RODRIGO GOMES FLORES — 11 de junho de 2026
Em 3 de junho de 2026, a Itaúsa divulgou um Fato Relevante seco, de um parágrafo, comunicando que não apresentaria proposta para adquirir 30% do capital total da Copasa MG. O veículo utilizado seria a Livorno Participações S.A. — uma SPE montada especificamente para o processo de seleção do Investidor de Referência na privatização da companhia de saneamento mineira.
A justificativa oficial: “disciplina na alocação de capital e contínua criação de valor sustentável.”
Linguagem corporativa. Mas quem acompanha o 1T26 da Itaúsa com atenção sabe que essa decisão não veio do nada — e, mais importante, ela tem implicação direta no bolso de quem recebe dividendos de ITSA4.
Por que a saída não surpreendeu
Alfredo Setubal abriu a carta aos acionistas do 1T26 com uma frase que vale ser lida com atenção: “Resultados consistentes em um ambiente de maior incerteza global.”
Ele cita Selic ainda em patamar elevado, inflação acima do centro da meta e a desaceleração gradual da atividade econômica. O tom é de cautela — não de expansão agressiva de portfólio.
Agora olhe para a Aegea, a investida de saneamento da Itaúsa (participação de 13,27% após aporte de R$ 418 milhões em março/26): prejuízo líquido (controlador) no 1T26 de R$ 52 milhões — não por problema operacional, o EBITDA cresceu 51,1%, o lucro foi destruído pelas despesas financeiras, reflexo direto do endividamento elevado num ambiente de Selic alta. Dívida Líquida/EBITDA em 3,9x (1T25: 3,0x), subiu 0,9x em um ano, pressionada pela expansão acelerada e pelas novas operações no Pará e Piauí. CAPEX no 1T26 de R$ 1,6 bilhão (+49,6% vs. 1T25) — a Aegea está em modo de execução pesada, não de novas aquisições bilionárias.
A Copasa exigiria um novo aporte de capital significativo numa empresa que já está com alavancagem no limite confortável e cujo resultado financeiro está sendo corroído pela Selic. Quando o Anúncio de Retificação de 28 de maio definiu o preço mínimo por ação, o racional econômico do negócio simplesmente não fechou.
A Itaúsa sinalizou isso antes mesmo do fato relevante: quando o Itaú Unibanco (91% do resultado da holding) reduziu o provisionamento de JCP em relação ao ano anterior, e quando a própria holding arcou com um aporte de R$ 435 milhões na Aegea no trimestre — reduzindo o caixa e elevando a dívida líquida da holding para R$ 1,0 bilhão (+188% vs. 1T25).
Resumindo: não havia espaço financeiro nem racional estratégico para entrar na Copasa agora.
O que isso muda para quem recebe dividendos
A lógica da Itaúsa como holding é simples: ela recebe proventos das investidas e repassa integralmente ao acionista. A prática declarada no 1T26 confirma: “a nossa prática de distribuição de proventos tem sido, até o momento, repassar integralmente os proventos recebidos do Itaú Unibanco relativos a cada exercício social.”
Sem a Copasa, dois efeitos concretos: primeiro, sem chamada de capital adicional na Aegea no curto prazo — cada aporte na Aegea consome caixa da holding, e no 1T26 o aporte de R$ 418 milhões foi um dos principais fatores do aumento da dívida líquida da Itaúsa; sem novos compromissos de capital imediatos, o caixa da holding fica mais disponível para remunerar o acionista. Segundo, menos pressão sobre o cronograma de proventos — o fluxo de proventos do 1T26 já mostra crescimento robusto: R$ 1,297 bilhão pago/a pagar pela Itaúsa, +39% vs. 1T25, com o motor principal sendo o Itaú Unibanco, que entregou R$ 1,376 bilhão em proventos à holding (+43%). A Copasa teria adicionado risco de execução e consumo de capital sem entregar dividendo relevante nos próximos 2-3 anos (projetos de saneamento têm payback longo).
Os números do 1T26 que sustentam o argumento
O dividend yield caiu de 9,6% para 8,8% — mas não porque a empresa distribui menos. O motivo é o oposto: a ação valorizou 53% em 12 meses (TSR total de 67,6%), acima do Ibovespa (+43,9%) e muito acima do CDI (+14,8%). Quem estava posicionado capturou valorização + dividendo.
Um catalisador que o mercado ainda não precificou completamente
A reforma tributária aprovada em janeiro de 2025 vai eliminar a incidência de PIS e COFINS sobre os JCPs recebidos pela holding a partir de janeiro de 2027. Essa ineficiência custou R$ 859 milhões em 2025 e R$ 224 milhões só no 1T26.
Quando esse custo sumir, uma parcela relevante desse valor se transforma em margem adicional disponível para distribuição. Não é um efeito imediato, mas está se aproximando — e o desconto de holding de 19,4% atual provavelmente já não reflete esse benefício de forma adequada.
O que monitorar nos próximos trimestres
JCP do 2T26: O Itaú Unibanco continua como principal motor. O crescimento da carteira de crédito (+7,2%) e o avanço em Seguros e Previdência (+16,5%) sustentam a capacidade de distribuição do banco.
Aegea: Empresa segue com prejuízo no contábil por causa dos juros. Se a Selic cair de forma mais acelerada, o alívio no resultado financeiro da Aegea pode ser expressivo — e eventualmente ela começa a gerar dividendos para a Itaúsa (hoje não distribui nada para a holding).
Copa Energia: Único ativo não-financeiro que distribui regularmente. Contribuiu com R$ 23 milhões em proventos no 1T26 (+92% vs. 1T25).
Dexco e Alpargatas: Não distribuíram proventos no 1T26. Ambas em processo de desalavancagem. Quando voltarem a distribuir, representam upside adicional para o fluxo de proventos da holding.
Conclusão
A desistência da Copasa foi a decisão correta para quem quer dividendos de ITSA4. Entrar num ativo com capital intensivo, retorno de longo prazo e custo de dívida proibitivo no ambiente atual seria travar caixa que hoje vai direto para o acionista.
Alfredo Setubal sinalizou cautela no 1T26. O Fato Relevante de 3 de junho confirmou com ação. Para o investidor de dividendos, o recado é claro: a Itaúsa preferiu remunerar o acionista a crescer pelo crescimento.
Com DY de 8,8%, ROE de 20%, lucro recorrente crescendo 17% e a reforma tributária chegando em 2027, ITSA4 segue como uma das bases mais sólidas da carteira voltada para renda.
Fontes: Relatório da Administração 1T26 — Itaúsa (12/05/2026); Fato Relevante — Processo de Investimento na Copasa MG (03/06/2026).
Este conteúdo é para fins informativos e educacionais. Não constitui recomendação de compra ou venda de valores mobiliários.
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