vai para o lugar errado pode ser pior do que ter ficado quieto.

A lógica da realocação

Antes de decidir o destino, precisei responder uma pergunta: o que eu precisava que o substituto fizesse?

A resposta foi simples. Precisava de ativos que pagassem dividendos mais relevantes do que os 4,2% que a EGIE3 estava entregando, não exigissem capital adicional meu para manter a participação, e tivessem teses sólidas no horizonte de médio prazo.

Décio Bazin, o investidor brasileiro que popularizou o método de seleção por dividendos no país, tinha uma régua simples: se a ação não pagasse pelo menos 6% de dividend yield, ele vendia. Não sigo o método de Bazin à risca — minha carteira tem critérios próprios e cada ativo tem um papel específico independente do yield isolado. Mas quando olhei para os 4,2% que a EGIE3 estava entregando, com payout contido e oferta primária no horizonte, percebi que minha decisão chegaria ao mesmo lugar que a dele. Às vezes a coincidência com um método consagrado é o sinal de que você está pensando certo.

Com esse critério em mãos, dividi o capital em três frentes.

Primeira frente: compras imediatas

Uma parte do capital foi alocada imediatamente em três posições que já fazem parte da carteira e que, no momento da venda da EGIE3, estavam em preços que considerei atrativos para aumentar posição.

ITSA4 — a holding do Itaú é uma forma eficiente de ter exposição ao banco mais rentável do Brasil com um desconto estrutural em relação ao valor de mercado das participações.

BBDC4 — já escrevi aqui sobre a tese de turnaround do Bradesco. Aumentar posição enquanto a ação opera em múltiplos historicamente deprimidos é exatamente o tipo de movimento que a tese de longo prazo recomenda.

BBSE3 — o BB Seguridade é um dos ativos mais eficientes da bolsa brasileira em termos de geração de caixa por capital empregado. Estrutura leve, crescimento consistente, dividendos relevantes.

Segunda frente: ordens limitadas

Uma segunda parte do capital não foi alocada de imediato — está posicionada em ordens de compra com preços-limite abaixo da cotação atual. Só executa se o mercado trouxer as ações até onde eu quero pagar.

As ordens estão em: ITSA4 a R$ 12,26, TAEE11 a R$ 39,01/38,99, e ISAE4 a R$ 26,99.

Essa é uma das práticas mais subestimadas no investimento em dividendos: definir o preço que você quer pagar e esperar o mercado chegar até você — em vez de correr atrás do preço. A ordem limitada é paciência transformada em instrução automática.

Se as cotações caírem até esses níveis, compro. Se não caírem, o capital segue na terceira frente enquanto espero.

Terceira frente: reserva no Tesouro

O restante do capital foi para o Tesouro — e ficará lá como reserva.

Quero deixar claro o que isso significa na minha estratégia: não é dinheiro parado por indecisão. É capital reservado intencionalmente para aumentar posições existentes à medida que surgem oportunidades. O nome já diz tudo — é uma reserva, não um destino permanente.

O mercado oscila. Empresas que você já conhece, já analisou e já tem convicção eventualmente chegam a preços que justificam aumentar a posição. Quando isso acontece, o investidor que tem reserva compra. O que não tem, assiste.

Manter uma reserva não é timidez. É parte da estratégia.

O que esse movimento diz sobre a carteira

Vendendo EGIE3 e realocando dessa forma, a carteira ficou com mais exposição ao setor financeiro — ITSA4, BBDC4 e BBSE3 reforçam uma tese que já tenho em ITUB4 e BBAS3 —, exposição pendente em energia elétrica via ordens limitadas — TAEE11 e ISAE4 ficam no radar com preços definidos —, e reserva disponível para oportunidades — capital líquido, sem pressa, aguardando o momento certo.

A carteira não ficou mais concentrada — ficou mais deliberada. Cada posição tem um papel claro, um preço de entrada justificado e uma tese que eu consigo explicar.

Isso é o que o Dividendo Certo busca construir: não a carteira perfeita no papel, mas a carteira que faz sentido para quem a carrega.


Este artigo é de caráter informativo e educacional. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo. Cada investidor deve fazer sua própria análise considerando seu perfil de risco e objetivos financeiros.

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